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O viés heterossexista emerge como problemática transversal ao processo e aos resultados da investigação psicológica, jogando-se quer sobre as lógicas conceptuais, quer sobre as metodologias utilizadas (e.g., Cain, 1996; Garnets & Kimmel, 1993; Martin & Knox, 2000; Morin, 1977; Morrow, 1996). A formulação teórica e a decorrente planificação empírica de muitos estudos psicológicos sobre a orientação sexual pressupõem frequentemente uma superioridade do registo heterossexual, ora ignorando a “diferença” sexual (i.e., a não-“heterossexualidade”), como se inexistente fosse e não necessitasse de ser conhecida, ora tentando validar metodologicamente as posições ideológicas que lhe estão na base, deste modo enfatizando de forma discriminatória a “diferença” (Chernin, Holden & Chandler, 1997).

Os estudos que, a respeito do ajustamento psicológico, estabelecem distinções entre homossexuais e heterossexuais negligenciam o facto de tais diferenças se relacionarem com a estigmatização que (no contexto social heterossexista) recai sobre a não- “heterossexualidade” e, assim, tendem a atribuir indesejavelmente estas diferenças a dificuldades intrínsecas aos sujeitos (e.g., APA, 2000; Morin, 1977; Savin-Williams, 1990). Embora muitos destes estudos continuem a defender que a homossexualidade é uma perturbação mental, é preciso ter em conta que estes estudos recorrem a metodologias e quadros teóricos de pendor heterossexista, servindo muitas vezes para sedimentar a representação ideológico-cultural que inferioriza a “diferença” sexual, revelando resultados inconsistentes e inconclusivos (cf. APA, 2000).

A forma como as “questões” da investigação tendem a ser colocadas denotam, na opinião de Gonsiorek (1988), dificuldades que se prendem muitas vezes com a definição pouco precisa dos termos utilizados a respeito das identidades gay e lésbica e com uma classificação redutora da vivência dos sujeitos e/ou dos grupos que experienciam a “diferença” sexual. São questões que muitas vezes revelam uma profunda ignorância sobre as realidades quotidianas com que os “diferentes” se confrontam no seu percurso e no seu

quotidiano, quando não mesmo questões que reproduzem, no domínio da pesquisa psicológica, o ostracismo e/ou uma discriminação positiva destes sujeitos e/ou grupos.

O viés androcêntrico complementa, com frequência, o viés heterossexista, aspecto detectável no modo de elaboração de medidas de observação ou na frágil adaptação destas medidas às populações lésbica e gay (e.g., Chernin et al., 1997; Kitzinger, 1987). O que antes dissemos sobre o pendor androcêntrico dos quadrantes teóricos para a compreensão da “diferença”, da (re)construção identitária e do enquadramento contextual dos processos psicológicos adjacentes ao sentido de si como lésbica ou gay, encontra correspondência nas metodologias e nas medidas que integram as investigações a estes temas dedicadas. Daqui deriva que os estudos psicológicos tendam a ler a construção das identidades lésbicas como “sucedâneas” das identidades gay, como se a vivência masculina da homossexualidade fosse ditame da experiência subjectiva de si como lésbica. Resulta, assim, que recorrentemente são elaborados e/ou adaptados itens cujo conteúdo não faz sentido para lésbicas ou, então, que os investigadores disponham de instrumentos passíveis de administração junto ou de lésbicas ou de gays, mas não de instrumentos pertinentes para avaliação da experiência desenvolvimental de umas e de outros (Fassinger & Miller, 1996). O conteúdo dos itens, a validade de constructo e a análise da estrutura factorial são garantes metodológicos referidos por Mohr e Fassinger (2000) como imprescindíveis à adequação de qualquer medida objectiva de avaliação que se mostre sensível às diferenças que descrevem as experiências identitárias de gays e de lésbicas2.

Ainda que devendo, desejavelmente, contemplar dimensões comportamentais, cognitivas e afectivas que alicerçam a construção de si como homossexual, os estudos sobre a “homossexualidade” recorrem frequentemente à utilização de medidas de avaliação que se limitam à dimensão comportamental da sexualidade (Chernin et al., 1997). Uma opção metodológica deste tipo torna, como se compreende, altamente simplista a vivência da “diferença” sexual, chegando alguns estudos a defender que o número de parceiras(os) sexuais é indicativo da qualidade desenvolvimental das identidades lésbica ou gay. Como defende Coleman (1988), a redução estrita da definição da identidade homossexual aos relacionamentos sexuais com parceiros do mesmo sexo decorre de uma tentativa de

2 Para uma marcada preocupação em distinguir as experiências feminina e masculina da “diferença” sexual são

exemplarmente contributivas as propostas de análise metodológica inspiradas pela teoria queer, o que se compreende tendo em conta o que na parte teórica do nosso trabalho foi sistematizado sobre esta corrente teórica. A respeito das implicações metodológicas das propostas queer, vide, e.g., Febraro, 1995; Nelson, 1994; Kitzinger, 1987; Kitzinger & Wilkinson, 1995).

sobrevalorizar o comportamento sexual na definição subjectiva que a pessoa faz de si mesma, assim criando bases para uma dissolução dos importantes, idiossincráticos e múltiplos significados que à sexualidade humana estão necessariamente associados.

Em consonância com o que anteriormente dissemos a respeito da hiper-sexualização das homossexualidades enquanto modo de manutenção da ideologia heterossexista (que assim estabelece que ser homossexual é sobretudo ser sexo), esta interpretação redutora das sexualidades relaciona-se com uma outra tendência detectável nos estudos sobre a “diferença” sexual. A tendência a que uma singular “homossexualidade” seja defendida desemboca numa estereotipada leitura da (re)construção identitária, na simplista assumpção de uma vivência monolítica, uniforme, homogénea de ser lésbica ou gay. Contra esta tendência metodológica se propõe a atenção particular a características como o género, os papéis sexuais, o estado civil e outras características demográficas, as relações amorosas, os círculos de pertença e de participação associativa, aspectos fundamentais dos estudos que pretendam focalizar-se na complexidade das interacções entre o sujeito e os seus contextos de pertença e de participação (e.g., Elizur & Mintzer, 2001; Garnets & Kimmel, 1993).