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O terceiro setor, entendido como um espaço privilegiado de solidariedade, tem na cooperação um componente essencial. Não que os conflitos não existam, mas a lógica principal, ao menos em tese, é da cooperação. Se o interesse no lucro não existe e o foco é atender às demandas sociais, as organizações deste universo podem estabelecer parceria não apenas com organizações que tenham competências distintas, mas com uma entidade semelhante para, por exemplo, encaminhar usuários que sua capacidade não permite atender. Esta atitude não é tão comum no âmbito da iniciativa privada, pois equivaleria a encaminhar potenciais clientes para um concorrente e arriscar-se a perder participação de mercado.

Um argumento que favorece o estudo do terceiro setor sob a perspectiva das interorganizações é o fato de que, quando se trata de resolver problemas e atender a demandas sociais, deve haver interdisciplinariedade e, como já foi colocado anteriormente, somente um sistema de referência complexa do beneficiário torna possível um atendimento abrangente e efetivo. Para tanto, a cooperação interorganizacional torna-se necessária.

Alter e Hage (1993), ao analisarem uma rede de organizações nos EUA, verificaram que as organizações de serviço público sofrem o problema de falta de capital/fundos, o que força uma busca por recursos junto ao governo e à comunidade. Portanto, há uma necessidade de estabelecer relações interorganizacionais por questões financeiras. Esta é a realidade que assola grande parte das organizações do terceiro setor, que dependem de recursos financeiros em maior ou menor grau a depender do serviço prestado e do público atendido.

Ademais, o próprio surgimento de muitas organizações do terceiro setor remete a uma reflexão no âmbito das redes, ainda que não seja necessariamente numa perspectiva interorganizacional. Com base em Fontes (1999), verifica-se que muitas organizações surgem a partir da construção de redes sociais centradas nos processos de sociabilidade vividos pelos indivíduos em seu cotidiano. Ele se baseia em autores como Granovetter e Goudbout, que refletem sobre a estruturação dos laços sociais a partir dos indivíduos, os quais originam os processos da dádiva caracterizados por laços fortes e estruturam as redes de reciprocidade. Estas redes de reciprocidade são redes de solidariedade que constituem instrumento importante para enfrentar situações adversas de pobreza, insegurança econômica e crise na prestação de serviços públicos pelo Estado.

Scherer-Warren (1999) contribui bastante para uma percepção do terceiro setor sob a ótica das interorganizações. Em seus estudos sobre redes de movimentos, ela atribui algumas causas para o surgimento de inúmeras redes de ONGs e movimentos sociais a partir dos anos 90, destacando as seguintes:

- as transformações nos sistemas políticos latino-americanos, permitindo a busca de visibilidade pública das ONGs mais militantes, juntamente com o interesse em ampliar a atuação da sociedade civil num momento de democratização; - fatos históricos relevantes com impacto social, que têm estimulado a

autodeterminação da sociedade civil em participar na solução de problemas sociais e políticos (como o terremoto no México, em 1985; a programação da Eco-92 para o Brasil; o processo de impeachment do Presidente Collor etc.); - o desenvolvimento tecnológico que tem agilizado a comunicação e a formação

de redes informatizadas, permitindo o uso de correios eletrônicos, formação de banco de dados e publicações produzidas de forma mais rápida e econômica; - a crise das utopias tradicionais da esquerda e dos respectivos paradigmas de

interpretação, que atribuíam centralidade a um sujeito histórico privilegiado e agora abrem espaço para a busca de novas formas de atuação política por intermédio de atores plurais;

- um movimento internacional que vem estimulando e apoiando a formação de redes transnacionais entre ONGs e movimentos sociais. (p. 51)

Analisando a realidade na América Latina, Scherer-Warren propõe uma classificação para as redes considerando os diversos tipos de articulação envolvendo ONGs:

(a) Redes temáticas: as organizações são conectadas em torno de temas específicos, como ecologia, saúde, mulher, negro, infância etc.

(b) Fóruns de ONGs: as ONGs de determinada região (escalas local, regional, nacional ou mesmo mundial) articulam-se através de seus representantes para a articulação interorganizacional de programas de ação, estratégias, projetos comuns etc.;

(c) Associações de ONGs: várias ONGs se filiam a uma associação para se articularem e promoverem intercâmbios, semelhante ao que ocorre nos fóruns. Neste caso, contudo, há uma maior institucionalização;

(d) Redes de informação e de reflexão: criadas para a difusão de informações para ONGs, movimentos sociais e cidadãos, a exemplo das agências alternativas de notícias, boletins eletrônicos, websites diversos, publicações etc. São exemplos a RITS – Rede de Informação sobre Terceiro Setor (www.rits.org.br) e a ISTR –

International Society for Third Sector Research (www.istr.org);

(e) Interface de experiências: significa a união de ONGs locais, representantes de problemas diversos, para o desenvolvimento de um projeto comum (ex.: projeto de reforma urbana). Este tipo de rede se assemelha bastante ao fórum de ONGs, porém, não é uma articulação esporádica.

Ainda segundo Scherer-Warren (1999, p. 52), as ONGs que participam de redes podem participar de múltiplas redes simultaneamente. Deste modo, ocorre um “fenômeno de articulações que assume a forma de uma rede de redes”.

Assim sendo, o universo organizacional do terceiro setor mostra-se bastante rico para uma reflexão sobre o tema das interorganizações. Segue-se, pois, uma análise de organizações com ênfase no referencial apresentado sobre terceiro setor e, consideradas as limitações do estudo, sobre interorganizações.

5 O TERCEIRO SETOR EM SALVADOR-BAHIA