O esforço do homem na conversão dos solos inóspitos em vinhas resultou na aplicação de três formas distintas de plantação: socalcos, patamares e ao alto (Fauvrelle, 2002). Os socalcos são frequentes em zonas cuja inclinação é elevada e assemelham-se a
varandas separadas por muros de xisto grauváquico. Os patamares são constituídos por terraços construídos mecanicamente sem muros de suporte às terras. Sobre a vinha em patamares, Salvador (2007) escreve que, no Douro, a observação da vinha em patamares, recobrindo as encostas do rio, proporciona uma das mais magníficas paisagens humanizadas do mundo, sendo cantada por poetas como Miguel Torga, é reconhecida, hoje, como ―patrimônio mundial‖ pela UNESCO. A plantação ao alto, segundo Fauvrelle (2002), é mais nova, com início nos anos 80, consiste em um processo com origem alemã, em que a vinha é plantada segundo as linhas de maior declive, através da criação de plataformas inclinadas, em que as videiras são colocadas segundo linhas perpendiculares às curvas de nível, de modo a permitir o escoamento correto das águas pluviais. Mais recentemente, segundo a autora, também tem sido implementado o sistema de micropatamares que permite a conservação de muros pós-filoxéricos.
Nas explanações sobre as formas de plantação sempre há referência a construções pré e pós-filoxera, uma praga que influenciou diretamente na viticultura mundial e trouxe mudanças drásticas na vida da população duriense, nas suas relações de trabalho e nas paisagens da região. Na literatura do vinho, a filoxera, juntamente com o oídio e o míldio, são frequentemente citados como as pragas que devastaram os vinhedos e trouxeram profundas mudanças no cultivo da uva, com destaque para a filoxera, como analisa Johnson (1989, 442): ―nada voltaria a ser o que era depois da longa luta para proteger e restabelecer a vitivinicultura na Europa, um processo que em alguns casos demorou três quartos de século‖. A filoxera mudou a forma de cultivo da vinha, tendo como efeito imediato a redução das áreas cultivadas conduzindo a uma redução da oferta de vinho no mercado e, como resultado, um grande número de fraudes com o intuito de compensar essa oferta menor: ―a história do vinho pode ser dividida em duas eras- a.F. e d.F.: antes e depois da Filoxera‖. (Philips, 2003, 369).
A filoxera chegou à Europa entre o final da década de 1850 e início da década de 1860, através da importação de videiras de castas norte-americanas, que apresentavam pequenos ácaros amarelos que se alimentavam das raízes, sugando a sua seiva (Martins, C.A.,1991). Essas videiras estavam habituadas ao ataque destes parasitas e tinham desenvolvido formas de sobreviver, mas, as vinhas europeias não tinham quaisquer defesas (Martins, C.A.,1991). O primeiro surto significativo ocorreu na França, no sul da região do Ródano, em 1862 e a praga então, rapidamente, se espalhou a outras partes do país causando devastação generalizada nas vinhas (Martins, C.A.,1991; Esteves, 2008). Portugal foi o segundo país europeu a ser invadido pela filoxera, inicialmente em vinhas do município de Sabrosa, no Douro. A partir de 1871, a filoxera propagou-se pelo Douro, expandindo-se para os concelhos durienses de Penaguião, Peso da Régua, Alijó e São João da Pesqueira, e, a partir da década de 1880, disseminou-se por todo o país (Esteves, 2008).
Para combater a doença recorreu-se inicialmente a várias técnicas, mas, segundo Martins, C.A. (1991), as que se mostraram eficazes foram a submersão em água, o sulfureto de carbono e os enxertos com as vinhas americanas. Os viticultores portugueses, afirma a autora, utilizaram em maior escala o sulfureto de carbono e os enxertos americanos. O sulfureto, explica Martins, C.A. (1991), tinha a vantagem de conservar as cepas e não alterar o tipo de vinho, além de ser relativamente econômico. Os enxertos eram considerados mais seguros e lucrativos porque, como tinham raízes mais finas que se desenvolviam mais rapidamente do que as das vinhas europeias, resistiam melhor à ação do inseto (Martins, C.A., 1991). No Douro, diferentemente das regiões do Centro e do Sul de Portugal, os viticultores por questões econômicas optaram inicialmente pelo sulfureto e pelas replantações com castas europeias (sobretudo mourisco, tinta-cão, bastardo e sousão) que, embora não fossem totalmente resistentes à filoxera, não sucumbiam tão depressa à doença (Martins, C.A., 1991).
A autora refere que em um ―país onde a viticultura se encontrava em expansão e o vinho constituía a principal produção agrícola, é natural que a filoxera fosse encarada quase como uma calamidade nacional‖ (Martins, C.A., 1991, 654). Mas, considera que, em Portugal, os impactos negativos na economia da vinha e do vinho, foram mais significativos em nível regional, principalmente em regiões de monocultura da vinha, como no caso do Douro. Além disso, Martins, C.A. (1991) esclarece que tanto a cronologia da filoxera em Portugal, como a cronologia das medidas tomadas para combater a filoxera e apoiar os viticultores atingidos foram desfavoráveis para o Douro. O Douro foi a primeira região vinícola portuguesa atacada pela filoxera e também a que mais sentiu os seus efeitos. Nos concelhos Sabrosa e Penaguião, na margem direita do rio Douro, onde a doença atacou primeiro, a produção diminuiu progressivamente a partir de finais da década de 1860 e em 1884 e 1885 era menos da metade de antes da invasão (Martins, C.A., 1991). A autora assevera, ainda, que a luta contra a filoxera foi difícil e dispendiosa, sendo que os mais afetados foram os pequenos produtores, que não tinham como arcar com os custos, levando a que muitos abandonassem a cultura. Segundo Martins, C.A. (1991), os pequenos proprietários tinham três opções: investir em outras culturas, emigrar ou vender a área a grandes viticultores com mais recursos econômicos. Algumas propriedades deixaram de cultivar a vinha e seus terraços abandonados passaram a ser denominados de mortórios. Ultimamente, muitos mortórios têm sido replantados, mas os terraços mais antigos, geralmente, encontram-se em estado de destruição, o que inviabiliza sua reconstrução (IVDP, 2010).
No Douro pós-filoxera, os grandes produtores e algumas casas comerciais do Porto, incluindo os ingleses, aproveitaram a ocasião para investir na região, adquirindo propriedades no Cima Corgo, que foi precisamente a zona mais fortemente atingida pela
filoxera (Martins, C.A., 1991; Bennett, 1997). A estrutura produtiva nacional, segundo os autores, alterou-se, pois a vinha continuava a cobrir todo o país, mas as maiores densidades encontravam-se agora na zona Centro/Sul. No início do século XX, a produção dos distritos de Leiria, Santarém e Lisboa representava quase metade da produção nacional e a cota do Douro descera para menos de 15%. A questão vinícola, que até à filoxera, tinha estado centrada no Douro, estende-se a todo o país e transforma-se numa questão nacional (Martins, C.A., 1991). No final do século, é bem visível o impacto da filoxera no reordenamento do espaço regional (IVDP, 2010). O ataque das doenças, nas videiras, provocou uma grande mudança na Região com a expansão da viticultura do Douro Superior e a redefinição do espaço regional, com a transformação da paisagem, com a substituição dos socalcos de tipo pré-filoxérico pelos socalcos de tipo pós-foloxérico, além de inovações técnicas e novos instrumentos (Esteves, 2008).
Graças ao sistema de enxerto das videiras americanas, as uvas viníferas não foram eliminadas do planeta, mas, ―foi uma dura lição das consequências ambientais do tráfico desregulado de plantas e insetos. Por uma ou duas décadas, a praga prejudicou severamente a produção e o comércio vinícola, e por consequência os padrões de consumo‖ (Philips, 2003, 369).
Essas formas do homem lidar com os desafios do Douro, a exemplo das transformações das paisagens para o cultivo vitícola no solo duriense, criaram paisagens deslumbrantes, sendo que, em 2001, a UNESCO classificou o Alto Douro Vinhateiro como Patrimônio da Humanidade pela sua ―paisagem cultural evolutiva viva‖.
As práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural (...) [patrimônio cultural imaterial] é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito face à diversidade cultural e à criatividade humana. (Candidatura do Douro Vinhateiro a Patrimônio Mundial – UNESCO, 2001).
A candidatura do Alto Douro Vinhateiro a patrimônio mundial, explica Sousa (2001), foi uma iniciativa da Fundação Rei Afonso Henriques (FRAH), indicando inicialmente seis unidades de paisagem a serem analisadas (Douro de Transição, Alto Douro, Arribas do Douro, Las Vegas, Ribera del Duero e Montaña), mas, só o Alto Douro Vinhateiro reunia condições para vir a ser considerado Patrimônio Mundial, enquanto paisagem evolutiva viva. No âmbito do estudo das potencialidades existentes, com vista à obtenção da classificação da UNESCO, foi elaborado um projeto em que se enumeraram os pontos fortes e os pontos fracos, como seguem (Sousa, 2001):
a) Pontos Fortes
Características geomorfológicas e de memória preservada e valorizada que permitiram a aplicação do conceito de paisagem cultural;
O fato de o Alto Douro constituir a primeira região demarcada no mundo de uma zona de denominação de origem;
As características de excelência de uma paisagem cultural evolutiva viva, que apresentava fortes potencialidades de sustentação do ponto de vista produtivo;
A coerente e relevante integração entre características de paisagem cultural evolutiva viva e um forte enraizamento histórico;
A forte articulação da área a classificar com o entreposto de Vila Nova de Gaia e a cidade do Porto, cujo núcleo histórico estava já classificado como Patrimônio Mundial; e
A afirmação, pelo Alto Douro, nos tempos mais recentes, de uma imagem exterior de excelência baseada na valorização da plantação de vinha em socalco.
b) Pontos fracos
Território com capacidade endógena enfraquecida;
Uma dinâmica de associativismo intermunicipal embrionária; e
Um eixo urbano em torno do qual se organiza a fileira de serviços da economia do Vinho no Douro – Régua e Vila Real – que não constituía a base urbana e patrimonial exemplar que, do ponto de vista da complementaridade de funções, a classificação da paisagem cultural do Douro exigia.
A área proposta para inscrição na Lista do Patrimônio Mundial correspondeu a 24.600 hectares, cerca de um décimo do total da Região Demarcada do Douro (250.000 hectares), e abrangeu parte dos concelhos de Mesão Frio, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Sabrosa, Alijó, Carrazeda de Ansiães e Torre de Moncorvo, na margem direita do rio Douro; e Lamego, Armamar, Tabuaço, S. João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Côa, na margem esquerda (Pereira, 1991; Perafita, 2007).
Os critérios considerados, pela UNESCO (2001), como justificativa para inscrição do Douro na lista de bens do Patrimônio da Humanidade foram:
a) Critério (iii):
A Região do Alto Douro tem produzido vinho há quase dois mil anos e sua paisagem tem sido moldada pelas atividades humanas;
b) Critério (iv):
Os componentes da paisagem do Alto Douro são representativos de toda a gama de atividades de associação com vinificação - terraços, quintas, aldeias, capelas e estradas;
c) Critério (v):
A paisagem cultural do Alto Douro é um excelente exemplo de uma região produtora de vinho tradicional Europeia, refletindo a evolução da atividade humana ao longo do tempo.
Esses critérios demonstram claramente a importância da cultura na Região, e a necessária preocupação com o desenvolvimento enoturístico de forma sustentável, salvaguardando esse patrimônio cultural. De acordo com Sousa (2001), as justificativas para classificação como Patrimônio Mundial, englobam:
1) A paisagem cultural vinícola única resultante de um processo de adaptação secular de saberes específicos de cultivo da vinha em solos xistosos. A paisagem cultural que é também uma paisagem histórica, no sentido de que conserva, por vezes, em vinhedos contíguos, modos de organização da vinha de diferentes épocas históricas. É nesta perspectiva que se considera uma paisagem evolutiva viva, no sentido da contínua transformação em função das novas tecnologias, mas centrada em saberes, técnicas, costumes, rituais, hábitos e crenças das populações locais. A paisagem, no entendimento de Costa (2007,5,6), exprime a coragem e a determinação dos habitantes. Na paisagem, a presença de diferentes modos de condução da vinha demonstra a capacidade do homem de dominar os constrangimentos físicos, ―de onde resulta a criação do solo e a construção de um imenso conjunto de socalcos apoiados pelos seus muros‖. Esta paisagem está em constante evolução, composta por um ―mosaico de culturas, plantações, cursos de água, de equipamentos e de construções agrícolas polvilhadas pelas quintas que assumem um papel social ativo na paisagem e a continuidade de uma economia duradoura e próspera‖.
2) As denominações ―Porto‖ e ―Douro‖ que constituem elementos fortes de identidade na medida em que são inequivocamente reconhecíveis.
3) As cadeias montanhosas que criam um enclave mediterrânico entre terras frias. 4) A Unesco, em seu site, ainda destaca a importância das quintas, que considera
como uma marca distinta da Região, facilmente visualizada pelo grupos de construções em torno da casa principal.
O Alto Douro é considerada a primeira região vitícola demarcada e regulamentada do mundo, em 1756, quando Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marques de Pombal, ministro de José I, instituiu a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, com sede no Porto. A Companhia tinha como funções inicialmente a demarcação do Alto Douro e a regulamentação do ―vinho de embarque‖, também denominado ―vinho do Douro‖ ou ―Vinho do Porto‖, remontando esta última designação ao século XVII (Sousa, 2001).
A demarcação tinha como objetivo garantir a qualidade dos vinhos e eram realizadas com marcos de pedra chamados Feitorias. A primeira demarcação de 1756, e estabelecida no terreno entre 1757 e 1761, é considerada um grande avanço, pois além de definir os limites de uma região vitícola, também criou um cadastro e a classificação das parcelas dos vinho, permitindo a criação de mecanismos institucionais de controle e certificação do produto (Sousa, 2001). Após essa primeira demarcação, explica o autor (2001), as delimitações da Região foram alteradas, sendo que, entre 1788 e 1791, houve uma expansão da área demarcada, no reinado de D. Maria I. Com essas novas delimitações, chamadas de Marianas ou Subsidiárias, a região demarcada de vinhos de feitoria chegou a compreender 68 freguesias (Sousa, 2001).
Em 1907, ao iniciar o seu governo, João Franco assina o decreto que vem regulamentar a produção, venda, exportação e fiscalização dos vinhos portugueses, e demarcar a região do Douro, alargando-a de forma a integrar na sua totalidade os concelhos de Mesão Frio, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Valpaços, Murça, Sabrosa, Alijó, Carrazeda de Ansiães, Vilas Flor, Mirandela, Alfândega da Fé, Torre de Moncorvo, Freixo de Espada-à-Cinta, Figueira de Castelo Rodrigo, Meda, Vila Nova de Fozcoa, São João da Pesqueira, Tabuaço, Armamar e Lamego e a freguesia de Barrô do concelho de Resende (Pereira,1989). Em 1908, considerando-se os exageros da anterior demarcação, há uma alteração no intuito de reduzir a área demarcada, que corresponde praticamente ao espaço da atual demarcação estabelecida em 1921 (Pereira,1989). A tabela abaixo resume as demarcações na Região.
Tabela 6: Períodos das demarcações na Região do Douro, Portugal. Períodos das Demarcações Descrições
1757-1761 Demarcações pombalinas
1788-1791 Demarcações marianas e alargamento da área demarcada.
1907 Alargamento da região do Vinho do Porto até à fronteira com a Espanha.
1908 Redução da área produtora do Vinho do Porto. 1921 A área demarcada passa a ser praticamente a
atual região demarcada.
Fonte: adaptado de Sousa, 2001.
Mesmo com as mudanças, a continuidade temporal dessas demarcações, associa a identidade regional à ideia de região vitícola demarcada, desde o séc. XVIII até aos nossos dias, independentemente das alterações na área (Sousa, 2001).