O projeto da Agência Barco é um fenômeno particular, pois é uma iniciativa pública de inclusão financeira adaptada ao contexto local das comunidades ribeirinhas
do Amazonas. Essas regiões são caracterizadas pelo difícil acesso e deslocamento, viável exclusivamente por meios de transportes fluviais. Essa difícil acessibilidade é um dos principais fatores que criam as condições de vulnerabilidade social da região, em conjunto com a configuração das estruturas de poder político e econômico que agem sobre a população e instituições locais. A Agência Barco desperta particular interesse por ser uma proposta de solução inovadora e integrada ao contexto local, por meio de uma agência bancária própria atuando dentro de um barco adaptado estrutural e tecnologicamente para superar as restrições geográficas e tecnológicas da região atendida, e por ofertar produtos e serviços financeiros e sociais relevantes no cenário socioeconômico que rege as comunidades ribeirinhas do Amazonas.
Sendo assim, segundo Yin (2015) encontra-se as condições que a caracterizam o método de estudo de caso, a saber: (i) o caso selecionado é um evento real, particular e contemporâneo; (ii) a pesquisa busca respostas para questões do tipo “como” ou “por quê”; e (iii) o pesquisador não tem controle sobre o evento.
Como descrito na sessão introdutória, o objetivo desta pesquisa é compreender o papel da Agência Barco Chico Mendes no processo de inclusão financeira mediada por tecnologia nas comunidades ribeirinhas, a partir do entendimento de sua influência nesse contexto. Como roteiro para a investigação, buscou-se explorar aspectos do projeto considerando o modelo adaptado de inclusão financeira mediado por tecnologia 2iDf (JOIA, 2004; SANTOS; JOIA, 2016) e investigar as questões complementares abaixo:
(i) Como a infraestrutura tecnológica auxilia e viabiliza o projeto, atuando tanto sob uma perspectiva operacional, por meio de sistemas corporativos, como na integração e fomento ao acesso e uso de meios de pagamento eletrônicos, sob a perspectiva da economia local;
(ii) Como o contexto local é considerado na proposta de inclusão financeira dessas comunidades, por meio de produtos e serviços adaptados ao atendimento das demandas e necessidades locais;
(iii) Se existe um programa de educação financeira associado ao projeto e, caso afirmativo, como ele é abordado;
(iv) Se existe integração com outras instituições sociais e comerciais locais e, caso afirmativo, como ela é abordada;
(v) Como o projeto influencia a dinâmica do aumento de conscientização individual e coletivo, em um processo de reflexão e demanda.
Observa-se que a pesquisadora não possui controle sobre a proposta de atuação ou processos da Agência Barco, tampouco sobre o contexto local no qual ela está inserida. Dessa forma, o método que orientou esta pesquisa foi o estudo de caso que, segundo a taxonomia de Yin (2015) é de tipo um, ou seja, projeto de caso único, tendo a Agência Barco como tema e, como unidade de análise, a embarcação intitulada “Chico Mendes”, inaugurada em 2010 e que atua no trecho Manaus-
Codajás, no Rio Solimões. O estudo de caso único é relevante devido a alguns fundamentos, a saber: (i) quando representa um caso adequado para se testar uma teoria; (ii) o caso é raro ou extremo; e (iii) o caso é revelador, contendo um fenômeno ainda não acessível à investigação científica (YIN, 2015).
De fato, o caso apresenta desafios para a pesquisa, tanto por estar localizado em uma região do Brasil de difícil acesso, como pelo seu estágio de desenvolvimento social e tecnológico, que acrescenta ainda barreiras de acesso às informações e, principalmente, à realidade local na qual ele está inserido. Este cenário restringe a possibilidade de inclusão das duas outras unidades de análise relacionadas ao projeto Agência Barco, presentes nas regiões da Ilha de Marajó (PA) e no Rio São Francisco (BA), respectivamente. Ambas atuam em regiões e contextos similares, com acesso limitado aos meios de transportes fluviais e com carências sociais e de tecnologia que viabilizam o acesso às informações.
Todavia, segundo Mariotto, Zanni e Moraes (2014), estudos de caso oferecem a oportunidade de desbravar temas e conceitos pioneiros ou pouco explorados no campo da pesquisa. Em recente artigo sobre a legitimação do uso de estudos de caso únicos na pesquisa em gestão, os autores apresentam os aspectos necessários para a compreensão da relevância do estudo de caso único: (i) a exclusão de critérios unicamente positivistas e a valorização das particularidades; (ii) a redução da importância da representatividade em determinados tipos de pesquisa; e (iii) a orientação da transferência de conhecimento para casos futuros (MARIOTTO; ZANNI; MORAES, 2014).
Por tratar-se de um estudo de caso único, a presente pesquisa buscou orientar- se por esses três aspectos, na operacionalização do seu processo. Apesar desse esclarecimento, cabe complementar com a opinião de Stake (2008), segundo o qual o estudo de caso não é um método de pesquisa, mas a escolha do objeto a ser estudado. O caso é específico e seu entendimento não busca a generalização, mas o entendimento de suas particularidades antes de confrontá-las à comparação com outros casos. Ele não busca ser a representação para outros estudos de caso, mas ser um estudo de interesse intrínseco ao próprio caso em particular (STAKE, 2008).
Finalmente, o caso foi selecionado também devido à complexa e robusta estrutura do projeto desenvolvido pela Caixa Econômica Federal, contando, dessa forma, com os recursos necessários para a investigação do modelo de inclusão financeira e social. A unidade de análise selecionada, Agência Barco Chico Mendes, atua como um Posto de Atendimento (PA)2 vinculado à Agência de Manacapuru, situado na cidade de Manacapuru (AM).
2 Entende-se por Posto de Atendimento (PA) a “dependência bancária, subordinada a agência ou à
sede da instituição, destinada ao atendimento ao público no exercício de uma ou mais de suas atividades, podendo ser fixo ou móvel. O PA é um tipo de dependência com estrutura física mais simples e flexível, na qual os serviços podem ser livremente definidos pela instituição financeira, sendo