CHAPTER 3: DATA PROCESSING
4.1 Generating Reports
No clima de assistencialismo da década de 60, surge o primeiro Jardim da
infância Municipal da cidade de São Bernardo do Campo, inaugurado no dia 20 de
agosto de 1960, por iniciativa do prefeito Lauro Gomes, o “Jardim da infância
Santa Terezinha”, atendendo crianças de 4 a 6 anos.
O próprio nome “Jardim da infância” já denotava a concepção de criança e
de educação infantil da época, influenciada pelos princípios de Froebel e Decroly:
desabrochar; as professoras, assumindo o papel de “jardineiras”, tinham como
função propiciar condições para o seu desenvolvimento como um todo, tanto na
parte física como na intelectual e na social.
Coordenado pela professora “B”, num prédio adaptado, mas, segundo ela
mesma, com toda a estrutura e também com a organização necessária para o
atendimento desta faixa etária, com a intenção de que servisse de modelo para os
outros que futuramente fossem criados, esse estabelecimento buscava não só
assistir às crianças no sentido de proteção e cuidados, mas também trazia uma
forte intenção pedagógica.
As atividades, de acordo com os princípios de Decroly, eram desenvolvidas
através dos “centros de interesse” ou “unidades de interesse”. Os assuntos a
serem trabalhados tinham como ponto de partida os interesses das crianças,
sendo as diferentes áreas do conhecimento trabalhadas de maneira globalizadas.
O calendário do ano, segundo a professora “B”, bem como as datas
comemorativas, serviam de referência para verificar o que poderia vir a despertar
interesse nas crianças.
Através dos “centros de interesse”, eram desenvolvidas atividades de
recorte e colagem, pintura, desenho, alinhavo e dobraduras referentes aos temas. Também se privilegiavam os cuidados com a natureza e com a horta.
Paralelamente a esses temas, eram desenvolvidas as atividades chamadas de prontidão, com o objetivo de preparar as crianças para a primeira série do
grupo escolar: atividades de percepção, lateralidade, noções de grandeza,
esquema corporal, noções quantitativas, organização espaço-temporal, além de
atividades de grafias de letras e números, seguidos desses exercícios
preparatórios. De acordo com a professora “B”, essas atividades se intensificavam
Outra forte influência na prática pedagógica do Jardim da infância de São
Bernardo do Campo foi a metodologia desenvolvida no Colégio Bennett, do Rio de
Janeiro, com uma significativa tendência pedagógica baseada nos princípios de
Dewey, em que a educação era concebida como a reconstrução de experiências
com o propósito de desenvolver e conservar o conteúdo social (Cardoso, 1960).
Mesmo reconhecendo que as crianças estavam constantemente expostas à língua escrita, independentemente da sua classe social, pois tais estímulos
sempre estiveram presentes nas sociedades letradas, as impressões das crianças
a esse respeito não constituíam alvo de atenção na época, uma vez que se
priorizava o desenvolvimento do que se denominavam “habilidades específicas”, a
fim de contribuir com o êxito na escolaridade posterior, pois se considerava que,
biológica e intelectualmente, as crianças não possuíam grau de maturação
suficiente para compreender as regras e as convencionalidades desse sistema, como se depreende da leitura do texto extraído da Revista Infância (1961):
Anúncios luminosos ou não, os cartazes, as placas nas ruas e
praças, o cinema, o rádio, a televisão, a imprensa escrita, as indicações Figs. 1 e 2 – Extraídas do arquivo particular da Profª “B”, com atividades a serem desenvolvidas
nos bondes e ônibus, enfim, um número indefinido de símbolos,
impressionam desde cedo às crianças.
No momento em que percebem que falamos, mas escrevemos e podemos ler o que gravamos, seu mundo torna-se mais atraente, mais desafiador (isto acontece entre 5 e 6 anos). Ela torna-se inquieta e curiosa,mas esta inquietação nem sempre corresponde ao ato intelectual
de poder ler e escrever, pois estas possibilidades estão sujeitas às
condições biológicas, intelectuais e emocionais. Temos então que
enriquecer o seu mundo, que já é rico pelas próprias circunstâncias
naturais. Tranqüilizá-las, prepará-las para a grande EXPERIÊNCIA ;
reunindo todos os fatores do meio cultural em atividades estas globalizadas em todos os setores do seu interesse, de forma a unificar, dirigir e ordenar a sua atenção para o ponto essencial do aprendizado.
(p.6 ).
Partindo desse princípio, as práticas pedagógicas desenvolvidas com
crianças de 4 a 6 anos tinham como objetivo o desenvolvimento de habilidades
necessárias para o início do aprendizado da leitura e da escrita na próxima etapa
da escolaridade, com propostas em torno dos assuntos de interesse dos alunos. Para exercer essa função e, ao mesmo tempo, prestar-lhes assistência e
cuidados quanto à saúde e higiene, era necessário que os professores tivessem
não só algumas qualidades especiais como também conhecimentos necessários.
Uma metáfora lançada por Cardoso, em 1960, na revista nº 1 da série
Infância, produzida pelo Colégio Bennett, retratava bem a multiplicidade de
funções esperada das professoras pré- primárias, na época:
Devem ter quatro mãos; quatro pés; paciência de Jó; preparo médico;
alto grau escolar. Deve ser perita em mover móveis; carpinteiro de
primeira; grande musicista; nítida; ordeira; excelente dona de casa;
psiquiatra e artista. Deve poder ver em volta e através das paredes; voar;
correr tão veloz quanto uma gazela; cantar dançar; ver cada criança
como um indivíduo e as crianças como um grupo (Cardoso, 1960, p.3).
As qualidades explicitadas revelam as funções relacionadas aos cuidados, à proteção e ao zelo diante das possíveis peripécias a serem realizadas pelas
crianças, como também a agilidade em organizar o ambiente e também os
materiais, de forma a acompanhar as crianças em suas atividades.
Reconhecendo a importância do papel das professoras no desenvolvimento
das habilidades e atitudes infantis, a formação de professores já era alvo de
preocupação nessa época na Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo.
Segundo a professora “B”, muitas professoras que lecionavam nos primeiros
jardins da infância não tinham a formação suficiente e, mesmo as que tinham
curso normal, ao se depararem com a prática, percebiam que seus conhecimentos
não eram suficientes. No segundo ano de funcionamento do “Jardim da infância
Santa Terezinha”, outras unidades foram sendo criadas e algumas foram
incorporadas aos então chamados “grupos escolares”.
Com a expansão desse atendimento, os Jardins da infância passaram a ser
chamados de “Pré-primário”, e a preocupação com o preparo dos profissionais
intensificou-se ainda mais. Em 1961, com a iniciativa da Profª “B” e a colaboração
da Secretaria do Estado, foi criado o primeiro “curso para professoras de Pré-
Primário”. A partir daí outros cursos foram criados, atraindo também profissionais
não só de outras instituições de educação infantil públicas como também
particulares, conforme relatou a própria Profª “B” em seu depoimento.
Revistas pedagógicas como “Infância”, dos anos de 1960 e 1961, produzida
pelo departamento Pré-primário do Colégio Bennett (RJ); periódicos como “Garatuja” (RGS), dos anos de 1971 e 1972, e a “Revista do Ensino” (RGS) de
1961 a 1967, também serviram como fundamentação para a prática dos Jardins
da Infância da Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo.
Ainda nessa década, tendo fortemente o intuito de assistencialismo, surge,
em 1964, um outro tipo de atendimento, denominado “Parque infantil”, assistindo
não só as crianças de 4 a 6 anos como também as crianças dos 7 aos 12 anos,
que tinham seus pais trabalhando o dia todo. Esse atendimento surgiu por uma iniciativa do Padre Fiorenti Elena, juntamente com o apoio da administração
Municipal, sob a coordenação da Profª Regina Dulce Donadelli Pinto (diretora do
Inspirado nosideais do escritor Mário de Andrade, que em sua gestão como
Diretor do Departamento de Cultura (1935 - 1938) implantou os primeiros Parques infantis na cidade de São Paulo, estes estabelecimentos, segundo Faria (2002),
tinham como objetivo assistir, educar e recrear – na linha do projeto da Nova
Escola, unindo educação e saúde através de projetos culturais educativos,
privilegiando, as atividades recreativas, como os jogos e as brincadeiras, para que as crianças pudessem brincar pelo prazer e não realizando uma atividade de
ocupação com objetivos específicos de desenvolvimento físico e de coordenação,
presentes nas propostas dos Jardins da infância. Também se privilegiavam as
atividades artísticas, considerando a multiplicidade cultural das crianças
brasileiras, tendo como meta elevar o nível cultural das classes populares, não
como uma forma de refiná-la pelo erudito, mas considerando-a como um elemento
complementar ao próprio erudito.
As crianças de 7 a 12 anos freqüentavam o “Grupo Escolar” num período e,
no outro, os Parques infantis. Segundo a Profª ”C”, professora do primeiro Jardim
da Infância Municipal de São Bernardo do Campo e que, posteriormente, passou a
assumir a direção deste estabelecimento, elas realizavam atividades recreativas
na maior parte do tempo, incluindo-se as artesanais, e, em outros momentos, faziam a revisão dos estudos e realizavam as tarefas escolares, daí a necessidade
de as professoras serem formadas e terem conhecimentos específicos para
trabalhar com os conteúdos do ensino primário.
Já para as crianças de 4 a 6 anos, o atendimento ocorria em regime de
meio período, nos Jardins da infância, nesta época, já chamados de Pré-
primários. Nele podiam permanecer o dia todo somente as crianças cujos pais
trabalhassem e comprovassem a necessidade da permanência do filho em
período integral, razão por que o estabelecimento era também chamado de semi-
internato.
De acordo com a professora “C”, tanto o ambiente físico como a proposta
pedagógica apresentavam algumas diferenças em relação aos Jardins da Infância,
O Parque infantil sempre trabalhou muito a parte de
desenvolvimento físico, tinha muitas atividades fora. Não era uma
coisa formal, tanto é que o Parque Infantil, ele não tinha uma sala de aula para cada turma, a característica dele era justamente esta, que era para obrigar o professor não dar aquela formalidade de
aluno, mesa, carteira, quadro-negro, então a gente rodava pela escola.
(trecho da entrevista com a professora”C”)
A professora acrescenta também que a rotina diária dos Parques infantis
dividia-se em várias atividades, como playground, palestras (momentos em que as
professoras explanavam sobre um determinado assunto), horário da conversa,
caixa de novidade, história, pintura, bandinha, lanche, descanso e aulas de dança,
três vezes por semana.
O Pré-primário tinha como princípio uma educação mais sistemática, no sentido de preparar a criança para a alfabetização
e o parque infantil, nascido de forma diferente, era através do brinquedo, através do brincar, através do desenvolvimento das
atividades do dia-a-dia, da parte física, que você fazia a criança ir se desenvolvendo e amadurecendo motoramente, tanto é que a
gente tinha uma preocupação com uma coisa um pouquinho mais sistemática só na classe de 6 anos.
(Trecho da entrevista da professora “C”)
Na fala da professora “C”, pode-se notar o quanto dos muitos princípios dos
primeiros Parques infantis de São Paulo, idealizados pelo escritor Mário de
Andrade, se faziam presentes, no sentido da valorização das atividades lúdicas e
artísticas, sobrepondo-se às formalidades da sala de aula. Também no documento “A Educação Infantil em São Bernardo do Campo: uma proposta integrada para
EMEI’s e creches”, se ressaltava que “as atividades recreativas e esportivas eram
a tônica deste atendimento, tanto que as professoras eram denominadas
As atividades desenvolvidas nos Pré-primários, segundo o referido
documento, eram apoiadas nas então chamadas “Unidades de Trabalho”,
baseadas nas datas comemorativas, que eram mensais; e em torno destas unidades relacionavam-se todas as atividades, tanto físicas como gráficas.