4 Steering methods
4.3 Steering chained form systems
A orientação sexual homossexual define-se, fundamentalmente, como a atracção sexual e/ou emocional dirigida a pessoas do mesmo sexo, a ela estando associadas fantasias, erotismo, desejos desencadeados pela presença real e/ou imaginada dessas pessoas. Em que medida é necessário ter tido experiência sexual com parceiro(s) do mesmo sexo para que o sujeito se defina como homossexual, se o sentido de si como homossexual se estabelece antes ou depois dessa experiência, são interrogações que a investigação deixa em aberto (Hegna, 2004; Rubio, 1996).
Não devem estar ausentes das reflexões sobre a relação entre conduta homossexual e orientação homossexual as evoluções sociais, culturais e políticas que historicamente se foram operando a respeito da sexualidade. Diferentes significações históricas, diferentes formas de luta pela afirmação da “diferença” sexual, conferem ao comportamento, ao desejo, aos significados psicológicos associados à experiência psicológica da (homo)sexualidade, um carácter de pluralidade que nos leva, também numa perspectiva psicossocial do desenvolvimento, a falar de homossexualidades e não de “uma” homossexualidade.
Do ponto de vista do sujeito psicológico, a identidade de género remete para o modo como cada pessoa se classifica enquanto homem ou mulher e para os processos através
dos quais, nos valores simbólicos e políticos da estrutura social, se constrói um sentido de si como homem ou como mulher. “Feminilidade” e “masculinidade” não são, deste ponto de vista psicológico, categorias estanques, unívocas ou dicotómicas: vimos que, através dos contributos da Teoria Queer, “género” assume um carácter discursivo e performativo – é-se o que social e culturalmente se constrói como possibilidade de ser homem ou mulher, em função de uma construção linguística que demarca, ela própria, o “masculino” do “feminino”. À identidade de género se associam dimensões vivenciais como a forma de estabelecer relações e de as referenciar com base nestas categorias de “masculino” e de “feminino” ou o desenvolvimento de uma consciência pessoal sobre a preferência diferenciada por homens ou por mulheres enquanto amigos/as, parceiros/as sexuais e/ou amorosos/as.
As representações sócio-culturais e ideológicas do “masculino” e do “feminino” travam, como dissemos, relação indissociável com estereótipos que interferem, recorrente e negativamente, com as sexualidades “não-normativas” e que decorrem dos mecanismos heterossexistas e homofóbicos que sobre “outras” sexualidades recaem. Estas representações são apropriadas no percurso identitário da pessoa, radicando nesta apropriação uma desvalorização de si enquanto sexualmente “diferente” que se prende, muitas vezes, com o sentido de que se é “menos homem” ou “menos mulher” porque gay ou porque lésbica. Como diz Isay (1993), lésbicas e gays exibem frequentemente uma batalha psicológica contra as consequências de terem sido forçados, no seu desenvolvimento, a abandonarem (ou pelo menos a camuflarem) a expressão da sua afectividade pela ameaça representada no facto de estes aspectos das suas vidas contrariarem as expectativas normativas do género5. Lembre-se a este respeito, que é característico de um estatuto de identidade outorgado a estereotipia e o carácter superficial das modalidades de relacionamento íntimo: de resto, como podem as relações de intimidade não-heterossexuais construir-se de modo gratificante e integrado se as referências sociais e culturais que sobre elas se jogam são ora inexistentes, ora ostracizantes? Como pode um indivíduo investir gratificantemente nestas relações se os contextos de exploração sexual e/ou amorosa não- heterossexual estão remetidos para o silêncio e para a marginalização? Como podemos
5 Esta “batalha psicológica” não se restringe ao evitamento social e público daquilo que a pessoa possa encarar como
“contrário” ao “seu” género, estendendo-se também ao espaço da construção dos seus relacionamentos e da sua intimidade (aspecto que vimos ser crucial à estruturação da identidade), à capacidade para manter relações íntimas e/ou amorosas e para nessa intimidade/emocionalidade se sentir confortável e genuína. Neste sentido, e complementando o que dissemos ser necessário a uma psicologia afirmativa gay, Isay (1993) salienta a necessidade dos psicólogos trabalharem com os sexualmente “diferentes” a aceitação da “atipicalidade de género” que os indivíduos associam às suas acções, às suas crenças e às suas relações, de explorarem os significados dessa “atipicalidade”, de fortalecerem a auto-estima e de descomprometerem o peso adverso desta “atipicalidade” na vivência de si como pessoa, plena e integralmente (re)construída.
pretender que, num espaço, social e ideologicamente “desigual” de procura e de experimentação sexual/emocional, as pessoas adquiram um sentido integrado e “igualitário” de si, da sua orientação sexual e dos significados de género que a “desigualdade” promove como confusos?
Estamos, aqui, na presença de aspectos que se prendem com o que a leitura psicossocial do desenvolvimento atribui de relevo às moratórias sociais e institucionais para a (re)construção identitária: em espaços de pertença familiar, social, institucional onde estereótipos e reacções negativas desta ordem são recorrentemente constatados, a identidade homossexual resulta, logicamente, como processo desenvolvimental que suscita intensas dificuldades e marcado sofrimento à vivência psicológica da “diferença”.
Os papéis sexuais dizem respeito ao modo como, social e culturalmente, são desempenhados comportamentos vistos como “masculinos ou “femininos”: “o desenvolvimento dos papéis sexuais corresponde de algum modo à dimensão comportamental da identidade de género” (Menezes, 1990, p. 147). Porque culturalmente construídos, estes papéis diferem de contexto para contexto, comportando nas suas significações modos de identificação com os outros que ao discurso, à linguagem, às semânticas devem a sua relativização. Já os processos definidos por Erikson (1972) como sustentadores da experiência subjectiva e da construção identitária integravam, como vimos, o desempenho de papéis social e culturalmente relativizados, aspecto a que o modelo dos estatutos da identidade vem dedicar maior atenção (Marcia, 1966).
Na abordagem psicológica das identidades gay e lésbica, os papéis sexuais granjeiam especial atenção quanto ao modo como são experienciados pelos sexualmente “diferentes”. De modo frequente, as pessoas associam a possibilidade de expressão desta “diferença” como ameaçante, numa sociedade que linearmente impõe ao homem uma manifestação da sua identidade segundo o que normativamente se delimita como “masculino” e à mulher uma forma expressiva de feminilidade no obrigatório cumprimento do seu “papel de mulher”. Relativamente a tempos históricos mais remotos, os papéis “masculino” e “feminino” estarão algo relativizados, mas são ainda certamente, na sua rigidez, subsidiários das lógicas heterossexistas e das atitudes homofóbicas dessas lógicas derivadas. A masculinidade hegemónica, a sua relação intrínseca com a rejeição da homossexualidade, foi por nós referida como modalidade cultural destinada à manutenção de uma heteronormatividade que, também pelos papéis sexuais, se pretende veiculada e garantida (Browning, 1993, 1996; Escoffier, 1998; Murray, 2002).
Deve enfim dizer-se que o desenvolvimento psicológico da identidade sexual encontra, nas referências culturais e ideológicas normalizadoras, formas de vivência subjectiva e de expressão desta vivência que nos conduzem a todos, independentemente da orientação sexual, à impossibilidade de viver a plenitude que humanamente nos assiste. Não apenas os sexualmente “diferentes”, embora tendencial e compreensivelmente mais estes, experienciam esta não-plenitude da expressão social do que nos edifica como pessoas: a exploração nos domínios interpessoal e sexual passa, desejavelmente, por expressões e vivências que escapam à rigidez e à linearidade. Por isso mesmo, podem os investimentos nestes domínios ser mais consolidados quando homens e mulheres, heterossexuais ou não, expressam mais livremente os seus afectos, as suas relações significativas, os seus (não-lineares) modos de gostar.