Geometry of Nonholonomic Systems
2.2 Equations and notations
Na sequência da sistematização dos vários modelos de desenvolvimento psicológico das homossexualidades e das críticas que aos mesmos vimos estarem endereçadas, é importante apresentar uma proposta teórica que se revele inclusiva na análise da construção das identidades gay e lésbica. O modelo desenvolvido por Fassinger e seus colaboradores (Fassinger & Miller, 1996; McCarn & Fassinger, 1996) afigurou-se-nos como singularmente útil para dar resposta a essa necessidade inclusiva.
Trata-se de um modelo que intenta dar resposta às insuficiências detectadas nas propostas psicológicas que o precedem, focalizando-se na experiência subjectiva relacionada com múltiplas formas de opressão e de discriminação anexadas à “diferença” sexual. Desenvolver-se e auto-definir-se como lésbica ou gay, implica um “processo de construção identitária como membro de um grupo, o que inclui uma confrontação (progressivamente diferenciada) com a opressão e com o seu próprio estatuto enquanto membro desse grupo oprimido de referência” (Fassinger & Miller, 1996, p. 55).
A relevância da participação política para o desenvolvimento da identidade homossexual emerge como aspecto criticamente considerado neste modelo. Como McCarn e Fassinger (1996) referem,
há, com certeza, mérito na ideia de que o activismo social e a relação interpessoal de confiança que esse activismo permite estão positivamente associados à saúde mental e a uma internalização positiva da identidade lésbica/gay […]. No entanto, a implicação de que a falta das qualidades [decorrentes do activismo] signifique uma menos-valia desenvolvimental impede o reconhecimento das diferentes realidades sociais em que lésbicas e gays vivem. (pp. 519-520)
Nesta lógica, ainda que reconhecendo o importante papel do envolvimento activo da pessoa homossexual em estruturas comunitárias vocacionadas para a defesa dos seus direitos, o modelo aqui apresentado reserva aos sexualmente “diferentes” a possibilidade de reconhecimento das múltiplas “diferenças” que a sua “diferença” comporta. Mais especificamente, o viés androcêntrico recebe uma acrescida atenção por parte deste modelo inclusivo, que assim tenta dar conta dos processos desenvolvimentais que distintamente gays e lésbicas podem experienciar na edificação das suas identidades.
Tanto a revelação a um vasto número de pessoas da homossexualidade, quanto o envolvimento político em contextos comunitários enquanto aspectos indicadores de um desenvolvimental integrado das identidades gay e lésbica, merecem também cuidado crítico neste modelo. Na verdade, “forçar” a pessoa a esta revelação e/ou a este envolvimento pode ser pernicioso, uma vez que tais indicadores desenvolvimentais negligenciam os constrangimentos sociais que à revelação e à participação se colocam e, neste sentido, podem-nos conduzir a responsabilizar o sujeito pela sua própria vitimização. No contexto opressivo em que todos vivemos, a revelação e a negociação de identidades estigmatizadas estão de tal modo condenadas à exclusão e à discriminação que é, como temos dito, às estruturas sociais e ideológicas (e não á pessoa) que deve endereçar-se a razão das impossibilidades de ser “diferente”.
Fassinger e Miller (1996) referem que o pendor individualista habitualmente detectado nos modelos de desenvolvimento das identidades gay e lésbica faz com que sejam confundidos os processos subjectivos de significação destas identidades com
dimensões sociais que dão sentido a esses processos. Preferindo a designação de “fases” à
designação de “estádios” para caracterização dos momentos desenvolvimentais que descrevem a identidade homossexual, os autores salientam que a construção psicológica da “diferença” sexual se desenha como um processo flexível, contínuo e circular através do qual “cada nova relação [interpessoal] suscita novas questões à sexualidade individual e cada novo contexto requer uma consciência renovada da opressão grupal” (p. 522).
Distinguem-se, nesta concepção teórica do desenvolvimento das homossexualidades, o sentido pessoal da orientação sexual e os significados grupais que a esta são atribuídos. Dois ramos paralelos, reciprocamente catalíticos mas não necessariamente simultâneos, dão corpo a esta distinção: o ramo da identidade sexual
individual e o ramo da identidade sexual grupal. Quatro fases de progressão
desenvolvimental das identidades lésbica e gay são apresentadas para cada um destes ramos: “consciência” (awareness), “exploração” (exploration),“aprofundamento/ compromisso”(deepening/commitment) e “internalização/ síntese” (internalization/
synthesis). O modelo resulta, assim, do cruzamento destas quatro fases com os dois ramos
– individual e grupal – que estruturam um sentido subjectivo e partilhado de consciência da opressão sobre a “diferença” sexual. A sistematização das quatro fases que, para cada uma das dimensões processuais (individual e grupal), são descritas neste modelo, dá a perceber em que medida a diferenciação, a complexificação e a integração das componentes da identidade promovem um sentido pelo e não-discriminado de si como lésbica ou gay.
A primeira fase – “consciência” – descreve um sentido vago e emergente de diferença relativamente à norma heterossexual que pauta os sentimentos e desejos, os objectos de relação afectiva. A não-identificação com a heterossexualidade normativa surge, nesta fase, associada ao questionamento da própria identidade como possivelmente gay ou lésbica, não estando ainda necessariamente implicada uma auto-definição como homossexual. O (re)conhecimento de pessoas e/ou comunidades não-heterossexuais conduz o indivíduo à percepção de que esteve, por longo tempo, subjugado às ideologias heterossexistas e a uma representação do mundo como exclusivamente heterossexual. McCarn e Fassinger (1996) ressalvam que o que caracteriza mais esta primeira fase é mais a identificação da pessoa homossexual com um grupo de “iguais” que efectivamente existe, do que a compreensão consciente dos significados culturais e ideológicos da discriminação social e das implicações problemáticas desta discriminação para o desenvolvimento psicológico da identidade homossexual.
Na fase subsequente – “exploração” – o indivíduo explora activamente os sentimentos e desejos que anteriormente emergiram de modo vago, tornando-se mais consciente da “diferença” e percebendo que a “homossexualidade” se aplica à caracterização das suas vivências e necessidades. Não está necessariamente presente nesta fase uma dimensão comportamental da sexualidade, nem a variedade de parceiros sexuais. Mais do que isso, é a tentativa de definir uma posição pessoal (de identificação ou não) com outras pessoas lésbicas ou gays que promove um sentimento de pertença a um grupo de “iguais”. Para a exploração concorrem, de modo muito relevante, a existência e a disponibilidade de recursos (tanto informativos/ materiais como pessoais) que permitem à pessoa ir consolidando o seu sentido de “diferença”. Trata-se de um momento desenvolvimental durante o qual o sujeito pode experienciar, simultaneamente, culpa por “ter contribuído” (directa ou indirectamente) para o heterossexismo e um sentido acrescido de bem-estar no contacto com outras pessoas gays ou lésbicas.
A terceira fase – “aprofundamento/compromisso” – caracteriza-se pela cristalização de escolhas no domínio do amor e/ou da sexualidade homossexuais. A pessoa reconhece o desejo homossexual como claramente definidor de si própria e desenvolve um sentido de completude e de auto-realização como ser sexual. Neste período desenvolvimental, intimidade e identidade fundem-se: é-se porque se é (também) intimamente, é-se de forma íntima porque se é numa construção de si como pessoa. Cabe neste “aprofundamento/
compromisso” a identificação acrescida (por comparação ao estádio precedente) com pessoas/ comunidades gays e/ou lésbicas, numa (re)estruturação identitária que combina entusiasmo e orgulho por pertencer a estas comunidades com um conflito interno.
A fase mais complexa do desenvolvimento da identidade – “internalização/síntese” – remete para uma auto-aceitação integral do desejo/amor por pessoas do mesmo sexo, o que implica longo tempo de exploração sexual/amorosa. A pessoa redefine, nesta fase, os significados tanto individuais como grupais da opressão, integra e sintetiza a sua identidade sexual na identidade global, o que se reflecte em sentimentos de completude, segurança e capacidade de manutenção de um sentido de si como gay ou lésbica em diferentes contextos existenciais.
Adquire-se, afinal, uma visão integrada do mundo que, por ser integrada, transcende os sentimentos de culpa e de insegurança e permite ao indivíduo amar-se e amar como lésbica ou gay. Para trás fica uma visão estereotipada do mundo e das relações, fica a avaliação de si e dos outros com base em noções dicotómicas (ser “isto” ou “não-isto”) e assim se alcança um sentido de si com os outros suportado por uma apreciação global das características pessoais que integram, mas nelas não se esgotam, a intimidade e a sexualidade. Ainda que não se perdendo um sentido identitário que permanece edificado na consciência de se ser, pertencer e participar em contextos que à “diferença” e à opressão votam esta consciência, a pessoa integra numa completa, integrada e complexificada imagem de si a(s) possibilidade(s) de amar(-se) com os “iguais”.
No Quadro 6 são resumidos os elementos fundamentais das fases de desenvolvimento identitário segundo este modelo, em função dos ramos que o estruturam.
Ramo: Identidade Sexual INDIVIDUAL Ramo: Identidade Sexual GRUPAL Fase I. Consciência (Awareness)
● consciência emergente de sentimentos/ desejo pelo mesmo sexo
● sentimento de ser sexualmente “diferente” e questionamento da “norma heterossexual”
● consciência emergente da existência de “iguais” ● reconhecimento do questionamento que, enquanto grupo,
os “iguais” fazem da “norma heterossexual”, compreendendo que se esteve/está sujeito ao
heterossexismo e à homofobia
Fase II. Exploração (Exploration)
● exploração activa dos sentimentos/ do desejo homossexual e/ ou de possibilidades de proximidade em
relação a alguém que particularmente gera sentimentos e/ ou atracção homossexual
● tentativa de clarificação de sentimentos de pertença a um grupo de “iguais”
● possibilidade de experienciar culpa/fúria por ter contribuído para o heterossexismo, ao mesmo tempo que
intensificando a curiosidade e a vontade de conhecer/ participar no grupo de “iguais”