• Aucun résultat trouvé

Geometry of Nonholonomic Systems

1.2 Definitions. Basic problems

Analisando os benefícios psicológicos potencialmente resultantes da participação política, Sanders (2001) refere que o envolvimento em associações voluntárias de cariz humanitário se revela promotora do bem-estar psicológico de quem nelas participa. Associações de defesa dos direitos de negros, homossexuais e mulheres figuram, no estudo desta autora, como espaços privilegiados para “protestar contra as situações de injustiça, lutar activa e conscientemente contra a discriminação, reclamar direitos, articular necessidades [de diferentes grupos minoritários] e resistir à opressão, de forma saudável e potenciadora do bem-estar psicológico” (p. 17). Esta autora conclui que as modalidades relacionais de combate à opressão são particularmente benéficas para indivíduos cuja identidade é histórica e politicamente votada a intensas formas de discriminação, sendo a “a actividade política um recurso que pode reduzir significativamente as consequências negativas para a saúde mental dos indivíduos derivadas do seu estatuto social desfavorecido” (p. 18).

A participação comunitária define-se, de acordo com Ceri (1991), como um processo activo de envolvimento que directa ou indirectamente se destina à protecção de determinados valores e ao equilíbrio de forças que caracterizam as relações sociais. O envolvimento activo do sujeito e a acção colectiva relacionam-se, pela participação voluntária em organizações, num processo dinâmico através do qual a mudança social e a vivência subjectiva das condições de opressão e de discriminação se encaminham para uma melhoria destas condições. Diversidade e empoderamento pessoal e colectivo cruzam-se, no espaço da participação política, como elementos complementares do desenvolvimento de um sentido acrescido de comunidade e de pertença (Menezes, Ferreira, Carneiro & Cruz, 2004): no contexto das organizações voluntárias, a participação dos indivíduos pode

conduzir a uma confiança interpessoal acrescida, a sentimentos de conectividade e a expectativas de ajuda mútua (Green & Brock, 2005).

De Picolli, Colombo e Mosso (2002) analisam as consequências individuais e grupais da participação. Ao nível individual, são enfatizados aspectos positivos como a promoção da auto-eficácia, da auto-estima e das crenças subjectivas sobre a capacidade para controlar os acontecimentos de vida. Ao nível colectivo é a mudança de normas e de valores de um grupo de pertença, a aquisição de novos conhecimentos sobre o mundo e sobre as relações sociais ou a redução de um sentido de alienação e de falta de poder de contribuir para a mudança que se apresentam como benefícios resultantes da participação política. No entanto, esta participação apresenta, segundo as autoras, riscos de uma forte identificação dos indivíduos com o seu grupo de pertença e, deste modo, a possibilidade de que o preconceito relativamente a valores e necessidades de outros grupos se desenvolva nos contextos participativos, o que impede o estabelecimento de um sentido tanto pessoal quanto grupal da necessidade de estabelecer coligações.

Não obstante o facto de se reconhecer que nas últimas décadas temos assistido a um decréscimo do interesse pela política e pelas formas «tradicionais» de participação na política (Inglehart, 1997), defende-se actualmente a emergência e a importância de «outras» formas de participação política, como é o caso das organizações de intervenção social e comunitária (Giddens, 1997b). Por um lado, há que reconhecer que a motivação para a participação nestas organizações nem sempre é de carácter estritamente político, na medida em que o envolvimento pode decorrer de experiências idiossincráticas múltiplas; por outro lado, a participação pode não resultar necessariamente num sentido acrescido de eficácia política (Stewart & Weinstein, 1997). No entanto, o envolvimento e a participação activa organizações são potencialmente contributivos para o estabelecimento de redes sociais mais vastas e apoiantes, assim como para a (re)construção do sentido de identidade através da integração de um ponto de vista histórico-social e político na definição de si próprio.

Com base na teoria psicossocial do desenvolvimento, Yates e Youniss (1998) referem que é através do envolvimento em estruturas comunitárias que os jovens podem tornar-se agentes reflexivos e desenvolver oportunidades para o investimento em valores e ideologias que asseguram o sentido de continuidade e de fidelidade subjacentes à (re)integração identitária. A reflexão aprofundada e partilhada sobre os constrangimentos e

oportunidades oferecidas pelos contextos em que os indivíduos se desenvolvem, a confrontação com uma compreensão ideológica enriquecida sobre estes contextos e o desenvolvimento de projectos de suporte activo a situações de desfavorecimento social, são resultados salientes do envolvimento político em associações voluntárias. Aliás, e segundo Kroger (1989), sujeitos outorgados, moratórios ou difusos podem evoluir para um estatuto construído de identidade se o contexto favorecer a negociação relacional dos significados das experiências de vida. Os contextos de participação associativa são frequentemente propiciadores de tais oportunidades, pelo que potencialmente favorecem a (re)integração das experiências de vida no desenvolvimento psicológico da identidade.

Reportando-se especificamente às identidades gay e lésbica, Vincke e van Heeringen (2002) defendem que o relacionamento interpessoal possibilitado pelo envolvimento activo em organizações de defesa dos direitos dos sexualmente “diferentes” reduz significativamente o stress minoritário e dos efeitos depressivos que deste stress decorrem: “a participação na cultura gay, nas suas estruturas organizacionais e o estabelecimento de contactos continuados com elementos dessas estruturas, é um ingrediente fundamental para uma construção identitária integrada” (p. 1319). No mesmo sentido, Alderson (2003) salienta que o envolvimento associativo auxilia um sentido acrescido de pertença comunitária, o desenvolvimento de relações de intimidade e a crença na estabilidade das relações amorosas, bem como a redução dos impactos negativos da discriminação e da violência dirigidas aos sexualmente “diferentes”.

IV. 6. Modelos de desenvolvimento psicológico das identidades gay e lésbica.

O caminho histórico através do qual os sexualmente “diferentes” afirmaram as suas identidades travou, como salientámos, uma estreita relação com o percurso de afirmação de “outras” identidades. Neste paralelismo entre o histórico-político e o individual alicerçam os modelos psicológicos de desenvolvimento das identidades gay e lésbica a sua análise sobre os sentidos inerentes à vivência da “diferença” sexual. O que estes modelos descrevem é, afinal, o desenvolvimento da identidade em contextos de opressão, tal como acontece com os modelos desenvolvimentais que se centram na identidade feminista (e.g., Downing & Roush, 1985; Helms, 1985) ou na identidade racial (e.g., Cross, 1971). As questões relacionadas com o “género”, a “orientação sexual” ou a “etnia” inspiram-se mutuamente, com vista à leitura psicológica dos processos que presidem ao desenvolvimento identitário e

quando este desenvolvimento retrata situações vivenciais problemáticas decorrentes das experiências de discriminação social.