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Diferentes ortografias representam a linguagem falada de diferentes formas. Um aspeto importante que varia ao longo das ortografias reside na consistência da relação entre as letras e os sons. Em ortografias relativamente constantes (e.g., italiana, alemã, etc.), as letras tendem a ter uma relação mais direta com os sons do que noutras ortografias (e.g., inglesa). Nestas, a relação entre as letras e os sons é por vezes equívoca, já que várias letras podem ser pronunciadas de forma diferente e que vários sons podem ser pronunciados de várias formas (Ziegler, Perry, Jacobs & Braun, 2001).

Através de um estudo com 53 sujeitos (30 cuja língua materna era o alemão e 23 cuja língua materna era o inglês), que deveriam ler as palavras ou pseudopalavras idênticas, Ziegler, Perry, Jacobs e Braun (2001) verificam que itens idênticos são

Rui Manuel Carreteiro 89 processados de forma diferente em ortografias diferentes (inglês/alemão), pelo que a consistência da ortografia determina, não só a contribuição relativa dos códigos ortográficos/fonológicos, como também a dimensão das unidades que tendem a ser funcionais durante a leitura (maiores no caso do inglês e mais pequenas no caso do alemão).

A Hipótese da Profundidade Ortográfica (HPO) tem permitido estudar se todas as linguagens escritas são processadas da mesma forma (hipótese universal) ou se existem aspetos dependentes (Katz & Feldman, 1983, cit in Ziegler, Perry, Jacobs & Braun, 2001). De acordo com a HPO, os leitores adaptam as suas estratégias de processamento às exigências da ortografia em que estão a ler. Sabendo-se que existem, pelo menos, duas vias de acesso ao léxico (via fonológica e ortográfica), esta hipótese propõe que, nas linguagens consistentes (ortografia transparente), onde a relação entre sons e letras é relativamente clara, os leitores são encorajados a utilizar a via fonológica. Já nas linguagens inconsistentes (ortografia profunda), face à sua ambiguidade, os leitores ficam relutantes em utilizar a via fonológica, tendendo a utilizar a via ortográfica (Ziegler, Perry, Jacobs & Braun, 2001).

Apesar de a HPO obter apoio de vários estudos transculturais, esta teoria está longe de ser um dogma e os seus próprios autores já não acreditam que a diferença entre ortografias profundas ou transparentes esteja no reconhecimento visual da palavras, concordando que a consistência ortográfica pode afetar, não só, a contribuição da fonologia (i.e., a opção entre via ortográfica ou fonológica) como os próprios processos fonológicos (Ziegler, Perry, Jacobs & Braun, 2001).

De facto, de acordo com Ziegler, Perry, Jacobs e Braun (2001), o que parece diferir entre as várias ortografias não é a quantidade de recodificação fonológica necessária, mas antes a natureza da própria recodificação fonológica. Assim, crianças

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que aprendem a ler em ortografias mais consistentes tendem a utilizar, sobretudo, estratégias de descodificação grafema-fonema, uma vez que nestas ortografias a recodificação fonológica pode operar ao nível mais reduzido porque a relação entre fonemas e grafemas é relativamente unívoca (Ziegler, Perry, Jacobs & Braun, 2001). Contrariamente, em ortografias menos consistentes as crianças tendem a substituir as estratégias de conversão grafema-fonema pelo reconhecimento de padrões de letras e da palavra completa (Ziegler, Perry, Jacobs & Braun, 2001).

De acordo com Vellutino e colaboradores (2004), o desenvolvimento da leitura em línguas com ortografias mais transparentes é geralmente mais rápido, revelando as crianças, geralmente, uma maior consciência fonológica. Assim, parece óbvio que a utilidade da consciência fonológica, enquanto elemento preditor da dislexia, varia de língua para língua.

Nesta área, a visão prevalecente é a de que as dificuldades fonológicas centrais da dislexia são, simultaneamente, menos frequentes e mais difíceis de detetar em crianças que aprenderam a ler em ortografias mais transparentes. Nestas crianças, as perturbações de leitura são mais facilmente identificadas em tarefas que requeiram processamento fonológico implícito, tais como avaliação de memória verbal curto-prazo (Ramus, 2001a; Vellutino et al., 2004), nomeação rápida e aprendizagem associada de pares visuo-verbais, do que através de testes que avaliem a consciência fonológica explícita, tais como a consciência fonológica e a descodificação fonológica (letra-som) (Vellutino et al., 2004).

De Luca e colaboradores (1999) defendem que a dislexia de superfície e a dislexia profunda poderão ter incidências diferentes em diferentes línguas, dependendo da regularidade da correspondência grafema-fonema.

Rui Manuel Carreteiro 91 Para Vellutino e colaboradores (2004), os problemas de leitura, também, diferem quando a ortografia é regular ou menos regular. No caso da primeira, as crianças disléxicas conseguem ler palavras compridas pouco frequentes, bem como pseudopalavras e o seu desempenho é idêntico ao das crianças tidas como normais. Não obstante, considerando que a fluência se encontra afetada, estas crianças lêem palavras isoladas mais lentamente e manifestam, eventualmente, dificuldades de compreensão, como consequência do “efeito gargalo” (Vellutino et al., 2004) do processo de leitura.

Tal como inicialmente referido, a aprendizagem da leitura em crianças chinesas é uma tarefa particularmente complicada, já que estas crianças têm de aprender centenas de caracteres visualmente complexos que contêm componentes fonéticos e radicais, sendo de supor que as capacidades visuais sejam o melhor preditor da sua capacidade de leitura em sistemas alfabéticos (Vellutino et al., 2004). No entanto, segundo Vellutino e colaboradores (2004), mesmo nas crianças chinesas, as capacidades fonológicas acabam por predizer as suas capacidades de leitura, que estão, obviamente, relacionadas com outros défices.

Com base nestes dados, será, obviamente, possível que determinados indivíduos preencham o critério de dislexia em determinadas línguas mas não em outras, havendo mesmo um caso clínico relatado por Wydell e Butterworth (cit in Vellutino et al., 2004) de um rapaz bilingue que conseguia ler normalmente em japonês mas manifestava vários sinais típicos de dislexia quando tentava ler em inglês.

Ao evidenciar que as crianças chinesas com dislexia não exibiam o padrão típico de sub-ativação no córtex temporal esquerdo, Siok, Perfetti, Jin e Tan (cit in Ziegler, 2005) desafiaram a visão da unidade biológica da dislexia. Embora os autores não o tenham afirmado, obviamente que estes resultados tendem a desafiar a hipótese dos danos fonológicos como causa universal da dislexia (Fig. 1.22).

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Figura 1.22

Áreas ativadas pelo processo de leitura nos sistemas de escrita ocidentais e orientais (adaptado de Ziegler, 2005)

No entanto, segundo Ziegler (2005), não existe qualquer incongruência nos factos relatados, já que: a) muitos estudos revelam que as capacidades fonológicas predizem a aquisição da leitura, não só no inglês mas também no chinês e b) na realidade, as crianças disléxicas estudadas por Siok e colaboradores (cit in Ziegler, 2005) apresentavam um défice fonológico.

Ziegler (2005) justifica assim o padrão de resultados obtidos, argumentando que, embora o córtex temporal-parietal esquerdo converta os símbolos escritos (letras) em unidades fonológicas (fonemas) e esta tarefa seja crucial para a aquisição de ortografia alfabética, os chineses não podem utilizar uma correspondência grafema-fonema para aprender a ler já que, no seu sistema logográfico, nenhuma parte dos seus caracteres corresponde a um fonema concreto.

Por conseguinte, não é de surpreender que o córtex temporal esquerdo não seja ativado em tarefas de leitura, pois a análise fonológica é irrelevante para a leitura de escritos logográficos. No entanto, segundo Ziegler (2005), tal não significa que a

Rui Manuel Carreteiro 93 fonologia seja irrelevante para a leitura chinesa, já que, independentemente da língua, a leitura implica o acesso às representações fonológicas das palavras. Apenas o tipo de processamento que permite o acesso a estas representações tende a variar de língua para língua: os leitores de sistemas alfabéticos utilizam correspondências grafema-fonema, enquanto os leitores chineses têm de aprender a fonologia dos caracteres como um todo, necessitando de aprender aproximadamente 3000 caracteres. Este facto exige, certamente, o recurso a estratégias complementares: Ziegler (2005) acredita que os leitores chineses utilizam, provavelmente, memórias motoras para relacionar a fonologia e o soletramento.

Ainda que a sua posição varie um pouco, segundo Dehaene (2007), todas as pessoas estudadas até ao momento mostram uma ativação da mesma região durante a leitura. A forma visual das palavras ativa o flanco occipito-temporal, uma região do córtex que circunda a região fusiforme do hemisfério esquerdo (Fig. 1.23).

Figura 1.23

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