7.2 Micro-Benchmarks
7.2.2 Communications concurrentes
Os romances românticos de Machado de Assis são um campo aberto de experiências de narrativas sob o domínio da metáfora.
Iaiá Garcia é um campo inédito das metáforas, quando se considera a iluminação que atravessa da palavra à expressão dos movimentos ou ações desenvolvidas na narrativa.
Essa claridade percorre os eixos visíveis ou invisíveis da narrativa, como interveniência nos aspectos físicos ou psíquicos, desde os que se apresentam plenamente claros aos que se encontram nas expressões obscuras ou definitivamente apagados.
A metáfora, em suas formas de representação, responde pela fruição dos aspectos estéticos e dos efeitos de beleza e de arte, que afetam o gosto e o prazer do leitor contemplador e recriador da obra literária. Machado torna-se máximo, sob o ponto de vista da construção ou da apresentação de suas metáforas singulares no texto de seu discurso narrativo.
A seguir, colocamos uma amostragem de metáforas desenvolvidas no texto do romance, ora diminuídas ora apagadas. Iaiá Garcia constitui uma representação completa da variedade e das extensões das metáforas, com a experiência de alguns momentos únicos no que possa se referir ao sentido e ao significado:
1. “Não era frade, mas queria como eles a solidão e o sossego.” (ASSIS, 2007b, p. 11). O narrador explica a presente expressão, via da comparação e da condição de vida escolhida por Luiz Garcia e a dos frades na reclusão dos seminários e dos mosteiros: mas, o querer sossego e querer solidão deixam encobertos desejos, conflitos, figuras intencionais e inconscientes de profunda tristeza; ou das motivações, dos constrangimentos sociais e por imposições da crença ou da fé no divino, ou na descrença do que animaria a vida; a investigação nos leva ao frade com a ligação com o celibato. No celibato há um desejo conflituoso, que enfrenta a condição humana e a necessidade biológica das relações sexuais; mas, por que esse estigma teria como fluxo em Luiz Garcia, que teria uma vida de felicidade com a sua amada, mãe de Iaiá. De solidão e sossego, onde em cada um deles há um conteúdo e uma impressão do sentimento humano, que ultrapassa o próprio valor da palavra isolada, levada ao contexto: solidão da alma que se sente só na multidão; sossego da inércia movido pelo desejo contido de agitar-se; solidão como fase inicial de quem se prepara para as delícias de estar junto; sossego como enigma da dualidade da guerra e da paz. Assim, a expressão define a conduta dual, ora visível ora invisível, de Luiz Garcia como pai, conselheiro, esposo ou amigo durante a história.
2. ”– O coração humano é a região do inesperado[...]” (ASSIS, 2007b, p. 23). O coração humano representa a fonte dos sentimentos, das magias dos conflitos, dos desejos visíveis e invisíveis, da tristeza dos sonhos não realizados, da fé e crença em Deus e
das realizações pessoais. Ele mantém a alegria e o prazer de amar ou de ser amado nos afetos encontrados ou perdidos; o coração regula, domina e desorganiza a vida; esse coração é a expressão da alma evidente, muitas vezes através dos olhares. Iaiá Garcia coloca, como núcleo das ações das personagens, a força transformadora dos relacionamentos, por isso, os enigmas e a magia do inesperado; a reflexão então define o curso dessa narrativa;
3. “A idéia da morte ou da mutilação não vinha agitar – lhe ao resto suas asas pálidas e sangrentas.” (ASSIS, 2007b, p. 30). A expressão do narrador afirma, com o texto, exatamente o contrário das sensações que podem estar ocorrendo, com a iminente guerra do Paraguai; com a decisão, que Jorge toma de ingressar nas fileiras da guerra, o primeiro pensamento de uma imaginação lógica e racional é a morte; matar ou morrer é a condição inequívoca da guerra armada; ultrapassadas as dificuldades impostas à vida, resta a imaginação de alguma mutilação imprevisível, com a consequência dos confrontos inarredáveis; a idéia responsável pelas composições das imaginações voa, como pássaro, carregando ou produzindo mortes pálidas e mutilações sangrentas; a metáfora apaga-se ou negando-se o que quer afirmar-se;
4.
Estela amava-o. No instante em que descobriu esse sentimento em si mesma pareceu-lhe que o futuro se lhe rasgava largo e luminoso; mas foi só nesse instante. Tão depressa descobriu o sentimento, como tratou de estrangular ou dimensionar - trancá-lo a menos no mais escuro do coração, como se fora uma vergonha ou um pecado. (ASSIS, 2007b, p. 35-36).
Esta é uma metáfora única, que permanece até o fim do romance, sem alteração clara. Embora o teor de seu conteúdo sempre circulasse os caminhos obscuros da história, como se fosse o enigma do sentimento a se espreitar. O sentimento de amor de Estela é trancafiado em seu coração, como o destino do tempo; a metáfora desse amor pouco e secreto fica guardada na parte escura do coração, constituindo pecado ou vergonha. Novamente o narrador qualifica a metáfora, apagando aquele amor do bem, substituindo-o pelo amor do mal;
5. “Jorge tinha uma nuvem diante de si, através da qual não podia ver nem o seu decoro pessoal nem dignidade da mulher amada; vira só a mulher ser diferente.” (ASSIS,
2007b, p. 39). O narrador usa duas expressões disjuntas para definir o estado de paixão de Jorge; Esta nuvem cheia de suas dúvidas e incertezas ilumina a metáfora ampliando as suas possibilidades de sentido com a cegueira; a cegueira dos olhos que deixa visível a imagem ideal de mulheres com atração fatal; a cegueira da alma sem a dimensão dos valores como: decoro e dignidade; a cegueira da alma que imaginava na expressão da indiferença e da dissimulação do devotado amor; a cegueira dos olhos, que traz para o seu interior a opacidade capaz de alterar o sentimento levando-o a um novo estado menos passivo; a cegueira da alma, que é a janela da indiferença, pode tornar-se impetuosa, agressiva ou violenta;
6.
“Durante a primeira hora que se seguiu à saída da casa de Estela, no pode reger os pensamentos; eles cruzavam-lhe o cérebro sem ordem nem dedução. O coração batia-lhe rijo na arca do peito; de quando em quando o corpo era tomado de calafrios. Ia despeitado, humilhado, com um dente de remorso no coração.” (ASSIS, 2007b, p. 46).
O narrador combina vários aspectos da situação de Jorge, após o incidente do beijo, com uma metáfora que se ilumina em cada uma de suas etapas: no sonho e na sensação de sonhar, Jorge perde o domínio de seus pensamentos e imaginação; os quadros se superpõem sem a definição de ordem; as cenas não se obrigam a verossimilhança com as ligações lógicas e ilógicas da realidade; na lembrança geradora desse sonho; ou no sentimento: calor de sua íntima emoção de arrepender-se e no que produz a idéia do despeito da humilhação, no pleno fracasso;
7.
[...] as graças do rosto ou como a flor do campo; a diferença, dizia ele - que há um prazo fatal para que as graças percam o primitivo frescor, e a flor expire o seu último cheiro, ao passo que a natureza social tem a decrepitude precoce e um princípio de corrupção, que destroem em breve termo todas as florescências do primeiro Sol.” (ASSIS, 2007b, p. 65).
A expressão usa a comparação: o rosto humano e a flor do campo: a flor, com um prazo de vida, enfrenta a natureza com as suas intempéries e as agressões solares; o rosto, representando a vida humana que enfrenta a natureza social, busca atingir as presas, desde as primeiras idades, além do que acrescenta o mal de corrompê-las; as flores perdem o frescor e com esse, o brilho, a beleza, os encantos e o perfume; e, as
vidas humanas perdem as florescências da infância e com essas, o prazer, a luz de encantamento, a paz e a liberdade, impondo-as a um caminho de receberem ou promoverem o mal aos seus semelhantes;
8.
Foi então que a serpente lhe ensinou a dissimulação. A necessidade deu-lhe a intuição maquiavélica; isto é, a ocasião não consentia um rosto franco, sinceramente hostil, mas um ar ameno, uma cordialidade de supor fácil, friamente cortês, mas cortês. (ASSIS, 2007b, p. 87).
O narrador demonstra que compreende um Jorge renovado, como as suas novas atitudes amenas e de extrema cordialidade. Mas a metáfora apaga a sua insatisfação, a sua rebeldia e os seus conflitos, diante do que vê e sente com a realidade de Estela e da vida sangrenta que passa na sua experiência de guerra; esse narrador insinua que o seu mestre na dissimulação tenha sido a serpente, na representação viva do demônio; por isso, o talento de mascarar o engano e o engodo de pessoa má; e que a necessidade, recorrência dos aflitos, dos perseguidos e sacrificados dera a intuição e tirocínio de preparar e sair de armadilhas;
9. “Jorge sentia-se empuxado e retido, ao mesmo tempo, por dois sentimentos contrários: tinha curiosidade e repugnância de penetrar o caráter da moça e conhecer e distinguir os elementos que o compunham.” (ASSIS, 2007b, p. 119). O que se observa na apresentação dessa metáfora sãos dois verbos enunciados: “empuxado” que tem o sentido de ir para o fundo, que ganha a dimensão ampliada da especulação ou da pesquisa; e “retido” que tem o sentido de impedir ou prender, que, na sua ressignificação, alcança o fim de manter-se na superfície e não aprofundar; mas o núcleo da expressão mostra o caráter da moça, que Jorge tem a curiosidade de conhecer, mas acompanha o empuxo ou busca a repugnância, que se correlaciona com a retenção ou torna-se indiferente ao seu caráter; da mesma forma, ainda, sobre o caráter: Jorge tinha o desejo de conhecer, mantendo-se na retenção, estando na superficialidade e de distinguir caminhando para os detalhes e sobre a qualificação do devido aprofundamento.