A movimentação em torno do petróleo no Espírito Santo não demorou a acontecer, os estudantes capixabas se organizaram um mês depois do início do movimento no Rio de Janeiro. Formada a Comissão Estudantil de Defesa do Petróleo, em 28 de Abril, na sede Associação dos funcionários públicos do Espírito Santo, estava colocada a resistência à abertura da indústria petrolífera no estado. Nesta, conclamavam a sociedade a debater o tema, se informar, para que desse modo fosse tomada uma solução patriótica (GRANDSON, 2014).
A tese que norteava os estudantes era aquela do General Horta Barbosa, exemplificada pela aderência dos estudantes à propaganda negativa da experiência venezuelana, cujas
171 riquezas estavam tomadas, de forma que aquele país não mandava em si mesmo. Em setembro a Comissão se tornava Centro Estudantil de Defesa do Petróleo, e depois, contatados pelo CENDP, se tornariam, após o I Congresso Estadual do Petróleo, feito de 16 – 20 de outubro, o Centro Espírito-Santense de Defesa do Petróleo, congregando outros setores da sociedade civil. Também se unia à mobilização de alunos e professores da Faculdade de Direito. No caso capixaba, quem organizou a esfera pública sobre o assunto foram os estudantes, aos quais se associaram os políticos e intelectuais. Os comícios eram feitos tanto na capital, quanto no interior. Segundo Setembrino Pelissari, um estudante ativista à época, as manifestações em prol do monopólio estatal transcorriam na mais perfeita tranquilidade, sem intervenção policial, sem desavenças internas, haja vista a grande heterogeneidade de forças congregadas em torno da campanha. Os comícios eram realizados na Praça Oito, no Centro de Vitória e em Maruípe, tendo os trabalhadores e a população mais humilde como público majoritário. Havia caravanas que adentravam o interior para realizar a propaganda nacionalista (GRANDSON, 2014).
A composição da Comissão executiva do petróleo demonstra a grande heterogeneidade das forças atraídas pela campanha, unindo forças progressistas em torno da luta pelo monopólio estatal. Tanto os udenistas, Eurico Rezende, orador, quanto o estudante Pelissari, o perrepista Sergipense Penna e o comunista Hermógenes Fonseca compunham a frente de luta pelo monopólio estatal do petróleo. Em Cachoeiro de Itapemirim estavam os socialistas, Rage Miguel, Deusdedit Batista, Newton Meirelles. Lá os comícios aconteciam na Praça Jerônimo Monteiro.
Importante notar que, no caso da Central Brasileira, o prisma udenista focara em uma postura moralista da realidade, não debatendo temas amplos, como a origem norte- americana da Amforp. No caso da CVRD, Eurico Rezende se prendia ferrenhamente à crítica moralista, sem debater temas amplos da sociedade. Porém, em uma conjuntura extremamente favorável a explosão dos sentimentos nacionalistas, a agremiação no Espírito Santo se uniu através da sua ala moderna, a campanha nacionalista. Uma campanha nacional furou o bloqueio da restrita esfera pública capixaba, colocando uma questão que unia a nação imaginada brasileira, através da ação de seus militantes mais ativos. Porém, cabe perceber, qual foi à resposta que cada força política deu ao problema. A heterogênea participação na organização institucional e nos comícios é sabida, porém, as falas de cada um devem ser analisadas, constituindo-se em zona
172 privilegiada para entender a estruturação do campo político capixaba, através de sua esfera pública. Portanto, cabe analisar a forma com que os envolvidos na campanha, assim como aqueles que a ela se opunham, articulavam os temas: Estado, Nação e Indústria, em resposta ao debate nacional colocado pela elite militante, defensora do
projeto nacionalista, os militares. Quais foram as distintas propagandas existentes no
estado sobre o tema Petróleo e seus problemas intrínsecos? Como se deu a articulação da crença da existência do petróleo no Brasil em um estado que, naquele momento, não era alvo de especulações sobre existência do mineral? Segue-se a estruturação do debate no Espírito Santo de 1940.
4.2.1. O truste no curral dos coronéis: A presença da Standard Oil no
Espírito Santo
A Campanha do Petróleo, como um tema amplo, colocou em debate os temas: Nação, Estado e Industrialização. Espalhada por todo país por meio de uma organização coesa, apesar de heterogênea, a campanha pró-monopólio estatal conseguiu ampla publicidade, mesmo que os principais meios de comunicação da época fossem contrários. No caso capixaba, no recém-democratizado “curral dos coronéis”, aquele em que as elites realocadas no seio do poder desde a revolução de 1930 assumiram o governo, a intensa mobilização social, congregando oposicionistas ao governo Lindenberg e antagonistas ao sistema político brasileiro implementado por Dutra, não deixaria de gerar conflitos. Nestes atritos, aquela comunidade imaginária era definida e redefinida a cada discurso político, sendo as características de um verdadeiro patriota comumente enumeradas pelos diversos atores que mobilizavam a sociedade. Os conceitos estavam em disputa, os espaços de fala também.
As linhas gerais da oposição em torno da questão do petróleo no Espírito Santo giraram ao redor da posição das elites agrário-exportadoras representadas pelo governador do Estado, Carlos Lindenberg, defensoras da participação estrangeira no setor, e da oposição liberal e de esquerda, que defendiam o monopólio estatal. Nesse ponto, é importante destacar que, o conhecido partido liberal, a UDN, assumira uma posição fortemente nacionalista, se alinhando ao debate feito a nível nacional. A posição da agremiação, porém, era fragmentária, pelas diversas posturas assumidas por seus membros. O PSD, outra agremiação extremamente heterogênea e marcada pelo caráter vago de suas diretrizes e organização, também teve suas diferenças internas. No caso
173 capixaba, a oposição do partido dos bacharéis era pautada na defesa da democracia e dos direitos individuais, principalmente no direito de livre manifestação. O PSD, por seu turno, defendia uma postura econômica ortodoxa, liberal, e se opôs a Campanha do Petróleo, tendo que se conter em sua contrariedade à campanha. Os partidos diretivos, mais centralizados, estavam engajados na campanha do petróleo, defendendo os ideais de Horta Barbosa. Tanto os petebistas quanto os socialistas, defendiam os mesmo pressupostos emanados do centro carioca. O PCB reencarnava sua antiga luta contra os trustes.
Por se tratar de uma campanha ampla, que furou o bloqueio da estreita esfera pública capixaba, a posição das elites situacionistas foi controversa. Quando o campo político estabelecido recebeu novas informações acerca do movimento, tendo como efeito a organização de pessoas, incluindo os comunistas, a reação política foi caracterizada pela criminalização das manifestações. Todos aqueles que participavam da campanha, mesmo que a elite dominante pessedista admitisse a presença de cidadãos “bem intencionados”, estavam sob o risco da influência da participação “comunista”, e de suas “estratégias desagregadoras” e “agitadoras”. Ao lado disso, a disputa pela representatividade entre grupos, como será observado na desavença entre a Comissão Executiva do Petróleo e a União dos Estudantes Secundaristas (UESE).
A campanha O petróleo é Nosso ocorreu, de certa forma, pacificamente no Espírito Santo, porém, com um clima de criminalização e de desqualificação feita aos comunistas, o que refletia os acontecimentos a nível nacional. Logo, todos os adversários do governo passaram a ser taxados de comunistas, ou passíveis de serem “infectados” por suas estratégias. Portanto, era um modo daquela elite governante manter o seu poder e desqualificar o movimento. Para que as manifestações tivessem
legitimidade, era preciso pedir, ou “se às alinhar as autoridades”. Era necessário reclamar àquela que teria por função manter o equilíbrio e resolver os problemas.
Como isso não ocorria nessa campanha, é perceptível um discurso de defesa por parte dos udenistas e socialistas, que sempre advertiam para o fato de que, não eram todos os militantes da campanha comunistas, e, mesmo que houvesse aquela presença, o motivo seria justo: a defesa da soberania nacional. Como se verá, diferente dos discursos em
torno da Central Brasileira, totalmente enquadrados dentro do campo político regido pelas premissas da autoridade e do equilíbrio, a campanha do petróleo apontou para um desequilíbrio natural entre os poderes das multinacionais e do Brasil, assim como
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entre este e o estado norte americano. De um lado, o governo defendendo a
solidariedade continental defendida por Juarez Távora, em A Tribuna governista, enquanto A Gazeta liberal e A Época defendiam as teses de Horta Barbosa. Os comunistas acusavam a Standard Oil e seus interesses “egoístas”. Eram diversos atores, articulando crenças, fatos, dentro de projetos desenvolvimentistas e fazendo intensas propagandas, buscando fazer suas opiniões vitoriosas. Basicamente, as posturas desenvolvimentistas liberal, desenvolvimentista empresarial e desenvolvimentista socialista eram as mais articuladas no confronto entre os opostos. Como se verá, as coisas não fluíram sem atritos.