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Os romances românticos de Machado traçam um caminho de variadas metáforas, por onde percorrem o fluente discurso narrativo e a intricada, mas discorrente, trama da história. Uma efusão de beleza estética incomum e única, que conta com as parcerias na construção, leitura e compreensão, do autor-criador, das personagens e do próprio leitor. Nesse exercício o esplendor de expressões que respondem por uma motivação simples e àquelas que congregam a nobreza e a extensão das palavras que, aglutinadas ou não, ampliam o teor de criatividade e dos sentidos das significações. E até como símbolos mágicos entre fantasias, desejos, contemplação e conflitos na condução de razoáveis contradições, ambiguidades e dialogias; como nos graves confrontos, extremados paradoxos e nas dissensões dos desvios psicanalíticos. Em tudo há o envolvimento da emoção ou sentimento do prazer estético. O romance A mão e a luva pode ser compreendido através dos esclarecimentos dos sentidos de suas metáforas. A abordagem investigativa torna-se ampla, levando-se em conta a quantidade inumerável de construções metafóricas do texto.

Nesse segmento ou capítulo, numa breve amostragem, importam as metáforas que caracterizam o conteúdo romântico do discurso narrativo de Machado ou aquelas que determinam a constante atenção com os olhos, olhares e contemplações na fruição das singulares marcas e objetos da espreita; consideramos, ainda, as que reproduzem o estado e a ação na permanente evolução das personagens; finalmente, as que se apresentam como expressões imprescindíveis no sentir do conteúdo estético da obra literária.

As metáforas machadianas perfilam-se numa pluralidade de composições, por onde transita a música de temas angelicais e a poesia dos encantos que acompanham os claros e escuros das seduções amorosas:

1. “[...] estas histórias de amor, velhas como Adão, e eternas como o céu.” (ASSIS, 2007a, p. 14). Machado inicia o seu romance como comparação simples para expressar que o sentimento do amor acompanha o homem, desde o início da sua existência na terra, sem um tempo para o seu tempo. Mas a tripla alusão aos termos Adão, eternos e céu, há um deslocam o sentido de toda afirmação para os campos etéreos, nos quais ultrapassam as dimensões humanas, concebido num espaço atemporal indefinido, onde Adão como representante dos humanos tem a possibilidade de aplicação do sentimento do amor para levar a sociedade dos humanos bons a um lugar de recompensas imensuráveis.

2. “[...] com igual contentamento aos que tria se lhe antecipassem o seu quinhão do céu.” (ASSIS, 2007a, p. 16). Nesta segunda comparação metafórica, torna-se mais claro o sentido daquela que se apresenta no item anterior, quando Estevão demonstra-se compensado com o presente a si oferecido por Guiomar.

3. “[...] achava-se a sua paixão definitivamente morta e enterrada.” (ASSIS, 2007a, p. 19). A paixão que nasce entre duas pessoas cresce, evolui-se e dissipa-se, engrandece e se enleva com o estímulo, apaga-se no desânimo e morre, quando não encontra fontes para a sua sustentação. Às vezes ela se apodera de uma pessoa, levando-a a definhar, a se excluir, se inferiorizar, se embotar numa demonstração do mais completo fracasso de vida e existência humana. E o termo enterrar reforça a idéia do que já se foi para não retornar.

4. “[...] cada homem vê as cousas com os olhos da sua idade.” (ASSIS, 2007a, p.19). A verdade é que a idade é um marcador de temor da existência humana e na explícita afirmação do narrador de Machado. E os olhos, tomados como representação do homem que os possui, são o meio que esse mesmo homem pode usar e usa-o na escolha e definição de suas contemplações. A contemplação carrega o sentimento, o conhecimento, os desejos e o contentamento e descontentamento, encantos e desencantos de quem a produz. E com esse conjunto de aspectos e dados interferentes, o olhar pode ligar o tempo à idade.

5. “[...] mentalmente pedia ao céu a fortuna de a ter mais próxima.” (ASSIS, 2007a, p. 27). Diversas vezes o narrador usa a mente das personagens na forma humanizada, agindo e realizando feitos. Nessa invocação, ela se dirige a Deus, representado através do céu, para obter a vantagem prestigiosa ou riqueza de aproximar, por mágica ou por milagre, o objeto de seu vislumbre.

6. “[...] tinha em si o contraste do nascimento com instinto, um berço obscuro e umas aspirações à vida elegante [...]” (ASSIS, 2007a, p. 28). Uma metáfora conflituosa para mostrar as contradições da experiência de vida do Dr. Estevão. Nascimento com instinto explica as dificuldades e a pobreza do período de sua infância, na aparência

animalizada e com isso o berço obscuro. No segundo momento, no usufruto da inusitada riqueza, aspira ao luxo e à elegância.

7. “Não era ele uma dessas belezas que, ao mesmo tempo em que subjugam o coração, acendem os sentidos; falava à inteligência primeiro do que ao coração[...]” (ASSIS, 2007a, p. 28). Ao qualificar Estevão, Machado o classifica nos padrões das personagens requisitada pela exterioridade. Mas deixa claro que os seus dotes positivos encontram-se no seu lado subjetivo e intelectualizado.

8. “Desde que distinguira as feições da moça, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a boca entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o coração.” (ASSIS, 2007a, p. 28). O êxtase de Estevão vai além da normalidade no reconhecimento de que a moça guarda uma correlação com o seu amor no passado. Todo o assombro e a reação só teriam sentido se aquela fosse a outra. O pressentimento justifica-se nos aspectos que são adicionados com a observação continuada.

9. “Era uma criaturinha galante e delicada, assaz inteligente e viva, um pouco travessa[...]” (ASSIS, 2007a, p. 37). Machado usa a expressão de polos concorrentes: galante e delicada, inteligente e viva, com os seus sentidos correlacionados para uma tentativa de oposição, a falsa oposição, com o uso da expressão: “um pouco travessa”.

10. “[...] a sós com o seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos.” (ASSIS, 2007a, p. 43) Dois sentimentos: despeito e amor, que humanizados, são as luzes de uma reflexão atenta para chegar à imaginação e ao esquecimento de planos.

11. “Estevão curvou ao doce peso daquelas memórias, a alma bebeu, a largos haustos, a vida toda que a imaginação lhe criava e talvez à noite o tomasse na mesma atitude [...]” (ASSIS, 2007a, p. 52).A imaginação criadora de Estevão já não o surpreende: as repetidas memórias presentes, às vezes, durante a noite continuam a afligi-los com o peso de rememorá-los. Resta-lhe o gesto amável de acolhê-las que as sorveu durante uma vida de existência e a expressão “doce peso” indica o nível do conflito que já lhe abate a alma.

12.

[...] o luar que batia nas águas, o céu sereno e eterno. Eterno, sim, eterno, leitora minha, que é a mais desconsoladora lição que nos poderia dar Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ânsias paixões insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e passam conosco, debaixo daquela azul eternidade, impossível e muda como a morte. (ASSIS, 2007a, p. 57). O quadro tem uma escolha da personagem, que conforta a sua mente com imagens, que transmitem a grandiosidade da obra divina e de uma paz que seu coração requisita. A condição do eterno e com a leitora de Machado, que o acompanha, desloca o foco do discurso narrativo, trazendo o diálogo autor-leitora momentaneamente para o curso da história. A expressão conflituosa do comentário do autor traz a dimensão da vida representada como lição de Deus no azul eterno e a morte como finalização das agitações e sacrifícios da existência humana e terrena.

13. “[...] a moça podia traduzir fielmente no rosto os movimentos do coração.” (ASSIS, 2007a, p. 62). Guiomar demonstra-se talentosa e precisa para transmitir os seus sentimentos através de suas expressões faciais. Sem contar que um dos elementos mais expressivos de seu rosto são os olhos castanhos, lembrados em outros momentos da narrativa.

14. O sentimento romântico de Jorge aparece em dois fragmentos reveladores de sua carta para Guiomar. O primeiro: “[...] já a senhora o há de ter visto, pelo menos adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz a presença dos seus.” (ASSIS, 2007a, p. 62). E, o segundo fragmento ele diz:

[...] falo, porque uma força interior me manda falar, como transborda o rio, como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se me calasse, do mesmo modo morrerei, se além do perdão que lhe peço, não me der uma esperança mais segura. (ASSIS, 2007a, p. 63).

Jorge pensa com o sentimento, enfatizando a importância dos olhos como caminho para as suas efetivas contemplações e como fontes geradoras do que se passa nas relações de intimidade: amor e desejo no mais profundo estado da alma. Daí, um novo conflito de vida e morte se instala entre as suas pretensões e desejos, de um lado e as decisões de sua acolhida por Guiomar. Na doce embriaguez, os seus sonhos, numa ação de recorrência, reproduzem os olhos da amada e numa ação de busca tardia,

quando o rio transborda e a luz derrama, vive a esperança de atingir a plenitude de seu amor.

Assim, as metáforas são caminhos da significação, dando toda abertura à plenitude do sentido do conteúdo de “A mão e a luva” e de suas singularidades que fruem de sua composição estética.