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A. N OTIONS DE BASE

III. La titularité du droit

1. La titularité du droit

Se o olhar permite essa leitura de mundo a partir das imagens que o configuram, é possível que se construa um apanhado de informações sobre os lugares e as suas respectivas características. Ao andar por uma rua, uma bairro ou uma cidade, é necessário que vários mecanismos de percepção do entorno sejam ativados para que a espacialidade seja compreendida e permita o movimento do sujeito na configuração espacial do local onde ele está localizado.

Lynch (1997, p. 4) elucidou bem esse fato quando afirmou que,

No processo de orientação, o elo estratégico é a imagem ambiental, o quadro mental generalizado do mundo físico exterior de que cada indivíduo é portador. Essa imagem é produto tanto da sensação imediata quanto da lembrança de experiências passadas, e seu uso se presta a interpretar as informações e orientar a ação. A necessidade de reconhecer e padronizar nosso ambiente é tão crucial e tem raízes tão profundamente arraigadas no passado, que essa imagem é de enorme importância prática e emocional para o indivíduo.

Uma imagem compreensível do ambiente permite uma locomoção mais fácil e rápida, e o olhar se faz fundamental para o entendimento do espaço que se queira desbravar. Seja ele em suas micro ou macro escalas.

Gomes (2013, p. 54-55) complementa esse pensamento na medida em que considera que:

Há uma ação geográfica nesse nosso olhar. Uma imediata classificação das coisas pela posição que ocupam. Produzimos imediatas cartografias dos lugares e de seus conteúdos, selecionamos o que deve ser figurado, o que deve ser examinado, estabelecemos pontos de vista e até a escala dessa análise.

Portanto, ao se classificar o mundo externo para que se possa o apreender de forma significativa, regimes de visibilidades são construídos por cada indivíduo a partir da singularidade e dos critérios do seu olhar. Construindo, assim, cartografias do olhar ou as chamadas geografias dos olhares (GOMES, 2013). Sendo que esses regimes de visibilidades conversam diretamente com as afetações que nos acontece na nossa interação o espaço geográfico. Elegemos determinados lugares a partir do que sentimos neles, seja para aproximar ou afastar.

A geografia do olhar, como proposta pelo geógrafo Gomes (2013), dessa maneira, se configura enquanto processo de composição, que entrelaça em si experiências temporais diversas, sensações, humores, sentimentos e emoções. A geografia do olhar é constantemente nutrida da subjetividade individual e da objetividade das coisas que se apresentam na realidade. Os espaços exercem forças de atração e repulsão, apego e desapego, alegrias e

tristezas, e ao mesmo tempo uma mistura de tudo isso concomitantemente. As cartografias ou geografias do olhar de que o autor fala são, portanto, construções individuais que partem do contato e experiência com os lugares, possibilitando assim que sejam construídas percepções, sentimentos e emoções a partir do encontro com a realidade.

Tuan (2012, p. 338) é certeiro quando afirma que "Todos os homens compartilham atitudes e perspectivas comuns, contudo, a visão que cada pessoa tem do mundo é única e de nenhuma maneira fútil." Logo, é salutar se fazer o destaque que essa visão de mundo está dialogando com distintas facetas das histórias e contextos de cada indivíduo. A visão de mundo abarca além da história do presente de cada um, ela transcende a existência e remonta aos ancestrais familiares. Nunca se é apenas o esse de agora, se é o muito dos que foram e dos que são, e nesse encontro de seres e sentires, é que o que está aqui se compõe. Somos sobreposições de camadas de tempos, espaços e sentimentos.

Para que as nossas geografias cotidianas sejam construídas, elaboradas e compreendidas, acessamos o mecanismo da memória como ponto de sustentação e localização dentro dos espaços que caminhamos, conhecemos e vivemos. Walter Benjamin considera que as imagens de pensamento (Denkbild) são percepções, relatos e experiências que construímos no contato com a cidade. Ou seja, são fundamentais para que a pessoa se oriente ou se perca dentro do ambiente urbano. Benjamin (2017, p. 101), em seu pequeno texto Escavar e Recordar, considera que,

"[...] a memória [Gedächtnis] não é um instrumento, mas um meio, para a exploração do passado. É o meio através do qual chegamos ao vivido [das Erlebte]... Assim, o trabalho da verdadeira recordação [Erinnerung] deve ser menos o de um relatório, e mais o da indicação exata do lugar onde o investigador se apoderou dessas recordações. Por isso, a verdadeira recordação é rigorosamente épica e rapsódica, deve dar ao mesmo tempo uma imagem daquele que se recorda, do mesmo modo que um bom relatório arqueológico não tem apenas de mencionar os estratos em que foram encontrados os achados, mas sobretudo os outros, aqueles pelos quais o trabalho teve de passar antes. (Grifo do autor)

A memória expressa por Benjamin (2017) deve ser, desse modo, o meio pelo qual o ser toma conhecimento e se recorda. Logo, ela está em contínua construção e se metamorfoseia. Sendo assim, a memória é o fio condutor da montagem das imagens de pensamento que gradualmente estamos fazendo do mundo em que interagimos e vivemos.

Neste sentido, as imagens de pensamento podem ser contadas. Como disse Sontag (2004, p. 34), "Só o que narra pode levar-nos a compreender". E a compreensão atravessada por imagens e narrativas é um caminho possível e rico a se trilhar. Onde há o limite da imagem a palavra pode continuar, tal como onde há o limite da palavra a imagem pode

continuar. Imagem e palavra caminham juntas e se expressam de variadas formas. Seria a dita "frase-imagem" de que Jacques Rancière (2012, p. 56) fala?

A potência da frase-imagem pode se expressar em frases de romance, mas também em formas de encenação teatral ou de montagem cinematográfica, ou na relação do dito e do não dito de uma fotografia. A frase não é o dizível, a imagem não é o visível. Por frase-imagem entendo a união de duas funções a serem definidas esteticamente, isto é, pela maneira como elas desfazem a relação representativa do texto com a imagem. No esquema representativo, a parte que cabia ao texto era o encadeamento ideal das ações, a parte da imagem, a de um suplemento de presença que lhe conferia carne e consistência. A frase-imagem subverte essa lógica. A função-frase ainda é a de encadeamento. Mas, a partir daí, a frase encadeia somente enquanto ela é aquilo que dá carne. E essa carne ou essa consistência, de modo paradoxal, é a da grande passividade das coisas sem razão. A imagem tornou-se a potência ativa e disruptiva do salto, da transformação de regime entre duas ordens sensoriais. A frase-imagem é a união dessas duas funções.

Rancière (2012) argumenta que a frase-imagem não se limita apenas a palavras e a imagens em si, mas possibilita o movimento, o silêncio, o vazio. É a medida contraditória, aquela que ultrapassa o campo do já reconhecido e adentra em caminhos novos de interpretação. Como disse o autor, a frase-imagem remonta ao encadeamento de ideias e ações, mas também ao que dá corpo ao que seria desconsiderado em primeiro momento. Pensamos ser então, na ordem da narrativa, aquilo que aparece sutilmente nas entrelinhas e ao mesmo tempo aquilo que sobressalta. Um gesto, um calar, um movimento. Tudo porde ser lido e interpretado, e tudo incorpora novas significações. Vemos essa frase-imagem como a integração das coisas que surgem em primeiro plano, com aquelas que aparecem em segundo, terceiro ou quarto plano. Uma verdadeira sobreposição de camadas significantes e simbólicas. Rancière (2012) faz muito essa abordagem tomando como base a discussão fílmica. Contudo, é possível pensá-la no campo da narrativa enquanto imagens e textos que se entremeiam num movimento constante. Então, porque não fazer essa conexão com as geografias dos olhares? Já que imagens de pensamento, frase-imagem, percepções e experiências estão misturadas dentro da realidade de cada indivíduo.

A grande riqueza das geografias dos olhares está justamente nessa variedade de considerações sobre o que nos atinge, nos move e nos faz pensar.

Na escala da cidade, Lynch (1997, p. 105) comenta que:

Em sua condição de mundo artificial, é assim que a cidade deveria ser: edificada com arte. É um nosso hábito antigo nos adaptarmos ao nosso ambiente, discriminando e organizando perceptivamente o que quer que se apresente aos nossos sentidos. A sobrevivência e o predomínio baseavam-se nessa adaptabilidade sensória, mas hoje já podemos passar para uma nova fase dessa interação. No ambiente em que vivemos, podemos começar por adaptar o próprio espaço ao padrão perceptivo e ao processo simbólico do ser humano.

Acreditamos que o tratar a cidade com arte, como Lynch (1997) falou, seria considerar esses modos de percepções, experiências e olhares aprofundados sobre a existência

humana no meio urbano ou em outros espaços também. As narrativas enquanto campo de conhecimento são possibilidades extras que se apresentam dentro do vivido do cotidiano, tal como Benjamin (2017) pontuou.

Gomes (2013, p. 230-231), contribui neste sentido, quando esclarece sobre a importância da observação na construção desse olhar de que falamos anteriormente.

Há uma ruptura fundamental nas formas de observação de um quadro, de um filme, de uma paisagem e a observação da vida social nos espaços públicos. O olhar não se fixa, a narrativa não está previamente construída, não há um ponto de observação que nos separa inteiramente do espetáculo, o olhar do observador é parte dele. Três são, portanto, as diferenças fundadoras da observação urbana: um olhar que se desloca, vagueia e escolhe; um olhar que é reflexivo, que é parte daquilo que observa; uma narrativa que não está fechada, organizada para um tipo de olhar, orientada para uma posição.

O autor acima se refere a observação como constituinte fundamental do que ele chama de: "o olho de rua". A experiência urbana faz resultar no olho de rua, e gera um tipo de personagem como o flâneur benjaminiano. Aquele que torna visível novos regimes de visibilidade que passariam despercebidos. A experiência de investigação dentro da cidade é um campo fértil, onde as geografias dos olhares passeiam como um rio de ventos que se desdobram pelos espaços e lugares.