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Text Processing

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CHAPTER 5: PROCESSING WORDS

5.3 Text Processing

Com o fortalecimento dos ideais da democracia, reforça-se a tendência

dialética, com a preocupação da construção de uma nova formação social,

considerando o homem como uma síntese de múltiplas determinações (Saviani,

2003). Segundo esses ideais, a relação ensino-aprendizagem reveste-se de novas

considerações. As interações entre os alunos e a deles com os objetos de

conhecimentos passam a ser uma referência para a construção do conhecimento.

O respeito aos diferentes ritmos de aprendizagem bem como os diferentes conhecimentos prévios passam a ser considerado como foco para a

sobre o ensino fundamental, sendo implementado em 1984, em São Paulo, o ciclo

básico, proporcionando aos alunos uma ampliação do tempo para a consolidação

da base alfabética e a construção de seus conhecimentos, evitando-se, assim, a

reprovação e a evasão.

A Prefeitura de São Bernardo começa a perceber cada vez mais

intensamente a necessidade de uma reformulação curricular, uma vez que,

segundo muitas professoras, as propostas pedagógicas já não mais atendiam às

necessidades dos alunos.

Com as eleições de 1988, há uma mudança na política da cidade que

juntamente com esta mudança, novas diretrizes são apontadas para a educação

infantil. A reformulação da equipe técnica no Departamento de Educação passou a

questionar o modelo pedagógico vigente desde a criação do primeiro Jardim da

Infância, a fim de propor mudanças na ação pedagógica levando em conta a

divulgação das pesquisas de Ferreiro e as idéias construtivistas.

Embora a prática desenvolvida até então causasse inquietação nas

professoras, a mudança implicava algo novo, que precisava ser construído. Daí o

sentimento de insegurança e desestabilização de muitas professoras:

(...) foi uma desestruturação muito grande. As professoras se agrupavam para estudar, foi muito brusco, todo mundo começou a

achar que tudo o que fazia era errado.

(Trecho do relato da Profª “E”)

Diante dessas questões, as escolas começaram a repensar sua prática,

cada uma seguindo um rumo diferente, de acordo com seu grupo de professores, com suas diferentes concepções e conhecimentos teóricos.

No final da década de 80, dois fortes movimentos começam a surgir na

educação infantil da Prefeitura de São Bernardo: um deles se referia a uma

pesquisa desenvolvida em uma escola da rede, cujo trabalho era baseado na teoria de Piaget, representando um diferencial na prática pedagógica; o outro era

na perspectiva de uma reestruturação do currículo, com a instituição de uma

Os ideais de uma escola democrática traziam consigo uma preocupação

tanto por parte de algumas professoras como também da equipe técnica com o

desenvolvimento da autonomia por parte das crianças. Na perspectiva desse

momento e a partir de um curso proposto aos professores que tivessem interesse em aprofundar seus conhecimentos sobre o construtivismo, surgiu a oportunidade de uma escola da rede, a “EMEI Padre Leonardo Nunes”, participar de um projeto

juntamente com escolas públicas de São Paulo e São Caetano, coordenado pela

Drª Maria da Glória Seber.

O objetivo principal do projeto, denominado “Criança e Professor, Fazendo

e Aprendendo” era investigar a interdependência entre os vários sistemas

representativos construídos pelas crianças, tendo como base a teoria de Piaget e

as pesquisas de Ferreiro sobre as hipóteses das crianças a respeito da língua

escrita.

Tendo em vista a pesquisa pretendida, as atividades desenvolvidas nessa EMEI tinham como ponto de partida os conhecimentos prévios dos alunos. Numa

perspectiva piagetiana, esses conhecimentos eram considerados fundamentais para a compreensão das novas informações, de maneira que elas seriam

assimiladas a esquemas já construídos para, a partir daí, as crianças

interpretarem significativamente o que estavam aprendendo.

Considerando os aspectos construtivos de natureza lógico-matemática,

presentes na compreensão da escrita, e buscando a investigação de sua

interdependência com o sistema representativo do desenho, da brincadeira de faz-

de-conta, e da modelagem, as atividades propostas às crianças baseavam-se em

ações manipulatórias de objetos diversos, brinquedos variados (como carrinhos,

animais de plástico, bonecas, panelinhas) e materiais estruturados, como blocos

lógicos, barris de encaixe e outros confeccionados pelas próprias professoras com

sucatas. Assim as crianças poderiam refletir sobre suas ações, argumentando

sobre suas idéias.

As propostas, no geral, consistiam em: escritas segundo as hipóteses

particulares das crianças; atividades com o nome próprio; produção escritas com

classificações com objetos variados; criação de critérios para coleções ou

seqüências já estabelecidas; cópias de arranjos; correspondências termo a termo;

seriação e quantificação de objetos.

Fig.17- Atividade da aluna Luanda (3 anos) extraído da publicação pesquisa “Criança - Professor: Fazendo e

aprendendo”, 1992, p.58

Segundo a Profª “D”, que participou do projeto, as atividades dentro desta

perspectiva assumiam um outro caráter, diferentemente do que vinha se propondo às crianças até então:

(...) hoje, as atividades são perceptivas, a criança trabalha com

materiais e naquela época eram folhas mimeografadas, as crianças não faziam reflexão em cima. Havia professoras que

diziam: Pinte de acordo com a cor da fruta. E a criança pintou a banana meio de preto e a professora dizia que estava errado e a

criança argumentava que era meio preta sim, porque na verdade na casa dela ela via banana preta, porque apodreciam, então

aquilo era significativo para ela”.

Já no que diz respeito às brincadeiras, afirma essa professora:

Não era o brincar pelo brincar, mas o brincar com intervenção, você ajudava a refletir. Então a grande diferença na prática era

interação entre colegas. Isso mudou, você pode fazer a criança

pensar.

O trabalho com o nome próprio se reveste de um novo significado, não

como uma memorização para a sua utilização mais tarde, mas sim como um

instrumento para a reflexão sobre a língua escrita por parte das crianças.

Desafiadas a reconhecer seu próprio nome dentro do conjunto de nomes da sala,

era uma atividade que possibilitava às crianças a reflexão sobre a estabilidade de

letras das palavras, bem como suas quantidades e letras e valores sonoros. Compor o nome próprio com letras móveis também possibilitava às crianças o

desenvolvimento da capacidade classificatória, selecionando as letras de seu

nome dentre tantas outras.

Fig. 18 – Atividade da aluna Talita (4 anos) extraído da publicação do projeto pesquisa “Crianças –

professores: fazendo e aprendendo”, 1992, p. 58

O foco dessa prática se instalava na ação das crianças em relação aos

objetos e nas suas argumentações sobre suas ações manipulatórias, muito mais

do que nas atividades gráficas. Com o objetivo de se desenvolver nas crianças a

criticidade, elas eram constantemente questionadas a formular explicações sobre

Fig. 19 – Atividade da aluna Ligia (5 anos), extraído da publicação do projeto pesquisa “Crianças –

professores: fazendo e aprendendo”, 1992, p.58

Esse projeto significou uma mudança em termos práticos. Com grupos de

estudo, assessoria, discussões, as professoras passaram a fazer uma constante

reflexão da teoria sobre a própria prática cotidiana. Ao final desse projeto, em

1992, o material coletado, os registros dos professores e dos alunos, bem como as referências teóricas que subsidiaram o trabalho, foram publicados, tendo como

título o mesmo nome do projeto: “Criança e professor, Fazendo e Aprendendo”.

Apesar desse projeto ter sido desenvolvido em uma só escola da rede,

mesmo com o seu término, a prática em questão, acabou por envolver outras

escolas, uma vez que as professoras se remanejaram para outras EMEIs e algumas assumiram cargo de direção, levando as idéias e as reflexões presentes

no projeto para outras escolas.

Paralelamente a esse projeto, formou-se uma comissão para a

reestruturação curricular, composta por professoras, monitoras, diretoras e equipe

técnica: o grupo de educadores de cada escola discutia sobre sua realidade e

suas necessidades, a fim da elaboração do novo projeto pedagógico. Tal

elaboração foi acontecendo a partir das trocas entre a comissão e os

representantes das escolas, e sua publicação se deu em 1992, trazendo

informações sobre o conceito de infância, sobre a função da educação infantil, a

reestruturação das creches e a questão pedagógica na EMEI, com contribuições

português, em artes, em matemática ou em ciências de acordo como ele se

apresenta socialmente.

Também o professor, segundo os princípios dessa nova reestruturação

curricular, passa a representar uma nova função diante das considerações sobre o

processo ensino-aprendizagem:

O professor é o mediador entre o pensamento original da criança e o

reconhecimento socialmente organizado. É sua atuação, no sentido de

integrar novos conhecimentos àquilo que a criança já sabe, que a leva a

alcançar um nível de pensamento com um grau de complexidade cada

vez maior. (A Educação Infantil em São Bernardo do Campo, uma

proposta integrada para o trabalho em creches e EMEI’s, 1992, p.72)

Conhecer os diferentes saberes dos alunos torna-se uma tarefa fundamental para que o professor possa intervir de forma diferenciada, promovendo reflexões e avanços por parte dos aprendizes.

Dentro dessa nova proposta, a interdisciplinaridade deixa de ser considerada da forma como vinha sendo desenvolvida até então pelas “unidades

de trabalho”, pautada em datas comemorativas, e passa a assumir um caráter

natural de integração entre as áreas, que passam a ser vistas com seus objetivos

e conhecimentos específicos para serem trabalhadas com os alunos da forma

como se apresentam socialmente, sem uma descaracterização do objeto social de

conhecimento, impondo forçosamente uma integração:

(...) não deve a interdisciplinaridade ser entendida como “tematização”, “unidades de trabalho” ou um trabalho pontuado pelas “datas

comemorativas”, (...) resumindo o trabalho pedagógico a atividades

superficiais, quando a proposta é desenvolver conceitos, bem como

ampliar a capacidade de representação da realidade. (A Educação

Infantil em São Bernardo do Campo, uma proposta integrada para o

trabalho em creches e EMEI’s, 1992, p.73)

O respeito aos interesses dos alunos permanece nesta proposta, de maneira que “o objeto de estudo pode ser trazido pela criança sobre um fato

ocorrido no seu contexto de vida ou ser uma proposta do professor, desde que aceita pelo grupo” (A Educação Infantil em São Bernardo do Campo: uma

A heterogeneidade do grupo, assim como os diferentes ritmos de desenvolvimento, passa a ser alvo de investigação e reflexão, servindo de

referência para a elaboração de propostas a serem desenvolvidas com as

crianças. Este novo olhar a respeito dos diferentes saberes implica

transformações na prática, revestindo-as de situações em que as crianças possam

se expressar de acordo com suas hipóteses, adquirindo autonomia em ser o

sujeito ativo de seu próprio processo de construção.

As brincadeiras, os jogos e as atividades físicas continuam assumindo um

papel relevante na prática pedagógica das EMEIs, revestidos agora de uma nova

postura, como um momento lúdico em que as crianças possam colocar em jogo

seus conhecimentos. Dessa forma, passam a ser planejadas e consideradas como uma situação de aprendizagem e ao mesmo tempo como ferramenta para o

professor perceber quais desafios poderá propor de forma a estimular cada

membro do grupo, levando-os a refletir sobre suas próprias ações. Há nesse

momento, a concepção de que a alfabetização não mais se direciona pelos

determinantes biológicos e maturacionais, mas sim, a consideração de que, antes

mesmo de entrar na escola, a criança que vive numa sociedade letrada como a

nossa está desenvolvendo uma série de hipóteses sobre a leitura e sobre a

escrita. Levando em conta as diferentes fases de compreensão pelas quais as

crianças passam até consolidarem a base alfabética descritas por Ferreiro e

Teberosky, na obra “Psicogênese da língua escrita”, o direcionamento das práticas

em alfabetização propõe a substituição das atividades de coordenação e

percepção por atividades que levem as crianças a refletir sobre a maneira como a

língua escrita se organiza e o que ela representa.

A concepção de que era preciso primeiramente que as crianças

compreendessem toda a organização do nosso sistema de escrita, para poder

fazer o uso dele, toma um caminho inverso, ou seja, através do uso e da interação

com o objeto de conhecimento, as crianças vão refletindo e elaborando hipóteses,

a fim de compreendê-lo.

Assim como em língua, as outras áreas de conhecimento, revestidas

sendo proposto. As diferentes técnicas de pintura e os desenhos livres, tão

presentes no dia-a-dia das crianças, começam, então, a ser alimentados por

dados da história da arte, dados biográficos sobre artistas e pela apreciação do

nosso patrimônio artístico construído ao longo dos séculos.

Assim, também em história e ciências, o olhar curioso e questionador das

crianças, passa a ser estimulado, de forma que construam teorias explicativas

sobre os fenômenos da natureza, sobre os animais e sobre si mesmas,

pesquisando, observando e argumentando sobre suas idéias. Do mesmo modo,

as histórias de outras épocas e outras culturas possibilitam esta reflexão.

O subsídio “Recordando e Renovando” também passa por um período de

reestruturação. Sua característica de informação e sugestão de recursos para o

desenvolvimento de atividades baseadas nos “centro de interesses” e nas datas

comemorativas começa no ano de 1989 a dar espaço para a comunicação entre

as escolas da rede, através de relatos de experiências, cartas do leitor, dicas de

leituras, entrevistas e textos reflexivos. A própria capa do subsídio de fevereiro de

1993 já apontava mudanças significativas em relação à sua proposta, com

desenho e escrita produzidos pelas crianças. Durante a década de 1990, esses

subsídios foram gradativamente adquirindo um caráter reflexivo, trazendo

Fig. 20 - Capa do subsídio recordando e renovando, fevereiro de 1993

3.5 Os conflitos da reconstrução de uma nova prática pedagógica

O início da década de 90, segundo as professoras entrevistadas, foi um

período de grandes mudanças e também de desestruturação das práticas em

função das novas contribuições teóricas. Refletir sobre o porquê das mudanças

significa repensar não só para além das transformações práticas, mas também

sobre um momento histórico e político que representava transformações tanto no âmbito escolar como na mudança de postura das próprias pessoas na sociedade.

A fala da professora “D” demonstra claramente essas considerações:

Estava mudando da ditadura para democracia, então tinha que

mudar também a postura dentro da sala de aula. E eu acho que foi

nesse momento que veio o construtivismo com aquela mudança de postura e aí entrou a Emília Ferreiro em 86, 87. E junto com isto veio uma postura política nova, acho que só veio a mudança

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