• Aucun résultat trouvé

O discurso narrativo de Helena de Machado é pleno de metáforas. Compreender os sentidos reunidos nessa história é, também, buscar o entendimento e extensão do significado de suas metáforas no processo de suas composições ficcionais.

Mantendo-se o foco no que se realça entre o visível e o invisível torna-se uma tarefa agradável, vez que Machado mostra-se com grande freqüência no campo do ver e do olhar e do não ver vendo, e ainda, do ver-se com perspectiva de que as personagens buscam as suas identidades nas ações literárias.

Ao penetrar no sonho literário de Machado, nessa obra, pode-se enumerar alguns momentos de expressão única:

1. “Recebê-la, porém, no seio da família e de seus castos afetos, legitimá-la aos olhos da sociedade[...]” (ASSIS, 2008a, p. 20). O acolhimento como membro da família daria, ao novo membro, as qualificações do padrão daquela família, aos olhos da sociedade. Com isso, explicam esses olhos da sociedade que veem as aparências, o que encobre o fingimento, pois o conteúdo dos valores da moça estaria no invisível do ver;

2. “[...] eram os olhos, ou antes o olhar, cuja expressão de curiosidade de sonsa e suspeitosa reserva foi o único senão que lhe achou e não era pequeno”( ASSIS, 2008a, p. 27). Dois olhares se cruzam: olhar de Helena, analisado e o de Estácio que o analisa. Para Estácio esse momento é o único de sua caminhada amorosa e cheia de conflitos. Essa leitura inicial do olhar, quase impenetrável, torna-se um enigma. A verdade é que o filho do Conselheiro tenta desvelar os sentimentos que busca na memória a que tem acesso aquele olhar. Mas os limites a si impostos, os qualificam como censura ou suspeição. No primeiro, a indiferença e no segundo, a incerteza. Um ponto somente escapa do erro: a curiosidade antes das qualificações;

3. Machado considera os sentidos como a própria vida humana. Eles acabam tendo vida própria, sendo condutores e, como veículos que trazem e levam estímulos que definem e esclarecem farsas e verdades; como peças essenciais do corpo conseguem ser as representações do corpo e como portas da alma, sendo donos da imaginação. O narrador, na fala de Úrsula diz: “[...] tenho os olhos mais inteligentes que os ouvidos.” (ASSIS, 2008a, p. 28). O ver na leitura a que se refere D. Úrsula tem sentido de compreender para explicar. Ele vigia através do texto e do discurso, compõe e recompõe os cenários, personagens, diálogos e a própria narrativa. O ver entrega-se aos afetos dos textos, na construção e na fruição do objeto estético, no processo de acabamento e na recepção. O ouvir não é excluído na comparação, pois o ver, na extensão da significação, não só ouve como fala;

4. “O céu não ficou logo claro; mas o vento amainou, e era de esperar que o sol se desfizesse enfim do seu capote de nuvens” (ASSIS, 2008a, p. 37). Duas expressões metafóricas nesse fragmento narrativo: uma que mostra que a vida humana experimenta a alteridade da vida em claro-escuro, ora diante das impressões do que lhe é visível, ora do invisível, e a natureza repete similarmente essa ocorrência dialógica. A outra se encontra nos propósitos intencionais que a natureza demonstra, em permanecer pouco clara, para que os incontidos atos de Eugênia se fizessem menos evidentes;

5. ”De longe, via-se através da névoa luminosa da imaginação; ao pé era difícil conservar os dotes que ele lhe emprestava.” (ASSIS, 2008a, p. 38). O próprio Estácio separa em dois momentos a comparação de suas dimensões visuais de Eugênia: o distante e próximo; a névoa luminosa torna clara e acrescenta beleza e talvez inteligência aos dotes de Eugênia; e o termo difícil dá o nível de complicação, quando se busca aqueles dotes no ver e no não ver, quando Eugênia mantém-se próxima;

6. Ligando-se fragmentos de uma visão singular, de Helena ou de Estácio, chega-se a expressão interessante e enigmática:

- Até aquela casa que está ali com uma bandeira azul. [...] Helena pediu-lhe a explicação daquele apêndice. [...] aquilo é fantasia do narrador ou de qualquer outra cousa que não vale a pena de uma travessura [...] Quando eles lhe passaram pela frente, a porta abriu-se, mas se alguém espreitava por ela, ficou sumido na sombra, porque ninguém de fora o viu.” (ASSIS, 2008a, p. 46).

A marca com a bandeira azul não é casual: sinal que indica para uma pessoa como uma forma de localização; e, tornar aquele sinal invisível com a confusão cromática com o azul do céu; o pedido de esclarecimento de Helena é dissimulado, consideradas as informações da história, ligadas pela intertextualidade, que tenta disfarçar para Estácio, criado como enigma; a vaga explicação de Estácio, que expõe, mesmo, as suas viagens nas suas fantasias, enaltece a possibilidade de algum perigo; a porta que se abre, ocultando alguma vida naquela sombra é mais reforço ao enigma criado, além do contraste com a claridade da manhã, pondo invisível tudo em volta;

7. “Estácio contemplava-a a um tempo envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe cócegas; o olhar ambicionava ser como o da Providência que penetra nas mais íntimas refolhas do coração.” (ASSIS, 2008a, p. 57). A vergonha e a suspeição são sentimentos estimulados pelo olhar da personagem, ora representando o próprio Estácio. As cócegas são utilizadas como substitutas de suas atitudes pueris, que causavam a incomodação, num tom de humor irônico da personagem. Os desejos de que seus olhos pudessem ultrapassar quaisquer obstáculos, com os poderes divinos para desvelar os sentimentos de Helena, escondidos e guardados na parte invisível de seu coração;

8. “Eugênia, pelo braço de um deles, estava de pé, ouvindo sem atender as palavras, que ali diziam, porque os olhos inquietos derramavam-se-lhe por toda ela e pela sala. Admirava-se e espreitava admiração dos outros.” (ASSIS, 2008a, p. 62). A expressão mostra os modos ingênuos de Eugênia e a sua desatenção com os assuntos, sem contar aos seus movimentos sem a conexão com a ordem, que se repetiria no comportamento vivo de seus olhos: agitados ou inquietos como se quisessem dizer muitas coisas ao mesmo tempo. Olhos que interrogam e respondem, que agridem sem o definido propósito ou que agem com a afetuosidade; olhos sem morada fixa e sem destino, esses mesmos olhos. O derramar tem o sentido de flutuar, aqui e acolá, como borboletas. Como conclusão, o narrador não se descuida do ver e do ver-se frequentes

nas ações constantes de Eugênia. Por isso, ela espreita as personagens de seus relacionamentos com o prazer de sofrer semelhante espreita;

9. Num trecho romântico que mistura a realidade e a ilusão, o narrador diz: “[...] Helena ficou de pé diante dele. Olharam um para outro sem proferir palavra; mas o lábio de Estácio tremera duas vezes como hesitando no que ia dizer. Por fim o moço venceu-se. – Helena, disse ele, você ama.” (ASSIS, 2008a, p. 64). Todas as condições são criadas para um desenlace feliz. Os olhares vivos, num e noutro, ficam silenciosos. Mas no mundo invisível eles trocam juras de infinito e eterno amor. Quando o lábio treme de medo do desconhecido e com a emoção do sentimento abalado, por não dizer o que está na sua imaginação A narrativa oportuniza a Estácio poder falar: você ama. A afirmação tem o tom de pergunta, preferivelmente, que se tratasse do amor que ela sente por si mesma. Mas o que se sabe é que posteriormente a resposta é vaga;

10. “Então volvia Camargo um olhar de si, como pedindo igual admiração. Depois, ficava sombrio, e mais do que usualmente, caía em longos e mortais silêncios.” (ASSIS, 2008a, p. 72). Camargo é vaidoso, mas verdadeiro. Tem consciência de não ser admirado como a filha. Ele usa nesse momento, o ver e o ver-se. Com o ver ele observa o salão, as pessoas, sua filha e a si próprio. Percebe que é exclusivo no invisível daquele universo sombrio de sofrimento e dor da alma. E, movido por uma pulsão de morte, ouve os seus silêncios, com a expressão de grande angústia;

11. “[...], ela via já na imaginação a cerimônia do consórcio, as carruagens, o apuro do navio, a sua própria graça, a coroa de flores de laranjeira, que havia de adornar; enfim talhava já o vestido branco e pregnava as rendas de malinas com que havia de levar os olhos a ambas as metades do gênero humano” (ASSIS, 2008a, p. 83). O ver e o ver-se de Eugênia tem aspectos bem peculiares: o ver da imaginação concebe imagens de seu futuro casamento e a aparência de seu noivo; ainda, no ver da imaginação, Eugênia vê sua imagem com o esmero da vaidade feminina de poder ser vista pela curiosidade e admiração dos convidados, quando estiver junto de Estácio; e no ver-se, ela constrói sua imagem que repete a sua realidade de conduta e relacionamento como personagem;

Helena tem inimagináveis metáforas, envolvendo conteúdos da composição estética, com uso frequente da dimensão visual, ora no campo visível, ora no campo invisível.