A atividade vinícola quando associada ao turismo traz importantes contribuições para o crescimento sócio-econômico: o vinho motiva os turistas a interessarem-se pela história local, estimulando o interesse na preservação do patrimônio cultural das regiões visitadas (Getz, 2000). Neste sentido, Portugal tem visto recentemente, nesta relação uma grande oportunidade, como explica Jordão,
em Portugal, hoje em dia, a paisagem de vinha ou a própria cultura e folclore associados ao vinho começam a tornar-se num produto com valor econômico em si. É assim que é difícil conceber uma política de desenvolvimento local que não tenha em conta este importantíssimo recurso (in Cavaco, 2005,6).
Mas, há que se observar, como temos discutido, que essa associação não deve ter em mente o uso instrumental da cultura, pois faz-se necessário considerar outros fatores que resguardem a identidade do país e as particularidades de suas regiões. Recomendamos que não se faça uso do patrimônio cultural português como um mero produto turístico, sem se preocupar com sua sustentabilidade. Esta forma de agir poderia levar a uma autofagia, em que na ânsia desenfreada por transformar os patrimônios, cultural e natural de um país em atrativos turísticos, acaba-se perdendo as identidades regionais, ofertando produtos massificados e indistintos. Essa massificação pode levar a uma ―fuga‖ dos turistas que buscavam em suas viagens aquilo que se tornou raro no turismo, e nos setores econômicos mundiais em geral, ou seja, a diferenciação, que reflete os modos de vidas locais. O PENT (2006), embora reconheça esse potencial histórico-cultural de Portugal, pode incorrer neste mesmo erro, se suas recomendações forem interpretadas como meios para que se transforme a cultura portuguesa em oportunidades exclusivamente mercadológicas.
O IVV (2010) considera que uma região não pode ser considerada apenas um espaço físico, mas composta pelo tempo e pela história que fazem parte de sua identidade regional, em que também a paisagem deve ser considerada como um produto histórico de determinações sociais. Assim, o Instituto considera que o enoturismo representa uma excelente forma de se descobrir uma região através das rotas do vinho que
…são instrumentos privilegiados de organização e divulgação do enoturismo e contribuem para a preservação da autenticidade de cada região através da divulgação do seu artesanato, do patrimônio paisagístico, arquitetônico e museológico e da gastronomia, contribuindo para o combate à desertificação e aos constrangimentos de algumas zonas rurais. São, também, uma solução para a dinamização das regiões demarcadas (Novais e Antunes, 2009, 1254).
Mitchell e Hall (2006) afirmam que nos estudos sobre o enoturismo devem ser analisadas as ligações entre o vinho e o turismo, incluindo as rotas dos vinhos. Essas rotas criam uma identificação para a região visitada, destacando características únicas das empresas participantes. A sinalização e a organização das rotas, através dos roteiros, têm como objetivo não apenas orientar o visitante, mas também ser um instrumento de divulgação turística, uma vez que, ao mostrarem aos visitantes os locais a serem visitados e os serviços ofertados, funcionam como uma promoção eficaz das empresas participantes.
A organização e a administração das rotas turísticas devem ser feitas através de uma parceria entre o poder público e a iniciativa privada, e de acordo com Simões (2008) as rotas devem ter três funções essenciais:
a) Promoção do enoturismo junto aos fornecedores para conscientizá-los sobre os benefícios desta atividade;
b) Promoção do destino junto aos turistas, procurando os nichos de mercado com potencial para o enoturismo;
c) Organização da infra-estrutura e das atividades diretamente relacionadas com o vinho e complementares.
De acordo com o autor, em Portugal:
o projeto das rotas do vinho nasceu em 1993, com a participação do país no programa Dyonisios promovido pela União Europeia. O Despacho Normativo nº 669/94, que incentivava financeiramente tais iniciativas, preparou as bases regulamentares, os critérios de qualidade e seleção para a implementação das rotas em Portugal. A maioria das rotas de vinho entrou em funcionamento entre 1996 e 1998, com o objetivo de estimular o potencial turístico de cada uma das regiões em causa. Cada rota integra um conjunto de locais, empresas e organismos com interesse turístico, os quais se encontram devidamente sinalizados e estruturados em rede (Simões, 2008, 8).
Atualmente, em Portugal, existem 11 Rotas do Vinho, mas nem todas estão em pleno funcionamento, muitas, na verdade, encontram-se em processo de reestruturação (IVV; Turismo de Portugal):
1) Rota dos Vinhos Verdes: recebe a denominação de Território, Paisagem e Vinho, e tem a participação de 49 concelhos, que abrangem todo o noroeste de Portugal, com 66 aderentes. Como exemplos de cidades mais conhecidas, que fazem parte da rota, pode-se citar: Guimarães, Braga, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Está sob a responsabilidade da Comissão Vitivinícola dos Vinhos Verdes;
2) Rota do Vinho do Porto e do Douro: possui 54 aderentes e 03 percursos: A Rota do Vinho do Porto foi inaugurada a 21 de Setembro de 1996, com 54 concelhos situados na Região Demarcada do Douro e freguesias limítrofes. Possui três rotas, sendo que a primeira abrange as localidades de Armamar, Galafura; Lamego, Mesão Frio, Peso da Régua, Pinhão, Sabrosa, Santa Maria de Penaguião e Vila Real; a segunda tem como concelhos Alijó, Favaios, Murça, Pinhão, São João da Pesqueira e Tabuaço; e a terceira rota é composta por Figueira de Castelo Rodrigo, Freixo de Espada à Cinta, Pinhão, Torre de Moncorvo, Vila Flor e Vila Nova de Foz Côa. A responsabilidade pela Rota é compartilhada por: Instituto do Vinho do Porto, Casa do Douro, Região de
Turismo da Serra do Marão, Região de Turismo do Nordeste Transmontano e Região do Turismo Douro Sul;
3) Rota das Vinhas de Cister: A rota localiza-se no Vale do Varosa, entre os rios Távora e Varosa, onde os Monges de Cister cultivavam a vinha, e por isso a rota é caracterizada pelo patrimônio cultural relacionado à essa ordem religiosa. Sob a responsabilidade da Comissão Regional Naves Varosa, tem 07 participantes e 02 percursos: Caminho dos Mosteiros e Entre as Vinhas e Castanheiros;
4) Rota do Vinho da Beira Interior: sob administração da Comissão Vitivinícola da Região Beira Interior (CVRBI), a rota está em processo de lançamento de acordo com informações do site da Comissão, e terá como participantes as localidades de Figueira de Castelo Rodrigo, Pinhel, Almeida, Guarda, Celorico da Beira, Sabugal, Covilhã, Fundão, Penamacor, Belmonte e Castelo Branco, com 3 percursos: Da Serra ao Côa, ao Longo da Fronteira e pelos Castelos da Beira Alta;
5) Rota do Vinho do Dão: a Comissão Vitivinícola do Dão é a responsável pela rota, mas no site não há informações disponíveis e, em visita de campo realizada em 2012 ao Solar do Dão (sede da Comissão), de acordo com os funcionários, a rota ainda não estava em funcionamento. De acordo com o site da Infovini e do IVV, essa rota é composta por 3 percursos: Caminhos de Granito, Entre o Vouga e o Paiva e Entre o Dão e o Mondego;
6) Rota do Vinho da Bairrada: A Bairrada situa-se entre dois importantes centros urbanos e universitários, que são Coimbra e Aveiro, sendo que sua produção de espumantes data de 1890, o que lhe confere o título de região mais antiga na produção da bebida. A rota é administrada pela Comissão Vitivinícola da Bairrada (CVB) e tem promovido diversas iniciativas e projetos, o último dos quais com a Universidade de Aveiro (2007). Nos últimos anos a Associação da Rota da Bairrada (ARB), que reúne empresas dos setores do vinho e do turismo e autarquias locais têm-se organizado para constituirem a base do Enoturismo da Bairrada;
7) Rota da Vinha e do Vinho do Oeste: é uma das maiores regiões vinícolas de Portugal e do Mundo, com cerca de 25 quintas que fazem parte do roteiro, possui três circuitos distintos: O Circuito das Linhas de Torres, o Circuito de Óbidos e o Circuito Quintas de Alenquer;
8) Rota da Vinha e do Vinho do Ribatejo é da responsabilidade da Associação da Rota da Vinha e do Vinho do Oeste, tendo atualmente 31 aderentes e 4 percursos: Tesouro Gótico, Beira Tejo, Touro e Cavalos e Tesouro Manuelino;
9) Rota dos Vinhos de Bucelas, Carcavelos e Colares, da responsabilidade da Comissão Vitivinícola Regional de Bucelas, Carcavelos e Colares, conta com 5 aderentes e tem 3 percursos alternativos: Circuito dos Palácios, Em Torno de Sintra e Circuito das Praias;
10) Rota do Vinho da Costa Azul, situada na Península de Setúbal, é da responsabilidade da Região de Turismo de Setúbal. Presentemente possui 9 aderentes e 1 único percurso, o qual tem o nome de Dentro de Portas;
11) Rota de Vinho do Alentejo, é da responsabilidade da Comissão Vitivinícola do Alentejo. Presentemente conta com 27 aderentes, distribuídos por 4 percursos alternativos: Caminho de S. Mamede, Tesouro Histórico e Nas Margens do Guadiana.
Mas, a rota do vinho não pode ser apenas uma forma de organizar e promover as visitas nas quintas de enoturismo, pois a identidade cultural deve estar presente desde sua concepção, sendo primordial que o enoturista vivencie os modos de vida do local visitado. Como explica Bruwer (2002), sem cultura do vinho não há rota do vinho, uma vez que o enoturismo não se dirige a um turista meramente espectador do mundo do vinho, mas a um visitante disposto a envolver todos os seus sentidos, buscando uma experiência de tudo o que significa o mundo do vinho (Lazo, 2010).
Nas organizações das rotas enoturísticas deve-se buscar uma identidade própria, que esteja diretamente associada à produção e comercialização de vinhos. A construção da identidade nestas rotas deve unir a comunidade em torno da magia existente no vinho e sua produção, partilhando outras tradições e manifestações culturais (Tonini e Locks, 2005). Assim, compreendendo que o vinho reflete as questões sociais, ambientais e culturais de uma sociedade, ou seja, a própria idiossincrasia de um povo (Brunori e Rossi, 2000), é vital que estejam evidenciadas nas rotas enoturísticas das localidades.
Portugal apresenta paisagens diversificadas que, juntamente com as tradições e um rico acervo cultural das regiões, constituem elementos de identificação e enriquecimento das rotas. Essa riqueza paisagística, aliada ao patrimônio cultural, pode e deve ser aproveitada, de forma sustentável, no desenvolvimento do enoturismo, que em Portugal, é uma atividade relativamente recente, mas promissora, que já se configura como uma atividade em desenvolvimento. O enoturismo ―permite não só um benefício direto às empresas visitadas, através dos produtos e serviços vendidos, mas constitui também um elemento importante na construção da ―cultura do vinho‖‖ (Simões, 2008, 10,11). ―O consumo e a valorização do vinho compreendem um momento objetivo, que é o vinho como alimento, e um momento subjetivo, ligado à sua simbologia‖, sendo este último o que Simões denomina de cultura do vinho (2008, 11).
Assim, ao se elaborar uma rota enoturística, deve-se ter em mente tanto os conhecimentos técnicos, como os mapas, as informações sobre funcionamento, endereço, contato, como também, todas as questões simbólicas da região produtora de vinho, sendo fundamental o conhecimento sobre a história da região, a sua cultura e as suas especificidades (Simões, 2008).