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Segundo Fischer (2001), as interorganizações estão presentes no ideário das organizações complexas estudadas desde os anos 30, por Mary Parker Follet, e em clássicos como Amitai Etzioni, neo-funcionalistas como Nohria e Eccles, neo-institucionalistas como Weick, March e Olsen, téoricos de redes como Alter, Hage e Alexander. Todos têm em comum o conceito recorrente de intersetorialidade e da interorganização como requisito para a institucionalização de sistemas complexos.

As organizações de hoje estão cada vez mais complexas e articuladas. Como salienta Fischer (1997), o campo dos estudos organizacionais até pouco tempo se preocupava em estudar unidades discretas, o que não é mais o caso de qualquer organização contemporânea. “O processo de desenvolvimento é mobilizado por organizações que trabalham juntas ou por interorganizações cuja principal característica é a hibridização ou a complexidade”. (FISCHER, 2002, p. 19). Fischer orienta ainda que a “boa gestão” de hoje remete ao conceito de governança, que consiste em poder compartilhado ou ação coletiva gerenciada e, portanto, está “associada a conceitos como participação, parceria, aprendizagem coletiva [...]” (2002, p. 26). Assim sendo, envolve ação interorganizacional.

Entende-se por interorganizações as relações estabelecidas entre organizações necessárias para o alcance de determinados objetivos. Considera-se, ainda, o conceito de interorganizações como o “espaço de confluência e interseção de organizações” (FISCHER, 1999). A fim de esclarecer melhor este conceito e as motivações que levam ao estabelecimento de relações interorganizacionais, torna-se fundamental fazer um apanhado sobre as teorias acerca deste assunto.

A obra de Alter e Hage (1993) é uma referência neste campo. Estes autores apontam alguns acontecimentos que colocaram o comportamento cooperativo em evidência, como:

(a) a mudança de foco da eficiência por quantidade (escala) para eficiência por flexibilidade e inovação. Assim, a grande empresa verticalizada dá lugar a firmas menores e mais ágeis, atuando de forma interrelacionada;

(b) a integração de objetivos econômicos e políticos, a partir de um reconhecimento de que o mercado não é apolítico e de que o Estado tem um papel importante na economia, através, por exemplo, das políticas nacionais de saúde e bem-estar da população;

(c) a valorização da cultura de confiança a partir da realidade japonesa e das experiências do Vale do Silício e Itália, baseadas em redes empresariais;

(d) o aumento do nível de complexidade educacional e de cognição, o que facilita ao indivíduo compreender as redes e implementá-las, quebrando a orientação egoísta e estabelecendo parcerias para o alcance de metas coletivas;

(e) o rápido avanço do conhecimento e da nova tecnologia, fazendo com que as organizações unam-se para dividir custos com pesquisas e riscos diversos.

Diante deste cenário, Alter e Hage (1993) relacionam algumas teorias que buscam explicar a formação de relações interorganizacionais. Primeiramente, destacam a Teoria da Ecologia Populacional. Esta perspectiva busca explicar porque as organizações crescem ou declinam ao longo do tempo, de acordo com mudanças ambientais. Neste processo, os sistemas de redes interorganizacionais funcionam como uma forma institucional que representa uma estratégia de adaptação e sobrevivência. Quatro estratégias coletivas podem ser adotadas por organizações para gerenciar seus ambientes (ASTLEY e FOMBRUN, 1983 apud ALTER e HAGE, 1993):

(a) aglomeração, segundo a qual organizações pequenas com baixa interação articulam-se em relação às elites políticas para que elas regulem a atuação dos competidores de larga escala;

(b) confederação, na qual ocorre uma união de indústrias concentradas para que alcancem metas que, sozinhas, não alcançariam. Por exemplo, pressionarem o governo na adoção de políticas favoráveis ao grupo;

(c) conjugação, que representa um esforço de organizações de diferentes setores econômicos no compartilhamento de recursos ou informações que melhorem os resultados de cada organização;

(d) orgânica, estratégia que envolve o nível mais maduro de relacionamento, do tipo simbiótico, traduzindo-se em cadeias de organizações trabalhando juntas para o alcance de um resultado comum.

Já numa abordagem neoclássica, a Teoria da Mão Invisível pressupõe que a cooperação ocorre, mesmo que não intencionalmente, porque é a base da ordem institucional. As pessoas cooperam entre si porque sabem que se fizerem diferente, o parceiro pode retaliar. Assim, surge uma espécie de controle social. Por outro lado, a Teoria da Escolha Racional não acredita que o equilíbrio é espontâneo, mas decorre de uma escolha. Os indivíduos não esperam obter ordem social e se afeiçoam ao comportamento “carona”, ou seja, tirar proveito das vantagens obtidas pelo esforço do outro. Neste caso, o que motiva a ação coletiva é a solidariedade grupal. As pessoas sentem-se obrigadas a agir de acordo com as normas de conduta coletivas para ter acesso aos recursos coletivos, abrindo mão de recursos individuais, deliberadamente.

Outra teoria existente é a Teoria dos Custos de Transação, proposta por Williamson, a qual pressupõe que os gestores calculam os pontos positivos e negativos das diversas possibilidades de arranjo institucional, numa atitude consciente e racional. Segundo Etzioni (1988 apud ALTER e HAGE, 1993), contudo, o cálculo consciente é uma exceção, pois a racionalidade do ser humano é limitada. Outros fatores influenciam além da performance, como a complexidade tecnológica ou o simples compromisso de ajudar, o que ele chama de dimensão moral. Catherine Alter e Jerald Hage ratificam esta dimensão e colocam evidências da existência de indivíduos que buscam atingir metas coletivas mesmo quando eles próprios não são beneficiados, dando o exemplo de médicos que se submeteram a um programa educacional que diminuiu sua autoridade tendo em vista que esta atitude melhoraria o atendimento aos pacientes. E analisam: “We believe that is an expression of the moral

dimension of human activity” (p. 33). Obviamente, esta perspectiva vai de encontro às teorias

Considerando as teorias expostas até aqui, percebe-se que os principais fatores que motivam a cooperação interorganizacional são: a predisposição para cooperar; a necessidade de

expertise; a necessidade de recurso financeiro e de compartilhamento de riscos (na

instabilidade, as redes reduzem a incerteza); a necessidade de eficiência adaptativa.

Oliver (1990) propõe uma definição de relações interorganizacionais como sendo transações, fluxos e ligações relativamente duradouras que ocorrem entre uma organização e uma outra ou mais organizações no ambiente onde se encontra. Baseada em um levantamento da literatura sobre o assunto desde os anos 60, ela define seis contingências críticas que podem determinar o relacionamento interorganizacional:

(a) Necessidade: as relações interorganizacionais são motivadas por ordens emitidas por autoridades maiores (ex.: legislação). Assim, não ocorrem voluntariamente, mas por pressão. Ocorrem também relações interorganizacionais voluntárias por necessidade, em função da escassez de recursos (abordagem da dependência de recursos);

(b) Assimetria: as relações interorganizacionais são estimuladas pelo potencial de exercer poder ou controlar outra organização ou os seus recursos. Teorias de economia política, dependência de recursos, hegemonia de classe/elitismo e controle financeiro atribuem motivos de poder e controle para o estabelecimento de relações interorganizacionais;

(c) Reciprocidade: ao contrário da contingência acima (assimetria), uma boa parte da literatura assume que a formação de relacionamentos baseia-se na reciprocidade. Neste sentido, cooperação, colaboração e coordenação são mais enfatizados do que dominação, poder e controle;

(d) Eficiência: a motivação para a formação de relações interorganizacionais é interna à organização e relaciona-se com o desejo de melhorar a eficiência. A teoria dos custos de transação tem relação com este fator motivacional, uma vez que as relações interorganizacionais são formadas com a finalidade de economizar nos custos de transação;

(e) Estabilidade: outra contingência apontada por Oliver é a estabilidade, ou seja, a formação de relações interorganizacionais é uma resposta adaptativa para a amenizar as incertezas do ambiente;

(f) Legitimidade: o estabelecimento de relações interorganizacionais se dá com o objetivo de a organização demonstrar ou aumentar sua reputação, imagem, prestígio ou congruência com as normas existentes em seu ambiente institucional.

Oliver coloca que, apesar de cada fator mencionado ser suficiente para, sozinho, motivar um relacionamento interorganizacional, a decisão de iniciar relações com outras organizações pode se basear em contingências múltiplas. Por exemplo, legitimidade e reciprocidade podem ocorrer simultaneamente. Da mesma forma, eficiência pode interagir com estabilidade e reciprocidade; por exemplo, para aumentar a eficiência, uma organização pode manter relações estáveis com outra de modo que esta estabilidade facilite a aquisição de recursos adicionais.

Alter e Hage (1993) avançam a reflexão para a perspectiva de rede, e colocam que as redes permitem interações interorganizacionais de intercâmbio, ação concertada e produção conjunta, representando aglomerados organizativos que, por definição, são coletivos não- hierárquicos de unidades legalmente separadas.

Na concepção de rede, a ausência de hierarquia entre os parceiros é fundamental. O termo rede deriva do latim rete, que significa entrelaçamento de fios, cordas, cordéis, arames, com aberturas regulares fixadas por malhas, formando uma espécie de tecido10. Dois elementos essenciais compõem as redes: os nós e seus respectivos entrelaçamentos.

Cada nó do tecido é estratégico, é fundamental para o todo, mas eles só formam o tecido quando interligados entre si pelas linhas. Além disso, como encarnam em si as idéias de origem e de destino, os nós limitam e, ao mesmo tempo, são pontos a partir dos quais a rede se expande. A transformação da rede dá-se, apenas, pela expansão. Por isso, não há, também, diferenças hierárquicas entre linhas e nós. Só há diferenças de função entre eles – ligação e sustentação, respectivamente – para formar o tecido. (MOURA, 1997, p. 67)

Esta terminologia transpôs-se para o campo das Ciências Sociais, uma vez que os atores e as organizações podem ser organizados em rede. Moura (1997), através de uma ampla revisão

sobre o tema nesse campo, constatou que diversas são as adjetivações que o termo recebe, a depender da aplicação:

Da antropologia ressaltam-se, por exemplo, as redes primárias para indicar formas específicas de interação entre indivíduos de um agrupamento. Da sociologia destacam-se as redes sociais, para denominar as múltiplas relações tecidas a partir das ações coletivas. Na geografia têm-se as redes urbanas, que indicam níveis de interdependência e de fluxos entre cidades. (p. 67)

A perspectiva não-hierárquica da rede fica evidenciada, ainda, na classificação e nos desenhos propostos por Van de Ven (apud HALL, 1984), segundo os quais as relações interorganizacionais podem ser do tipo:

(a) aos pares (A ⇔ B);

(b) conjunto interorganizacional: a relação dá-se aos pares, entre organizações e um centro, todas relacionando-se indiretamente em conjunto para atingir um objetivo;

Figura 4 – Conjunto interorganizacional. Fonte: Van de Ven apud HALL, 1984.

(c) rede: “o padrão total de inter-relações entre um aglomerado de organizações que se entrelaçam num sistema social para atingir metas coletivas e de auto-interesse ou para solucionar problemas específicos numa população-alvo”.

Figura 5 – Rede. Fonte: Van de Ven apud HALL, 1984. A B C D E A B C D E

Crozier e Ehrard (1977 apud BALESTRIN e VARGAS, 2002) alertam que uma rede ocorre sobre um campo de ação social anteriormente estruturado e, assim, nenhum ator ocupa posição neutra dentro de campo de ação da rede. Acrescentam, ainda, que não há modelo universal de rede — sua forma vai depender das características de campo de ação coletivo onde se insere — e que a rede é o centro do processo coletivo de aprendizagem que ocorre dentro do campo de ação coletivo. Machado e Machado (1999, p. 19), numa perspectiva similar, destacam que

Las redes son el medio más efectivo de lograr una estructura social sólida, armónica, participativa, democrática y verdaderamente orientada al bienestar común (...). Las redes son 'instituciones escuela' en las que sus integrantes aprenden a convivir en paz y democracia, no obstante las naturales diferencias de pensamientos y objetivos.

Marcon e Moinet (2000 apud BALESTRIN e VARGAS, 2002) chamam de rede um conjunto de pessoas ou organizações interligadas direta ou indiretamente Na tentativa de melhor compreender a diversidade no campo das relações interorganizacionais, propuseram um mapa de orientação conceitual baseado em quatro variáveis: hierarquia (rede vertical), cooperação (rede horizontal), contrato (rede formal) e conivência (rede informal).

(a) Hierarquia: algumas redes têm claramente uma estrutura hierárquica. Por exemplo, as redes de distribuição que adotam a estrutura de redes verticais para ter uma maior proximidade do cliente. Este tipo de relação geralmente é estabelecida entre distribuidor e cadeia de distribuição e entre matriz e filial;

(b) Cooperação horizontal: neste tipo de rede, as organizações envolvidas têm independência em relação às outras, mas optam por atuarem em rede para criação de novos mercados, compartilhar custos e riscos etc. São exemplos os consórcios de compra, as associações profissionais e as redes de lobbying;

(c) Contrato: as redes são constituídas formalmente via contrato, no qual são estabelecidas regras de conduta para os atores envolvidos. É o caso, por exemplo, das franquias e das joint-ventures;

(d) Conivência: as redes de conivência são informais, permitindo o encontro de atores que têm preocupações comuns com base na livre participação.

Assim, esses autores propõem uma tipologia de redes assumindo que a diversidade existente pode ser contemplada no seguinte modelo:

Figura 6 –Tipos de rede conforme Marcon & Moinet (BALESTRIN e VARGAS, 2002).

Alter e Hage (1993) também demonstram uma preocupação no sentido de compreender as redes tendo em vista a diversidade existente, e propõem uma análise baseada em cinco propriedades estruturais das redes: centralidade, tamanho, complexidade, diferenciação e conectividade.

(a) Centralidade: há a premissa de que as redes interorganizacionais, quando focalizadas na performance do sistema, desenvolvem núcleos centrais dominantes. Esta centralidade pode ser detectada, por exemplo, pelo volume de informação que passa por um dos atores (o centro). Alter e Hage analisaram um sistema de saúde em rede e constataram que, quando os recursos vêm de uma única fonte, então a fonte quer controlar as decisões para que possa regular objetivos e custos da atividade, caracterizando-se como o centro da rede11. Com base em Aiken e Hage (1968 apud ALTER e HAGE, 1993), também colocam que quanto mais o orçamento é vinculado a uma fonte única, menor é a inovação;

11 No âmbito do terceiro setor, Hudson (1999) salienta que a fonte principal de recursos financeiros de uma organização impacta a sua liberdade estratégica. As financiadas por doações têm liberdade para determinar o que fazer e de que forma, enquanto aquelas financiadas por contratos e aquelas que recebem subsídios têm maiores restrições. Assim, a abrangência geográfica das ações, o tipo de serviços e as qualificações, por exemplo, podem ser predeterminados.

Rede vertical

Rede horizontal

Rede informal Rede formal

(b) Tamanho: refere-se à quantidade de membros na rede. Alter e Hage levantam as hipóteses de que quando os sistemas da rede são verticalmente dependentes, há uma tendência de a rede ter maior tamanho para que possa prover o mix de serviços requerido, e o mesmo ocorre quando o volume de tarefas é alto;

(c) Complexidade: a complexidade de uma rede é determinada pelo número de setores de serviços ou produtos diferentes representados pelas organizações membros da rede. Alter e Hage levantam as mesmas hipóteses referentes à propriedade de tamanho para a propriedade de complexidade, ou seja, quando os sistemas da rede são verticalmente dependentes ou quando o volume de tarefas é alto, há uma tendência de a rede ter maior complexidade;

(d) Diferenciação: é o grau de especialização funcional e de serviço entre as organizações membros de um rede;

(e) Conectividade: é o número total de ligações entre as organizações da rede. As hipóteses levantadas para as propriedades de tamanho e complexidade valem contrariamente para a propriedade de conectividade, ou seja, quando os sistemas da rede são verticalmente dependentes ou quando o volume de tarefas é alto, há uma tendência de a rede ter menor conectividade.

Complementando, Alter e Hage defendem a hipótese de que quanto maior a centralidade, o tamanho, a complexidade e a diferenciação, maiores os níveis de conflito. Porém, quanto maior a conectividade, menores os níveis de conflito.

No âmbito das redes, tendo em vista a mobilização de recursos e os arranjos voltados para o interesse público ou coletivo, conforme levantamento feito por Moura (1997), são adotadas adjetivações como: redes sistêmicas (ALTER e HAGE, 1993); redes de inserção local (MAUREL, 1991); redes políticas (1994); redes de solidariedade (RANDOLPH, 1994); e redes de movimentos (SCHERER-WARREN, 1994). Sobre redes sistêmicas, Alter e Hage (1993) salientam que elas emergiram nos EUA não entre firmas da iniciativa privada, mas entre organizações de serviço público. São redes que têm como meta solucionar problemas de ordem supra-sociedade e na qual as interações interorganizacionais são essenciais, envolvendo, por exemplo, organizações voluntárias para captação de recursos, agências

estatais locais, organizações de serviço não-lucrativo e empresas. Redes de inserção local representam uma recomposição das políticas sociais e do papel do Estado e da sociedade civil, tendo em vista uma articulação dos diversos atores em torno de uma ação pública. Já as redes políticas representam processos de interação regulares mas pouco formalizados envolvendo os diversos atores interessados e impactados numa determinada política pública; assim, a rede constitui um meio para a formulação e negociação de políticas envolvendo o processamento de divergências e conflitos. Os conceitos de redes de movimentos e de redes de solidariedade têm relação com processos de transformação social (MOURA, 1997).

Scherer-Warren (1999, p. 50) define as redes de movimentos:

[...] são interações horizontais e práticas sócio-políticas pouco formalizadas ou institucionalizadas, entre organizações da sociedade civil, grupos e atores informais, engajados em torno de conflitos ou de solidariedades, de projetos políticos ou culturais comuns, construídos ao redor de identidades e valores coletivos.

Esta autora defende que a organização em torno de redes significa a superação da visão tradicional dicotômica de uma sociedade dividida em dois grupos de conflito, ou seja, significa “[...] admitir a complexidade do social, composto de setores e agrupamentos sociais heterogêneos, campos de múltiplas contradições, diversidades e discursos plurais, em que opera não apenas a lógica do conflito, mas também da cooperação e da solidariedade” (p. 51).

Neste contexto, o trabalho de Inojosa (1999) também é bastante elucidativo. Ela propõe uma tipologia de redes baseada na relação entre os parceiros e no foco de atuação. Quanto à relação entre os parceiros, as redes podem ser do tipo:

(a) Subordinada: os entes não têm autonomia, são parte de um sistema maior caracterizado por uma interdependência de objetivos. A articulação independe da vontade, a exemplo de uma cadeia de lojas;

(b) Tutelada: Os entes têm autonomia e articulam-se por vontade própria, mas relacionam-se sob a égide de um deles. A interdependência depende da persistência do ente mobilizador, que tende a ser o locus de controle. Esta relação tutelada caracteriza a maioria das redes que nascem sob a égide do governo;

(c) Autônoma ou Orgânica: Os entes têm autonomia e a interdependência existe porque há uma força-mobilizadora por parte de todos. A rede é aberta a quem tem vontade de pactuar e o controle é compartilhado. Redes comunitárias tendem a este perfil.

Quanto ao foco de atuação, as redes podem ser de mercado ou de compromisso social:

(a) De Mercado: Têm foco na produção e/ou apropriação de bens e serviços. O objetivo é complementar ou potencializar os parceiros frente ao mercado, e as relações oscilam entre a cooperação e o conflito. A relação entre os parceiros tende à subordinação ou tutela;

(b) De Compromisso Social: Têm como foco questões sociais. O objetivo é complementar a ação estatal ou suprir sua ausência na solução de problemas sociais. Os parceiros estão interligados a partir de uma visão comum da necessidade de ação solidária. Demandam estratégias de mobilização constante das parcerias e de reedição. A relação entre os parceiros tende a ser autônoma ou orgânica.

Conforme Inojosa (1999), as redes de compromisso social são tecidas a partir da mobilização social, a partir da percepção de um problema que rompe ou põe em risco o equilíbrio da sociedade ou as perspectivas de desenvolvimento social, numa percepção ampliada da sociedade. Um problema tem diversas facetas, requerendo uma ação interdisciplinar. Alter e Hage (1993), analisando um arranjo interorganizacional no âmbito da saúde, também apontam esta abordagem, colocando que os indivíduos e as famílias têm múltiplos problemas e precisam, portanto, de múltiplos serviços ou tratamentos. Pode-se dizer, então, que se as organizações oferecem serviços específicos e têm públicos delimitados (foco de atuação), somente um sistema de referência complexa do beneficiário e a colaboração interorganizacional tornam possível um atendimento abrangente e efetivo.

Percebe-se que os autores mencionados até então adotam os termos interorganizações, relações interorganizacionais e rede sob perspectivas ora diferentes, ora convergentes. Rose Inojosa (1999), por exemplo, assume que rede equivale a relação interorganizacional. Tanto é assim que ela chama de rede tutelada o que Van de Ven (apud HALL, 1984) denomina

conjunto interorganizacional e que, para ele, é diferente do conceito de rede. Num conjunto interorganizacional, não há total ausência de hierarquia nas relações, condição esta necessária para que ocorra uma relação em rede. Postura semelhante à de Inojosa é adotada por Marcon e Moinet (2000, apud BALESTRIN e VARGAS, 2002), que chamam de rede um conjunto de