Geometry of Nonholonomic Systems
1.6 Regular and singular points
Foi pioneiro o modelo proposto por Cass (1984) para compreensão da construção psicológica da identidade homossexual. A noção, inspirada nos contributos da perspectiva do ciclo vital, de que os indivíduos se desenvolvem e elaboram reformulações cognitivas, comportamentais e afectivas ao longo da vida, vai assumir centralidade no modo como esta autora descreve a construção activa e prolongada dos significados atribuídos à homossexualidade. A maleabilidade da identidade homossexual remete, nesta proposta teórica, para a edificação de um sentido de “diferença” como processo prolongado no tempo, como um fenómeno long-lasting que implica uma atenção aos modos relacionais do sujeito com o seu contexto, na descoberta de novos e reformulados significados que subjazem à homossexualidade. Aspecto relevante deste modelo é o facto de ele postular, contrariando abordagens desenvolvimentais da homossexualidade que lhe são anteriores, que “o indivíduo não se constitui como simples veículo passivo através do qual a mudança toma lugar” (Cass, 1990, p. 259). Em alternativa, a pessoa desempenha um papel activo na aquisição significada e significante da sua homossexualidade.
A validação deste modelo em amostras de gays e lésbicas e o desenvolvimento de um instrumento de avaliação são também contributos relevantes de Cass na abordagem da identidade homossexual. Segundo esta autora, a identidade homossexual evolui ao longo de seis estádios de complexidade crescente na definição de si como sexualmente “diferente”: (i) a confusão de identidade, momento em que o sujeito questiona a sua própria orientação sexual; (ii) a comparação identitária, que envolve sentimentos de isolamento e alienação que decorrem daquele questionamento; (iii) a tolerância identitária, estádio de desenvolvimento marcado por uma procura activa de outros gays ou outras lésbicas e pela aceitação acrescida da própria homossexualidade; (iv) a aceitação da identidade, período em que o sujeito faz uma revelação selectiva (i.e., apenas a algumas pessoas) da sua homossexualidade; (v) o orgulho identitário, que envolve a imersão na subcultura gay e lésbica e a rejeição da norma e dos valores heterossexuais e (vi) a síntese da identidade, estádio culminante da construção da identidade homossexual e que se caracteriza pela
integração da orientação sexual homossexual na conjunto de características que globalmente definem a pessoa7.
Outros modelos de desenvolvimento da identidade homossexual se seguiram à proposta teórica de Cass (e.g., Coleman, 1982; Sophie, 1987; Troiden, 1979, 1989, 1993). Coleman (1982) enfatiza os processos de estigmatização e de pressão social para a conformidade com a norma heterossexual como dificultantes do desenvolvimento integrado de um sentido de si mesmo(a) como lésbica ou gay e Troiden (1979, 1989) propõe uma abordagem sociológica, na qual defende que a revelação – coming out – da identidade homossexual se apresenta mais como uma escolha pessoal (de revelar ou não perante as adversidades contextuais) do que um estádio desenvolvimental específico com características bem definidas. Defendendo uma sequência desenvolvimental de estádios bastante semelhante à que Cass propõe, estes dois modelos não foram, contudo, empiricamente validados.
Sophie (1987) desenvolveu o primeiro modelo de desenvolvimento da identidade homossexual que especificamente pretende dar conta das experiências de vida e significados subjectivos associados à homossexualidade feminina. Recorrendo a entrevistas estruturadas com mulheres lésbicas, Sophie conclui que o desenvolvimento da identidade sexual não é necessariamente um processo tão linearmente vivenciado como o que tende a ser descrito por outros modelos, já que uma grande amplitude temporal é constatável entre diferentes mulheres na definição de si mesmas como lésbicas.
Revendo os diferentes modelos de construção das identidades gay e lésbica, Falco (1990) agrupa os estádios fundamentais que delimitam a análise do desenvolvimento psicológico ao longo do processo de coming out, descrevendo-os como estádios que desenham um trajecto que vai desde um momento inicial de consciência vaga de uma “diferença” até momentos últimos de integração e ajustamento do sentido de si como homossexual, passando pela negociação deste sentido com outros significativos e pela confrontação com modelos sociais positivos sobre a homossexualidade. Se observarmos com cuidado esta progressão desenvolvimental que a pessoa homossexual faz na
7 Note-se, a título de exemplo, as similitudes entre esta sequência desenvolvimental e a que Downing e Roush (1985)
descrevem para caracterização da identidade feminista: no modelo destas autoras, as mulheres caminham de uma aceitação
passiva das condições opressivas a que estão sujeitas no corpo social sexista para um compromisso activo com modos não-
estereotipados de pertença a este corpo social, o que implica transcender os papéis de género tradicionalmente atribuídos ao “feminino” e a integração dos significados de ser mulher numa concepção integrada de si mesmas.
(re)definição da sua identidade, percebemos o paralelismo com o que vimos ser a história da afirmação colectiva enveredada pelos sexualmente “diferentes”. O encarceramento social da “diferença” é agora, nos modelos psicológicos de desenvolvimento das identidades gay e lésbica, levado à impossibilidade pessoal de aceitação de uma orientação sexual não- normativa e à indefinição do sentido de ser “diferente”. A isto se segue a exploração de “outros diferentes”, de redes de socialização com “iguais”, num modo homofílico, como que persuasivo (perante si e perante os outros) de aceitação da homossexualidade. De um
orgulho liberacionista que des-silencia a “diferença” sexual e a torna base de confrontação
positiva consigo e com os outros se faz a etapa desenvolvimental seguinte. Finalmente, é uma integração que implica a não-sobreposição da orientação homossexual às características globais de si como pessoa que emerge, num modo de se relacionar que não fazendo perder de vista as necessidades pessoais e colectivas subjacentes à vivência da “diferença” sexual, a coloca ao lado das necessidades de “outras diferenças”, no que podemos dizer constituir uma “coligação psicológica” do sujeito consigo e com os agentes relacionais da existência humana.