Partie I – LE CHAMANISME
C) Etude du chamane, le « maître du désordre »
6) Les techniques chamaniques
É na dimensão da prof undidade no Sít io do Picapau Amarelo que os heróis se revelam, as
crít icas sociais se manif est am e o conheciment o subst ancial passa a ser delineado. De acordo com Feij ó (1984, p. 51), na criação lit erária, f rut o da imaginação e do
conheciment o, é que vamos encont rar na lut a do herói para at ingir sua mat uridade a nossa iniciação: a descobert a de nós mesmos.
O leit or descobre-se no sít io ao mesmo t empo em que descobre as f acet as de Lobat o em suas personagens mít icas e heróicas. Paul Radin (apud FEIJÓ, 1984, p. 18), ao est udar a
30 bem dist int os, t endo em cada est ágio um t ipo de herói: o Trickst er é o herói arruaceiro,
inf ant il, t rapalhão e t rapaceiro, podendo ser ident if icado na f igura do Saci Pererê; o Hare
é o herói f undador da cult ura nat iva, aquele que t ransmit e alguma coisa aos homens, como
f azem em relação às crianças Dona Bent a e Tia Nast ácia, o conheciment o erudit o e o conheciment o popular; o t erceiro t ipo é o herói valent e, f azedor de f açanhas, como Pedrinho e Narizinho; Os Twins são heróis gêmeos, um é t ímido, sem iniciat iva e
int rovert ido e o out ro é dinâmico, rebelde e ext rovert ido, como o Visconde e a Emília.
Cada um dos habit ant es do sít io compõe uma f acet a da sociedade ou do próprio aut or. Sob
essa perspect iva, Narizinho e Pedrinho são t odas as crianças do mundo. Ávidos de conheciment o e de avent ura, descobrem a vida at ravés da palavra de Dona Bent a, da bondade de Tia Nast ácia e de sua própria experiência (SANDRONI, 1987, p. 52).
As duas prof essoras do Sít io t ransmit em o conheciment o, cada uma à sua maneira. Tia Nast ácia represent a os saberes do povo, as cult uras regionais, a crendice popular. Dona
Bent a, por sua vez, f ornece inf ormações cient íf icas ao mesmo t empo em que aliment a a imaginação, a f ant asia e o sonho das crianças. Assim, os personagens adquirem e t ransf ormam o próprio conheciment o ao longo da narrat iva. É o que ocorre, por exemplo,
com Emília, que, conforme veremos adiant e, adquire, com o passar do t empo, uma espécie de int eligência art ificial, a pont o de “ t ornar-se” gent e. Ela é capaz de aprender e de t ransformar seu próprio conheciment o. O mesmo não ocorre com o Visconde de Sabugosa, det ent or de uma vast a “ base de dados” , ent ret ant o, def init iva, congelada, onde nada se
ret ira nem se adiciona. Podemos ent endê-lo como um mecanismo de busca: consult a sua base de dados para responder a t udo que lhe pergunt am.
31 Mas o universo f iccional de Lobat o vai além. Ut iliza-se t ambém das personagens para t raduzir os valores e a cult ura da sociedade de maneira sut il. Nessa perspect iva, o personagem mais signif icat ivo é a Emília:
Vist a por muit os como o alt er ego de Lobat o, at ravés de quem ele emit e os
seus pont os de vist a, denuncia os absurdos do mundo civilizado, ri da empáf ia dos sábios e poderosos. Sendo uma boneca, embora evolua e vire gent e de verdade, ela est á livre das obrigações sociais impost as pela educação à criança. Ela pode dizer o que pensa sem nenhum t ipo de coerção. Represent a desse modo os impulsos reprimidos, mesmo em crianças t ão livres como Pedrinho e Narizinho (SANDRONI, 1987, p. 53).
Emília e o Visconde de Sabugosa t ambém represent am a própria sociedade da época. No
início do livro Viagem ao Céu, há uma explicação sobre uma invenção dos personagens do
Sít io, as f érias-de-l agart o. Trat a-se do período de “ repouso anual” , quando, durant e o mês
int eiro de abril, t odos permanecem cochilando, sem f azer nada, como l agart o ao sol
(LOBATO, 1977, v.6A, p.7). Emília, ent ret ant o, int errompe o repouso e, inquiet a, decide “ ressuscit ar” o Visconde de Sabugosa, que morrera após cair no mar, j unt o com o burro f alant e no País das Fábul as. Est a passagem é import ant e porque resgat a a crít ica de
Lobat o à sociedade paulist a e aos novos cost umes adot ados em f unção da busca por uma nova ident idade baseada nos preceit os modernist as, onde não havia razão ou t empo para o repouso. Emília é, port ant o, como a nova met rópole: inquiet a, divert ida, irreverent e e, sobret udo, art if icial.
O Visconde “ ressuscit ado” passa a se chamar Dr. Livingst one, um explorador af ricano, com aparência de banqueiro inglês, graças ao f raque xadrez e ao chapéu de cort iça com f it inha
caída at rás (LOBATO, 1977, v. 6A, p. 11). Há, t ambém nest e caso, uma crít ica aos novos cost umes da sociedade, onde os j ovens desf rut avam as possibilidades criadas pelo convívio da prát ica desport iva com o caos urbano, inspirando a conf ecção de t raj es, roupas e
32 Em meados de 1921, Lobat o passa a invest ir no gênero didát ico, lançando livros como
Narizinho Arrebit ado, adot ado no segundo ano das escolas públicas, após a aprovação do
governo de São Paulo. O livro recebeu elogios da crít ica e do prof essorado e despert ou,
def init ivament e, o int eresse e o gost o pela lit erat ura, conf orme af irma Trist ão de Andrade:
Por ele a criança criará o gost o pela leit ura, sent irá que o livro não é apenas um inst rument o de disciplina, mas um campo maravilhoso para a expansão de um mundo int erior, reprimido ou apenas pressent ido. É um livro que est imula a vida, que f ecunda a imaginação, que despert a a curiosidade (Apud AZEVEDO et al ., 1997, p.158).
Lobat o não poupou esf orços para ident if icar, sat isf azer e at é mesmo superar as
expect at ivas dos seus leit ores, buscando sint onia com seu t empo e incorporando às suas hist órias inf ormações diversas que, muit as vezes, coincidiam com o currículo escolar. Mas, a maior lição de seus livros é a da irreverência, da ironia, da leit ura crít ica e do
quest ionament o, da independência e do absurdo (LAJOLO, 2000, p. 61).
Adot ando Mont eiro Lobat o como parceiro de avent uras, as crianças est abeleciam com ele
uma int imidade evidenciada no desej o expresso de se t ornarem personagens de seus livros. Capt ando a lógica e a est rut ura do pensament o inf ant il, Lobat o f alava não para elas, mas como e no l ugar delas (AZEVEDO et al ., 1997, p. 312).
Essa const at ação nos remet e à t erceira dimensão da obra lobat iana: a imersão l údica. É
nela que o aprendizado e a brincadeira f undem-se com o propósit o de t ornar lições
escolares complexas em exposições mais acessíveis e evident es. Est a dimensão ocorre, na obra de Lobat o, em t rês níveis:
33 O primeiro nível é f iccional-real, no qual, at ravés de um j ogo de pergunt as e respost as, a narrat iva se desenvolve e o aprendizado ocorre. O leit or, nest e caso, assume lugar passivo e apenas “ ouve” aquilo que lhe é cont ado.
O segundo nível é f iccional-part icipat ivo. Aqui, o leit or, após ser apresent ado a um obj et o mágico, como o pó-de-pirl impimpim ou a chave do t amanho, é direcionado a um mundo
onde o conheciment o é adquirido at ravés da int eração dos personagens do sít io com o ambient e, sit uações e out ros personagens, mit ológicos, f ant ást icos, reais ou imaginários. O leit or ent ra na brincadeira e se sent e membro do grupo.
O t erceiro nível é ficcional-onírico e ocorre especificament e quando Pedrinho e Narizinho “ caem” na modorra, ou sej a, ent ram em um est ado de consciência int ermediário ent re o
sono e a vigília que os leva a conhecer os limit es ent re o real e o imaginário. De acordo com Bignot t o (1999, p. 125), as crianças do sít io “ caem” na modorra soment e quando est ão dist ant es de casa, em um ambient e nat ural e, ainda, após t erem recebido de adult os obj et os
mágicos — um saci e uma boneca — que serão import ant es no desenrolar da narrat iva.
É, port ant o, at ravés da t ridimensionalidade de sua obra que Mont eiro Lobat o conquist a o
público, f azendo com que a obra adquira novo signif icado a cada releit ura. Nas cart as escrit as por seus leit ores, t ant o se evidencia a conf iança est abelecida ent re aut or e leit ores, como se const at a a const rução ef et iva do conheciment o:
“ Agora que você me libert ou da rot ina ment al em que eu vivia oit o anos at rás, quero falar-lhe de libert ado para libert ador. No começo, quando eu lia os livros que o t al Mont eiro escrevia, achava muit a graça e ria mesmo do que você falava. Agora, ent ret ant o, que sou Emiliano, medit o profundament e nas suas palavras. Aquela hist ória do faz-de-cont a, por exemplo. Eu creio que não há nenhum absurdo nisso. Ao cont rário, há liberdade. É o ser humano que, não cont ent e de ser livre mat erialment e, ainda quer e pode ser livre no pensament o” (AZEVEDO, et al., 1997, p. 324).
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2 O Espaço do Hiperconheciment o
A Águia paira sobre os píncaros do Céu,
O Caçador com seus cães rast reia-lhe o t raj et o. Ó perene revolução de est relas const eladas, Ó perene recorrência de est ações det erminadas, O mundo de primavera e out ono, nasciment o e mort e! O inf init o cicl o da idéia e da ação,
Inf init a invenção, experiência inf init a,
Traz o conheciment o do vôo, mas não o do repouso; O conheciment o da f al a, mas não o do sil êncio; O conheciment o das palavras e a ignorância do Verbo. Todo o nosso conheciment o nos aproxima da ignorância, Toda a nossa ignorância nos avizinha da mort e
[...]
Onde a vida que perdemos quando vivos? Onde a sabedoria que perdemos no saber?
Onde o conheciment o que perdemos na inf ormação?
[...]
T.S. Eliot , Coros de “ A rocha” (Choruses f rom t he Rock)
O advent o das novas mídias t ransf ormou as maneiras de ensinar e aprender, de disseminar inf ormação, de t ransf ormar inf ormação em conheciment o, e inst aurou, def init ivament e, o
paradigma da int eligência colet iva. Transf ormou e t ransf orma, inevit avelment e a cada dia, as próprias mídias, t ornando-as cada vez mais, pela mobilidade, part e do nosso corpo, como pseudo-prót eses, onde carregamos t oda a inf ormação que necessit amos para nosso t rabalho e nosso lazer. Transf ormou as relações sociais, a comunicação e as manif est ações
art íst icas individuais e colet ivas, possibilit ando int erações modulares e rizomát icas. Transf ormou o t ext o, o livro, a leit ura, os conceit os de escrit or e de leit or, de emissor e de recept or, criando obras mut áveis, colet ivas, randômicas e int ermináveis. Transf ormou e
deverá t ransf ormar, signif icat ivament e, nossa cult ura e nossa noção de t empo e de espaço, conf orme veremos nest e capít ulo.
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