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Tableaux multidimensionels

O vinho desperta o interesse de pessoas dos mais diversos países, com as mais diversas ocupações profissionais, e tem lugar de destaque nas culturas contemporâneas, em especial na literatura. Caubrière e Gómez (2010) sublinham que o papel desempenhado pelo vinho dentro das tradições da sociedade, dá-se pela sua relação na origem de várias civilizações, através do cultivo da vinha, e por sua contribuição tanto de um ponto de vista material como sociocultural. Sobre esse interesse que o vinho desperta, Caubrière e Gómez consideram que

somente o vinho, entre todas as bebidas, tem suscitado tantos elogios e reflexões, talvez, entre todos os temas, seja superado apenas pelo amor. Em torno do vinho os gregos da Antiguidade honraram seus heróis e veneraram seus deuses, em torno do vinho criaram a poesia e a filosofia, em torno do vinho se estabeleceram alianças e pactos (2010, 7).

As autoras (2010) fazem referência à quantidade infinita de textos que têm o vinho como tema literário, em países e em épocas distintas. Estébanez (2010) comenta que ―os gregos, os latinos, a Bíblia, Shakespeare, os modernistas e tantos outros têm dedicado histórias e poemas ao vinho‖. Viegas considera que ―a literatura é quem melhor soube elogiar e perpetuar a grandiosidade do vinho, a sua convocação para cenários deslumbrantes ou inesquecíveis, intimistas ou apenas familiares‖ (2001, 10). O autor comenta que muitos escritores abordaram o vinho em suas obras, tanto de forma geral, como Camões, Baudelaire, Khayyam, como com referências a determinadas nacionalidades, a exemplo de Castelo Branco e Eça de Queirós (vinhos portugueses), Júlio Verne e Balzac (vinhos franceses) e Alexandre Dumas (vinhos gregos).

Desde os tempos mais remotos, a linguagem do vinho tem se expressado com uma espécie de mística, através do uso de metáforas (Estebánez, 2010). Nos dias atuais, para o autor, as metáforas do discurso do vinho revelam uma forma dos especialistas discorrerem sobre o vinho, assim como uma ferramenta indispensável para comunicar a completa experiência sensorial de ver, cheirar e provar: ―a riqueza sensorial do vinho faz com que tenhamos de recorrer ao universo das metáforas para poder descrevê-lo com exatidão, até o ponto que, em muitos casos, se liga a um autêntico discurso poético‖ (Estébanez, 2010, 31).

Alguns escritores consideram que desde sua origem o vinho pode ter sido considerado um símbolo de status, pois ―desde 5000 a.C., na Mesopotâmia e no Egito somente as elites bebiam vinho e, na Grécia e em Roma a distinção de classes sociais era feita pela qualidade do vinho bebido, pela forma e pelas ocasiões em que era consumido‖ (Phillips, 2003, 36,37). Na sociedade atual, Estebánez (2010) afirma que, o vinho se converteu em um sinal de distinção relacionado a uma posição social, e por isso, considera que as quintas podem aproveitar este papel que o vinho desempenha na sociedade para ampliar seus negócios como, por exemplo, as hospedagens, os spas, as degustações, enfim as atividades que compõem o enoturismo.

O vinho faz parte da existência humana e de acordo com arqueólogos, a videira começou a ser cultivada por volta de 6000 a.C. em uma região localizada ao sul do Mar Negro e sudoeste do Caucásio (Johnson, 1989). Segundo o autor, o cultivo da videira está diretamente relacionado à fixação do homem, que através da agricultura, deixou de ser nômade, porque o vinho precisa de mais tempo do que todos os outros alimentos para se obter produção. A cultura da vinha e do vinho sempre esteve presente na história da

humanidade, desde os egípcios com Osíris, os gregos com Dionísio e os romanos com Baco, além de outras divindades míticas que firmaram a importância do vinho e todos os aspectos culturais, sociais e econômicos ligados ao vinho e às sociedades onde se encontravam representados (Johnson, 1989).

Como forma de discutir a Pós-Modernidade, Maffesoli (2007, 99) recorre a Dionísio, para expor uma sociedade marcada pelos excessos, pelo irracional e pelo prazer: ―toda ocasião é boa para viver, em grupo, esse perder-se a si dentro do outro, onde a eterna criança que é Dionísio é um exemplo perfeito‖. Pivot explica que ―o Dionísio dos Gregos e o Baco dos Romanos não são senão um e o mesmo deus‖, e acrescenta: ―Baco é o deus das vindimas, do vinho e da bebedeira, embora na antiguidade lhe fosse atribuída a proteção sobre toda a agricultura‖ (2007, 35). Dionísio é considerado o deus do Vinho e das festividades que, na Grécia, tinham seu auge na primavera, época do ano em que a videira começa a evidenciar as primeiras parras (Pivot, 2007).

Há evidências da existência da vinha desde os primórdios da história da humanidade, inclusive com imagens de pinturas rupestres, o que para Nin (2005), evidencia que a vinha, na pré-história, já fazia parte da civilização mediterrânea, constituindo patrimônio desta cultura. Philips explana que as origens do vinho não são muito claras, sendo que ―a disseminação da viticultura, da produção de vinho e do seu consumo pelo Mediterrâneo e por boa parte do sul e do oeste da Europa, no período que compreende a sua origem por volta de 5000 a.C. e a queda do Império Romano em 500 d.C., foi orientada por quatro fatores‖ (2003, 35), a seguir apresentados:

a) O primeiro fator abordado pelo autor é que o conhecimento do cultivo da uva (viticultura) e da produção do vinho (vinicultura) foram obtidos através de um intercâmbio de informações entre povos de diferentes culturas. ―Pessoas que viajavam a lugares onde a uva era cultivada provavelmente retornavam à sua região de origem com raízes e informações sobre o cultivo da uva e a fabricação do vinho‖ (Philips, 2003, 36). O autor refere que além destes contatos espontâneos, a vitivinicultura também acompanhou a colonização, como, por exemplo, os gregos que estenderam a viticultura já existente quando colonizaram o Egito em 300 a.C., e a produção de vinho no Sul da Itália, ou os romanos que promoveram o plantio de uvas e a vinicultura em regiões de seu império que hoje são a França, Alemanha e Hungria.

b) O segundo fator para a disseminação do vinho foi ―o fato de ele ter sido dotado de fortes acepções culturais. Em quase todas as culturas antigas, o vinho era de alguma forma associado a divindades específicas e se tornou elemento de rituais religiosos‖. O autor ainda complementa que o vinho ―tornou-se um importante

símbolo de conceitos fundamentais, como a morte e a ressurreição‖ (Philips, 2003, 36).

c) O terceiro fator deve-se à transformação do vinho em um produto agrícola comercial rentável, vital para o desenvolvimento econômico de muitas regiões. d) O quarto fator, que pode se agrupar ao anterior, foi ―o constante crescimento da

produção vinícola e o sólido comércio de vinho que se desenvolveu ao longo daquele vasto período‖ (Philips, 2003, 37).

3.1.1 Vinho e consumo

Caubriére & Gómez (2010) escrevem que a vinha que Noé plantou depois da catástrofe do Dilúvio, simboliza a relação entre o homem e a terra, e a embriaguez de Noé funciona como um aviso ao homem sobre o perigo do consumo excessivo. Esta passagem, segundo as autoras, demonstra a relação entre o vinho e o homem oscilando entre dois pólos, o bem trazido pelo consumo do vinho e o mal trazido pelo consumo sem controle. Deste modo, prosseguem, o vinho aparece implicado por duas vertentes antagônicas do bem e do mal, que podem se intercalar ou se sobrepor, na representação temática do vinho, transmitido pela literatura oral e escrita a diferentes sociedades. Partilhando desta visão, Philips (2003) considera que o vinho e seus efeitos sempre se mostraram atraentes para muitas culturas. Esses efeitos, a que o autor se refere, são a sensação de bem-estar, o aumento da sociablidade pela redução da inibição das pessoas e os benefícios à saúde. Sendo assim, as atitudes em relação ao vinho variam entre a tolerância ao consumo moderado e a proibição da produção e consumo do vinho (e de qualquer outra bebida alcoólica). Hamilton (1991) corroborando com essa visão explica, através da mitologia, que a personalidade do deus Dionísio oscilava entre o bem e o mal, mostrando que o vinho em si não era ruim, mas poderia ter efeitos negativos dependendo do uso que se fazia dele: ―o vinho é um componente intrínseco da condição humana. Ou despista ou conduz os homens pelo caminho certo‖ (Pivot, 2007, 106).

Essa preocupação com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, nos dias atuais, tem levado à adoção de algumas medidas visando à conscientização e ao controle do consumo imoderado. As principais preocupações relacionam-se com a idade mínima permitida para compra dessas bebidas, com as questões de saúde e com os riscos de se dirigir após ingerir bebidas alcoólicas. Com essa preocupação, a Wine Moderation, um programa pan-europeu que promove a responsabilidade e moderação no consumo de vinho,

aconselha que as mulheres consumam até duas taças de vinho por dia, enquanto os homens não ultrapassem o limite de três taças. No site do programa existem uma série de recomendações, além de medidas que visam à conscientização e à orientação dos consumidores de vinho.

Em Portugal, uma lei alterou a idade mínima de 16 para 18 anos, para o consumo de bebidas espirituosas, mantendo-se nos 16 anos a idade mínima legal para a compra das bebidas não espirituosas (Decreto-Lei n.º 50/2013, de 16 de abril). No Brasil, a idade mínima para aquisição e ingestão de bebidas alcoólicas é de 18 anos, sem distinção do tipo de bebida.

Getz (2000) aborda essa questão da relação entre vinho e saúde, analisando que existe uma visão geral de que todas as bebidas alcoólicas são suspeitas de contribuir para o alcoolismo, para que as pessoas conduzam seus veículos alcoolizadas, e para que possam ter problemas de saúde, através de uma possível relação entre o consumo de álcool e o câncer, principalmente para as mulheres, que poderiam ser mais afetadas. Por outro lado, o autor escreve que pesquisas mostram que o consumo diário moderado de vinho traz benefícios à saúde, fazendo parte do modo de vida de muitas sociedades.

Getz (2000) analisa que essas preocupações e restrições ao consumo de álcool podem reduzir a demanda das atividades enoturísticas, funcionando como obstáculos ao turismo do vinho. Diante desta colocação de Getz (2000), consideramos que estas restrições não devem ser vistas como um obstáculo mas, sim como uma oportunidade, desde que o trade turístico adote medidas, nunca no sentido de ir contra essas restrições, que, de forma geral, asseguram o bem-estar da população e são essenciais à proteção da sociedade. É necessário encontrar alternativas que permitam o incremento da atividade, como hospedagem, carros coletivos, disponibilidade de motoristas, convênios com taxistas, entre outras medidas que incentivem o enoturismo, respeitando a legislação.