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On the computational complexity of nonholonomic path planning

vergonha de si mesmo/a, na impossibilidade de plenamente partilhar com os outros os seus desejos, as suas atracções, as suas relações, a sua identidade. E então se falaria, ao assim supormos, numa inevitável “heterofobia internalizada”, da qual inevitavelmente decorreriam dificuldades de construção emocional entre parceiros de sexo diferente. No contexto das representações culturais e simbólicas em que a experiência pessoal de ser lésbica ou gay continua a inscrever-se, merece peculiar atenção o longo e complexo caminho de “saída do armário de si mesmo” e da partilha desta “saída” com os outros.

IV. 4. 3. Quando a pessoa Quebra o Armário: Revelar e Revelar-Se.

De coming out falámos a respeito da afirmação colectiva das identidades gay e lésbica e da relevância que a saída do armário assumiu para esta afirmação. A consciência da não identificação com a norma heterossexual, a apropriação de um sentido da “diferença” face a esta norma e a revelação a si mesmo e aos outros da “diferença”, fazem do coming out (agora na óptica do desenvolvimento psicológico) “um processo complexo e reformulante da consciência individual como gay ou lésbica que, simultânea e complementarmente, apela à possibilidade do sujeito se perceber e definir como homossexual e de revelar a outrem a sua homossexualidade” (Markowe, 1996, p. 8).

Na relação com a abordagem psicossocial do desenvolvimento da identidade e nos moldes em que esta abordagem define a organização da experiência individual - sustentada em processos de individuação que permitem ao sujeito ser ele mesmo, ao mesmo tempo que lhe possibilitam sentidos de fidelidade e genuinidade na relação com os outros - se amplifica a importância do coming out. De tal modo é este aspecto central para a construção das identidades gay e lésbica que alguns autores vieram a denominar os modelos psicológicos de desenvolvimento da identidade homossexual como “modelos de coming out” (cf., De Monteflores & Schultz, 1978;Penelope & Woolf, 1989, Rubio, 1996).

No contexto da opressão, a revelação da “diferença” tem implicações pessoais e relacionais particularmente problemáticas. Revelar-se como sexualmente “diferente” pode acarretar custos que passam, potencialmente, pelo isolamento e pela exclusão dos grupos e dos contextos de pertença (escola, pares, amigos, família, trabalho…), quando não pela perseguição e violência directamente dirigidas à pessoa que, porque revelada, se torna

que as consequências sociais da revelação possam resultar menos problemáticas e ostracizantes do que o sujeito antecipa, é fundamental examinar onde, como, quando e a quem revelar, aspectos fundamentais a que o suporte psicológico tem de atender, explorando com o indivíduo as expectativas que detém sobre os efeitos relacionais da revelação, os custos e os benefícios desta revelação e os elementos significativos com quem pode estabelecer uma relação confiante e segura ao mostrar-se como gay ou lésbica.

O processo psicológico de coming out configura-se como uma construção dinâmica e morosa, que tanto ao sujeito quanto às pessoas que lhe são significativas é reclamado para que a integração da “diferença” revelada ocorra (e.g., Cass, 1984; D’Augelli, 2000; Eichberg, 1990; Davis & Neal, 1997; Hershberger & D’Augelli, 1995; Markowe, 1996). Revelar(-se) é, pois, uma necessidade inerente à consciência de si, às trocas relacionais significativas e genuínas, à construção de uma intimidade gratificante, intimidade que sem se negligenciar na (re)construção identitária, dela necessariamente faz parte, mas não a esgota. Porque na revelação de si como pessoa integral e livremente considerada se traça o caminho do

coming out.

A investigação no domínio da psicologia do desenvolvimento tem sido caracterizada, assim salienta Savin-Wiliams (1990), por um desconhecimento da construção subjectiva da identidade homossexual durante a adolescência: “um pressuposto cultural prevalente é o de que a homossexualidade é terreno da idade adulta: o que estes adultos foram enquanto crianças e adolescentes prevalece um mistério” (p. 165). Num período fulcral para a consolidação da identidade, como vimos ser a adolescência, a ausência de referências positivas sobre a “diferença” sexual, ao lado da reacções negativas que sistematicamente sobre esta “diferença” se lançam, a falta de informação (quando a não a desinformação) e sobrevalorização da heterossexualidade como padrão normativo e preferencial do desenvolvimento humano, são factores que tornam extremamente dificultado o percurso psicológico dos adolescentes. Como nos dizem Llamas e Vidarte (2001), a saída do armário coloca-se como processo de (re)construção pessoal particularmente saliente e adverso “desde o momento em que alguém se dá conta que não é heterossexual: quer dizer, para a grande maioria das pessoas, desde a adolescência” (p. 106).

Reconhece-se que as práticas sexuais homossexuais são relativamente frequentes entre os adolescentes (Garnets & Kimmel, 1993; Moore & Rosenthal, 1993; Savin-Wiiliams,

1990, 2001a): durante a adolescência, “predominam as amizades com companheiros do mesmo sexo […], pelo que alguma exploração sexual pode ocorrer neste contexto. No entanto, esses contactos homossexuais parecem ser geralmente irrelevantes no desenvolvimento de uma orientação homo ou heterossexual [futura]” (Menezes, 1990, p. 145). A exploração de distintas modalidades de relacionamento sexual e íntimo deve ser vista como parte integrante do desenvolvimento psico-sexual na adolescência, sem que tal represente necessariamente a determinação futura de uma identidade sexual homossexual ou bissexual. A rotulagem e a identificação precoce de um adolescente como homo ou bissexual pode desembocar numa culpabilidade e numa “falsa certeza” de si como sexualmente “diferente” que compromete a riqueza dos múltiplos significados decorrentes da exploração sexual e, nesse sentido, pode propiciar um investimento que outorga o desenvolvimento da identidade pessoal.

Família, contexto escolar e grupos de pares são habitualmente referidos (pela importância que nesta fase da vida sabemos assumirem) como contextos onde os problemas relacionados com a integração da “diferença” sexual mais frequentemente se colocam (Beaty, 1999; Carneiro & Menezes, 2006; Goggin, 1993; Johnson, 2000; Lasala, 2000; Lock & Steiner, 1999; Nichols, 1999; Savin-Williams, 1990; Thomas & Larrabee, 2002; Vincke & Rycke, 1999). São problemas recorrentes de adaptação psicológica por parte dos sexualmente “diferentes” a estes contextos o consumo de substâncias psicotrópicas, o fraco rendimento académico, o abandono escolar, a ocorrência de comportamentos (pró-)delinquentes, a depressão, as perturbações de ansiedade, a fobia social, a ideação suicida e/ou as tentativas de suicídio. Vários estudos apontam uma taxa de suicidalidade entre adolescentes homossexuais ou bissexuais com valores 3 a 4 vezes superiores à taxa de suicídio apresentada por adolescentes heterossexuais (Cole, Protinsky & Cross, 1992; Dempsey, 1994; Garland & Zigler, 1993; Hammelman, 1993; Johnson, 2000; Kourany, 1987). Muitos destes estudos negligenciam situações vivenciais de adolescentes que, ao idealizarem o suicídio ou que o tendo tentado, não manifestaram ter sido por razões relacionadas com a sua “diferença“ sexual, pelo que a percentagem documentada em estudos sobre suicidalidade em jovens homossexuais e bissexuais é tendencialmente subestimada (Savin-Wiiliams, 2001a).

A investigação psicológica dedica também atenção ao impacto da vitimização na saúde mental de jovens gays e lésbicas (Comstock, 1991; D’Augelli, 1989, 1992; Herek,

1989; Hershberger & D’Augelli, 1995). Entende-se por vitimização o ataque físico e/ou verbal que em diferentes graus é directamente exercido sobre sujeitos que se revelam como gays, lésbicas ou bissexuais e/ou cujas atitudes e comportamentos são social e culturalmente associados à “diferença” sexual6.

Embora sendo, naturalmente, os processos de vitimização constatados em populações gays, lésbicas e bissexuais adultas, é saliente a necessidade de investigação cuidada sobre estes processos no que concerne aos jovens e jovens adultos, porquanto é sobretudo nestes períodos de vida que mais vulneráveis se mostram, segundo os estudos a este tema dedicados, os sexualmente “diferentes”. O stress cumulativo que tais situações geram nestes indivíduos é, como mostram os resultados de alguns destes estudos (D'Augelli, 1989;Hershberger & D’Augelli, 1995), um factor que compromete fortemente o bem-estar psicológico geral de quem sofre tais situações e que contribui consideravelmente para a ideação suicida e/ou para o comportamento suicidário. Assim, as situações de vitimização agravam um modo de ser e de pertencer já por si problemático e suscitante de dificuldades de adaptação psicológica.

Os contextos universitários são também mencionados como espaços onde recorrentemente se verificam situações de violência dirigida aos sexualmente “diferentes”, fenómeno correlacionado com o facto de nesses contextos jovens e jovens adultos (mais tendencialmente do que nos anos escolares precedentes) revelarem a sua orientação sexual não-heterossexual e, logo, mais “identificáveis” e expostos aos perigos da vitimização estarem expostos (e.g., D’Augelli, 1989, 1992).

Atenderemos agora, e mais aprofundadamente, aos modos como assumem os contextos de pertença e de participação relevância no desenvolvimento integrado das identidades sexuais não-heterossexuais.

6 Foi anteriormente referido que a homofobia se apresenta como uma rejeição social dos indivíduos que revelem uma

orientação sexual não-normativa, bem como a rejeição de indivíduos que ainda que não a revelando “pareçam” não- heterossexuais. A “vitimização” reporta-se, nas investigações aqui referenciadas, a situações em que a adversidade face à “diferença” sexual assume contornos de violência explícita, intensa e criminosa.

IV. 5. Ser, Pertencer e Participar :

os contextos da “diferença” e a construção subjectiva das homossexualidades.

IV. 5. 1. Ser ao Pertencer: “diferença” sexual e redes de apoio.

No que se refere à família, e em particular aos núcleos parentais, é a maior ou menor capacidade de aceitação da “diferença” sexual dos filhos que se apresenta como factor basilar para o modo como estes filhos vão desenvolver um sentido de si como não- heterossexuais. Os indivíduos que percepcionam elevado suporte por parte das figuras parentais são os que apresentam mais altos níveis de satisfação com a sua orientação homossexual (Elizur & Mintzer, 2001; Gonsiorek, 1988;Herdt & Koff, 2002; Lock & Steiner, 1999; Rubio, 1996; Savin-Wiiliams, 1990, 2001a). Além disto, as reconfigurações familiares subsequentes à “descoberta” da homossexualidade dos filhos podem representar um conjunto de processos com os quais “toda a família ganha, no seu modo comunicacional, na genuinidade desenvolvida no contexto familiar, muitas vezes atingindo um nível de genuinidade relacional nunca conseguido antes da revelação [da sexualidade pelos filhos]” (Elizur & Mintzer, 2001, p. 148).

A negociação identitária entre pais e filhos interfere positivamente, quando levada ao ponto da integração familiar, quer com a capacidade dos filhos revelarem a outras pessoas (que não familiares) a sua “diferença”, quer com a capacidade de estes filhos estabelecerem relações segurizantes em geral e relações íntimas e/ou amorosas gratificantes. Por um lado, a revelação da “diferença” sexual aos pais apresenta-se como uma das mais exigentes e ameaçadoras tarefas desenvolvimentais que a um(a) filho(a) se coloca no seu desenvolvimento psicológico (Beaty, 1999); por outro lado, tal revelação facilita (quando conducente a uma percepção elevada de suporte familiar) a integração da “diferença” sexual, tanto por parte dos filhos como por parte dos núcleos parentais (Herdt & Koff, 2002).

Como se disse, a perspectiva psicossocial do desenvolvimento define a autonomia como interdependente, através de um processo de construção relacional com os outros em diferentes contextos da existência humana. Com os pares, se arquitectam bases para que progressivamente a pessoa se individualize, pelo que cabe atender ao papel destes pares na construção psicológica das identidades gay e lésbica.