Complementando a reflexão até aqui feita sobre terceiro setor, cabem algumas colocações a respeito da gestão das organizações que o compõem.
O’Neill (apud FALCONER, 1999) define algumas especificidades relativas às organizações que o compõem, em comparação com as empresas, e que têm impacto sobre os processos de gestão desenvolvidos:
(a) Missão: o propósito central das organizações é a provisão de algum bem ou serviço, não é o lucro, diferentemente do ocorre na iniciativa privada de modo geral;
(b) Valores: os valores ocupam uma posição central para a missão das organizações, orientando decisivamente sua atuação;
(c) Resultados: o entendimento e a mensuração dos resultados alcançados pelas organizações não seguem as práticas empresariais convencionais. Por exemplo, os indicadores econômicos adotados no mundo empresarial não fazem sentido para medir o desempenho de uma organização que se propõe a atuar em relação às mulheres da comunidade local na prevenção de câncer de colo de útero. Medir impactos sociais não é uma tarefa fácil;
(d) Perfil do trabalhador: os trabalhadores das organizações do terceiro setor podem ou não ser remunerados. A gestão de voluntários envolve o desafio de manter os voluntários assíduos na organização, motivados e comprometidos com as atividades e responsabilidades assumidas;
(e) Ambiente legal: a legislação que regulamenta as organizações do terceiro setor é diferenciada e possui particularidades em relação a aplicação de recursos e tributação9;
(f) Governança: diferentemente da iniciativa privada, não existem acionistas ou sócios via de regra. Portanto, as pessoas não têm poder com base no percentual de participação das ações ou cotas que possuem. A estrutura de poder e os processos decisórios atribuem um papel importante aos conselhos das organizações, que devem ser formados por pessoas voluntárias e não remuneradas;
(g) Aquisição de recursos: diferentemente das empresas, que obtêm seus recursos essencialmente financeiros através da venda de produtos ou serviços, e do governo, cujos recursos advêm substancialmente através da tributação, as organizações do terceiro setor tendem a possuir fontes variadas de recursos: doações institucionais; doações individuais; recursos governamentais, empresariais, de outras organizações do terceiro setor; venda de bens ou serviços; verba de organismos internacionais etc. Por outro lado, tais recursos são mais incertos, irregulares, requerendo uma capacitação para captação e geração de recursos;
(h) Complexidade organizacional: as organizações do terceiro setor são tipicamente mais complexas em decorrência da variedade de serviços prestados, de públicos atendidos, de fontes de recursos financeiros etc.
Sobre os desafios enfrentados na gestão de organizações do terceiro setor, o trabalho de Teodósio (2001) é bastante elucidativo quanto aos dilemas e perspectivas vivenciados pelos gestores de organizações do terceiro setor, desmitificando alguns mitos e evidenciando a
9 No Anexo B pode ser verificado um levantamento sobre legislação referente ao terceiro setor, feito pela Fundação Getúlio Vargas em 2001.
existência de conflitos em torno de suas ações. Exemplo disso são os dilemas entre: a necessidade de cumprir prazos e metas a curto prazo e a necessidade de gestão participativa — que leva tempo — tendo em vista transformações sociais mais amplas; os valores organizacionais próprios e os valores das organizações financiadoras, que podem tentar uma cooptação; assegurar auto-sustentação através de produção/venda de produtos/serviços e conseguir manter o foco na sua missão social — ao invés do foco nas questões comerciais.
Tenório (2001) aponta como principais desafios gerenciais das organizações não governamentais: contribuírem para o desenvolvimento macro a partir da experiência no âmbito micro; serem mais transparentes com a sociedade, divulgando suas ações e propostas; diminuírem a resistência e atuarem de forma participante com o Estado e com o mercado; estabelecerem diálogo com as esferas governamental e empresarial; obter financiamento diante do maior direcionamento de recursos para regiões mais necessitadas, como África e Leste Europeu. Na visão do autor, a superação destes desafios envolve a incorporação de novos instrumentos gerenciais, tais como: a criação de mecanismos de controle adequados à avaliação de impacto das ações; a busca de visibilidade pela sociedade (publicidade das ações); a identificação de áreas de atuação, produto/serviço oferecido e cidadãos- beneficiários; e a ação por meio de redes. Teodósio (2001) ratifica a formação de parcerias e a ação em redes, por parte das organizações do terceiro setor, como forma de superação de limitações operacionais.
Nesse contexto, percebe-se que a noção de parceria, ação conjunta ou rede é sempre colocada em evidência na atualidade, como fica claro em O’Neill (apud FALCONER, 1999), Teodósio (2001), Tenório (2001) e em autores citados anteriormente, como Farah (2001), Morales (1999) e Moura et al. (2001). Diante desse quadro, segue-se uma reflexão sobre terceiro setor e interorganizações.
4 TERCEIRO SETOR E INTERORGANIZAÇÕES
Como ficou evidenciado até aqui, a perspectiva de relacionamento interorganizacional do terceiro setor com o Estado e com o mercado tem aumentado nos últimos anos. Sobre o relacionamento entre Estado e sociedade civil organizada, com base em Falconer (1999), alguns autores argumentam que o Estado tem mais poder na relação e, assim sendo, põe em risco a autonomia, a legitimidade e a proximidade à base popular que caracterizam, de modo geral, as organizações da sociedade civil. Ou seja, a cooptação pelo Estado seria um processo inevitável. Diante desta possibilidade, não é na oposição à relação entre Estado e sociedade civil que os problemas vão se resolver. Pelo contrário, de nada adianta a oposição ao Estado quando a sociedade deseja ser não um espectador, mas participar ativamente na execução e, mais do que isto, na elaboração de políticas públicas. Neste processo, o terceiro setor tem papel fundamental devido ao seu “potencial de inclusão social e política no quadro da cidadania” (NEDER apud MENDES, 1999a). Com relação ao mercado, pode-se dizer que o risco de cooptação também existe, uma vez algumas organizações do terceiro setor são financiadas por empresas ou até mesmo criadas por elas.
O fato é que as relações interorganizacionais acontecem. Mais do que isto, elas acabam por influenciar nos tipos organizativos que se constituem e, em muitos casos, as instituições do terceiro setor, do Estado ou do mercado não podem ser consideradas do tipo “puras”, caracterizando-se então enquanto interorganizações. Mas o que são as relações interorganizacionais? O que são as interorganizações?