O enoturismo, por abranger várias atividades, pode estar ligado direta ou indiretamente ao turismo rural, dependendo da localidade em que se desenvolve. O turismo do vinho está relacionado diretamente ao turismo rural quando as visitas ocorrem em áreas rurais, principalmente motivadas pelas viagens às quintas (termo usado em Portugal) ou vinícolas (termo usado no Brasil) localizadas em zonas rurais, e indiretamente, quando as visitas se restringem a áreas urbanas, ressaltando ainda que, pode tratar-se também uma atividade urbano-rural, quando as visitas acontecem em ambas as áreas.
Um dos principais problemas que se coloca a quem pretende abordar questões relacionadas com as áreas rurais é a de defini-las, principalmente em virtude do processo da globalização e da crescente homogeneização das sociedades modernas (Figueiredo, 2003). Essa dificuldade conceitual conduz muitos pesquisadores a analisarem a zona rural em oposição à zona urbana, enquanto outros, estabelecem critérios diferenciadores. Em Portugal, o INE (Instituto Nacional de Estatística, 2011), estabelece que os critérios diferenciadores são baseados principalmente na densidade populacional e no número de residentes, enquanto no Brasil, a definição baseia-se em critérios administrativos, ou seja, as áreas são estabelecidas de acordo com os poderes públicos municipais (Ministério do Turismo do Brasil, 2003).
Para a consecução dos objetivos propostos na investigação, entendemos que a análise do meio rural não se limita aos aspectos demográficos ou administrativos, mas também abarca a ideia de ruralidade, que pode ser compreendida como o mito do retorno ao campo. A ruralidade existe em função da sociedade atual que vê no rural, além da
agricultura e da paisagem, os modos de vida baseados no núcleo familiar e na cultura local. Pode-se compreender a ruralidade, como o ressurgimento do mundo rural, ―resultante da atual valorização da vida campestre, reconhecendo-se que a pré-modernidade que caracteriza uma parte importante das áreas rurais do sul da Europa, é atualmente uma mais-valia dessas mesmas áreas‖ (Figueiredo, 2003, 131). Esta ruralidade, analisada como o vínculo com as coisas da terra, é que caracteriza as áreas rurais. Isto significa que o comprometimento com a produção agropecuária, não necessariamente em escala comercial, pode ser representado pelas práticas sociais e de trabalho, pelos costumes e tradições, considerados típicos de cada população rural (Moreira, 1994). Essa ruralidade também pode ser analisada pela idealização do espaço rural que reflete o imaginário que pode ter fundamento, ou não, em experiências e conhecimentos de fato, sendo estas idealizações determinantes para parte da atratividade atual da zona rural com fins de turismo (Kastenholz et al, 2014).
Figueiredo (2003) considera que o espaço rural vem sofrendo modificações ao longo do tempo e, por isso, não possui as mesmas características que o marcavam há algumas décadas, mas defende que ―também é certo que as muito debatidas transformações ocorridas na sociedade em geral e nas sociedades rurais em particular, estiveram, em nossa opinião, longe de permitir que o rural se diluísse no urbano‖ (2003, 130). A autora refere que o campo é visto como um local de recreação, e que deixou de ser um espaço de produção para ser um espaço de lazer e de consumo.
Desta forma, enquanto alguns autores consideram que o turismo nas áreas rurais tem transformado esses locais, tornando-os espaços de consumo e descaracterizando-os, outros consideram que o turismo rural pretende evitar os problemas gerados com o turismo de massas, isto é, a massificação, a aculturação e a destruição do património natural e cultural, pois o espaço rural passa a elaborar novas produções como a paisagem, a ruralidade, a tranquilidade e as identidades (Pérez, 2009). Consideramos ainda a visão de Talavera (2003), que analisa o turismo como apenas uma das influências externas que afetam a zona rural e seus moradores, pois, é importante recordar, manter vínculos com o passado, mas, ressalta o autor, não se pode impedir de viver o presente da melhor forma possível. Assim, entendemos que o turismo rural, incluindo o enoturismo, tem transformado as zonas rurais, tornando-as espaços de lazer, mas ao mesmo tempo, também tem fortalecido as identidades locais (Getz e Brown, 2006). O nosso entendimento é que, com base em Kastenholz et al (2014), o meio rural tem-se modificado, entre outros motivos, pelas atividades turísticas que conduziram a processos de urbanização destas áreas, mas que, ao mesmo tempo, devido à sua própria existência muitas características rurais foram preservadas (Kastenholz et al, 2014): Pois, segundo os autores, não se pode impedir os processos de transformações desejados pelas comunidades rurais, onde as influências
urbanas se vêm manifestando, não apenas pela ação do turismo, mas também pela difusão de novos estilos de vida (Kastenholz et al, 2014). As atividades de turismo realizadas nas zonas rurais, onde destacamos o enoturismo, podem resultar em benefícios para todos os envolvidos, se assentes no potencial endógeno dos territórios e das suas gentes, e se criadas condições para uma efetiva criação de experiências turísticas significativas (Kastenholz et al, 2014). Para que isto se verifique é primordial evitar que o turismo rural se torne um turismo massificado, sem respeitar a singularidade dos locais e de seus povos, atentando-se para as questões de sustentabilidade, e ao mesmo tempo, ofertando a estes espaços rurais opções complementares às atividades tradicionais. De acordo com Figueiredo (2003), as novas funções do mundo rural em relação à sociedade global e as novas interdependências que aquelas originam, só poderão ser asseguradas se também estiverem asseguradas algumas condições básicas para a sua sobrevivência e para a dos seus habitantes. Esta preocupação com a preservação do rural aliada ao seu desenvolvimento sustentável, é expressa na Carta Europeia de Enoturismo (2006), que recomenda que as áreas de vitivinicultura, onde se desenvolvem as atividades enoturísticas, devem desempenhar um papel decisivo na disseminação de uma genuína ―cultura do vinho‖, o que consequentemente implica na necessidade de um gerenciamento integral e correto em termos ambientais e sociais, o qual deve fazer parte do sistema de enoturismo. De acordo com o Ministério do Turismo do Brasil as questões de preservação nas zonas rurais devem abranger os recursos naturais, as características de construções e os elementos tradicionais (manifestações folclóricas, culinária, produção artesanal, valores, modos de vida e ideais das comunidades rurais, além de elementos que referendem a história da região e das famílias) (2003).
Costa e Kastenholz (2009) explicam que o turismo em áreas rurais, e incluímos o enoturismo, assume um papel importante no desenvolvimento regional e na criação de emprego. Mas, para os autores, esse segmento turístico, não tem merecido o interesse dos investigadores portugueses, apesar do seu papel de potencializador e dinamizador do desenvolvimento das regiões rurais Por isso, consideram crucial apostar no desenvolvimento de mais investigação nesta área.
Em Portugal, o Turismo Rural surgiu em 1978 de forma experimental nas localidades de Ponte de Lima, Vila Viçosa, Castelo de Vide e Vouzela, como forma de aproveitar os recursos arquitetônicos, históricos e paisagísticos (Moreira, 1994). Na União Europeia, a criação do programa de desenvolvimento rural, denominado de LEADER (Ligações entre as Ações de Desenvolvimento Rural), fez com que muitos países implementassem políticas públicas de apoio ao Turismo Rural, inclusive o Brasil, cujo início, como atividade econômica, se dá no município de Lages, em Santa Catarina, surgindo em 1986 as primeiras propriedades rurais abertas à visita. A partir de então, a atividade começou a ser
caracterizada como Turismo Rural, e como alternativa às dificuldades que o setor agropecuário enfrentava (Ministério do Turismo do Brasil, 2003).
O turismo nas áreas rurais é uma atividade complexa e multifacetada, e pode ter um caráter urbano, mesmo ocorrendo na zona rural (OCDE, 1994), sendo denominado de Turismo em Espaço Rural (TER), de forma a se diferenciar do Turismo Rural, que ―é o conjunto de atividades turísticas desenvolvidas no meio rural, comprometido com a produção agropecuária, agregando valor a produtos e serviços, resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da comunidade‖ (Ministério do Turismo do Brasil, 2003, sem página).
A expressão Turismo no Espaço Rural, segundo Tulik (2003) se refere a todos os movimentos turísticos ocorridos no espaço rural, ao passo que o termo Turismo Rural se restringe às características próprias do meio rural, à paisagem, ao estilo de vida e à cultura rural, excluindo-se formas não ligadas à prática e ao conteúdo rural (Tulik, 2003). No turismo rural as atividades realizadas no meio rural englobam os seguintes produtos e serviços turísticos: hospedagem, alimentação, operação e agenciamento, transporte de visitantes, visita a propriedades rurais, recreação, entretenimento e atividades pedagógicas vinculadas ao contexto rural, entre outras atividades praticadas no meio rural e que existam em função do turismo ou se constituam no motivo da visitação (Tulik, 2003). As práticas comuns ao meio rural, como o manejo de criações, o cultivo da terra, as manifestações culturais, a culinária e a própria paisagem podem ser componentes do produto turístico rural e, consequentemente, valorizadas por isso (Tulik, 2003).
Em Portugal, o Turismo em Espaço Rural é definido pelas atividades e serviços realizados, mediante remuneração, em zonas rurais, segundo diversas modalidades de hospedagem, de atividades e serviços complementares de animação e diversão turística, tendo em vista a oferta de um produto turístico no espaço rural‖ (Direção Geral de Turismo, 2014).
No Brasil, existem várias terminologias utilizadas para se referirem ao Turismo em Espaço Rural: turismo de natureza, turismo de interior, de granja, de aldeia, alternativo, endógeno, verde, campestre, sertanejo, agroecoturismo, ecoagroturismo, agroecológico, dentre outras. Uma terminologia merece destaque por ser bastante representativa no segmento de Turismo Rural, e em especial no enoturismo: o agroturismo, que é composto pelas atividades realizadas na propriedade rural agrícola, gerando ocupações complementares às atividades agrícolas, as quais continuam a fazer parte do cotidiano da propriedade. O termo agroturismo é adotado em países como Portugal e Itália e em algumas regiões do Brasil, como no Espírito Santo e em Santa Catarina (Portuguez, 2002). A
definição de agroturismo, explana o autor (2002), traz na sua essência a noção de que a atratividade das propriedades rurais está na oportunidade do turista acompanhar a produção de produtos agrários ou vivenciar o dia-a-dia da vida rural, por meio do plantio, colheita e manejo de animais, consumindo os saberes e fazeres do campo. Caracteriza-se, portanto, por uma interação efetiva entre turista e atividades agrícolas (Tulik, 2003). Assim, pode-se compreender porque o enoturismo realizado nas quintas é uma forma de turismo rural, também denominado de agroturismo. Essa relação entre o turismo e a ruralidade pode ser entendida como resposta às demandas da sociedade pós-moderna e o mito do retorno ao campo, em que a sustentabilidade, o respeito às diferenças e a autenticidade são vistos como símbolos acrescidos de prestígio (Joaquim, 1997). Destacamos ainda, os cuidados que viabilizem o turista observar e/ou participar das atividades da propriedade, sem descaracterizar o processo produtivo em função de sua presença, uma vez que esta participação é essencial para os enoturistas. Não se pode criar um ambiente artificial, montado exclusivamente para os turistas, pois isto não seria benéfico nem para o meio rural nem para os visitantes (Ministério do Turismo do Brasil, 2003).
Sendo assim, o enoturismo pode ser considerado como forma do turismo rural por ter a particularidade de assentar em formas agricolas dinâmicas (Inácio, 2010). O setor vitivinicola no qual se suporta, segundo Inácio (2010), é considerado um setor ativo pois tem conhecido inúmeras inovações, baseando-se nas motivações especificas ligadas a este interesse particular pelo vinho e pelo local onde este é criado: o terroir (Inácio, 2010). Para a autora (2010), há, cada vez mais, o interesse na experiência total, com maior enriquecimento, aprendizagem, divertimento, aventura, compreensão e complexidade, fatores associados ao enoturismo.
Desta forma, entendemos o enoturismo como uma atividade turística, que envolve o interesse pela vitivinicultura, e por envolver o vinho e todos os seus aspectos culturais e rurais, deve ser analisado pelos segmentos do turismo cultural e do turismo rural. Procuramos com esta definição ressaltar que o enoturismo nem sempre se realiza apenas em áreas rurais, mas ao mesmo tempo, não o desvinculamos da ligação camponesa, porque ao procurar uma atividade vinícola, o turista, mesmo em áreas urbanas, sente-se simbolicamente ligado ao campo. O turismo do vinho é ―no fundo uma combinação de cultura, estilos de vida e território‖ onde são promovidas visitas ao campo, à herança e arquitetura rurais únicas, o mito do retorno à cultura e passado ancestrais são promovidos a par dos vinhos (Getz, 1997, 2; Inácio, 2008, 41).