Para muitas pessoas o interesse em conhecer o passado de outros povos relaciona- se a um segmento de turismo com interesse no legado cultural: o turismo cultural (Barreto, M., 2003). O enoturismo pode ser associado ao turismo cultural, considerando o interesse dos visitantes pelo conhecimento da história do vinho, pela arquitetura, pelos costumes e
tradição do local visitado, pois de acordo com Hall, C.M. et al (2004), a visita às vinícolas, aos festivais de vinho, aos espetáculos relacionados ao vinho, de modo a provarem os vinhos produzidos nas regiões visitadas, compõem as atividades do turismo do vinho. A atividade enoturística pode ser vista como um dos nichos do turismo cultural, pois o turista cultural busca conhecer as tradições associadas à produção de vinhos, o acesso ao patrimônio cultural. Ou seja, à história, à cultura e ao modo de viver de uma comunidade, caracterizando-se, também, pela motivação do turista em conhecer regiões onde o seu alicerce está baseado na história de um determinado povo, nas suas tradições e nas suas manifestações culturais, históricas e religiosas (Moletta, 1998).
O Ministério da Cultura do Brasil (sd) compreende ser o turismo cultural um conjunto de atividades turísticas relacionadas à vivência de elementos significativos do patrimônio histórico cultural, promovendo e valorizando os bens materiais e imateriais da cultura, portanto pode-se afirmar que o enoturismo está diretamente ligado a esse segmento turístico, uma vez que implica a troca de experiências entre o visitante e a população receptora. Quanto mais a comunidade participa do processo de planejamento, mais enriquecedor será o conhecimento adquirido pelo turista durante a visitação, pois ele se envolve na realidade daquele lugar e procura conhecer a história e os símbolos expressos nos bens materiais e imateriais (Ministério da Cultura do Brasil, sd).
Mas, é interessante destacar que o turismo cultural, e portanto o enoturismo, como explica Smith, não relaciona-se apenas ao passado, mas também ao presente, isto é, baseia-se ―tanto na história de um local e do seu povo, como na sua vida contemporânea‖ (2003, 29).
No contexto da Pós-Modernidade, uma das principais contribuições dos Estudos Culturais aos Estudos do Turismo, é possibilitar a compreensão da vida cotidiana composta pelas ações individuais, e neste aspecto, Urry analisa que o turista, ―engaja o mundo através das experiências e por se encontrar perdido no tempo e no espaço busca orientação e localização da vida pessoal, encontrando na sua cultura e na cultura dos demais povos a sua própria existência‖ (1990, 2002).
Assim, com o intuito de evitar a padronização dos atrativos culturais, há que haver uma aproximação dos setores turísticos e culturais para que possam criar novos produtos culturais que sejam inovações para o turismo cultural, e ao mesmo tempo, encontrem formas inovadoras do turismo apoiar a cultura (Richards, 2003). É neste sentido, que se desenvolve a presente tese de doutoramento, na aproximação da cultura do vinho com o turismo, de forma a ofertar um turismo baseado nas realidades locais que permitam aos enoturistas vivenciar as experiências e, ao mesmo tempo, preservar a cultura vinícola das regiões enoturísticas.
Richards (2006) em uma discussão sobre as definições mais apropriadas de turismo cultural, adverte que na Pós-Modernidade escolher uma definição tornou-se mais complicado, pois fixar categorias como museu, monumento ou parque temático tornou-se insustentável. Por isso, muitos estudiosos têm criticado a escolha de uma determinada definição, mas como justifica o autor, é importante adotar uma definição para que se possa comunicar aos outros o que é o Turismo Cultural e elaborar planos de gerenciamento da atividade. Richards (2006) orienta que a cultura deve ser o centro da definição, embora considere curioso que grande parte das definições não leve essa orientação em consideração. Por isso, argumentamos mais uma vez a imprescindibilidade dos Estudos Culturais nas questões que envolvem os Estudos do Turismo, pois as contribuições dos Estudos Culturais são essenciais ao proporcionarem as discussões sobre cultura e viabilizarem que se discuta o turismo cultural tendo a cultura como protagonista, entendendo, como Richards (2006), que num mundo globalizado uma das poucas características distintivas das localidades é a cultura. Mas como o autor adverte, muitas definições de turismo cultural tendem a enfatizar a sua abrangência ou o número de turistas culturais, ao invés de se concentrarem na "essência" da experiência do turismo cultural.
Dias, R. (2005, 2006) considera o turismo cultural como um segmento que incorpora uma variedade de formas culturais que identificam uma população e que atraem os visitantes interessados em conhecer a forma de vida dessas pessoas. O autor divide o turismo cultural nos seguintes nichos:
a) Turismo Histórico: compreende as visitas às cidades históricas, monumentos,etc b) Turismo Arqueológico: contato dos visitantes com ruinas arqueológicas
c) Turismo Paleontológico: visitação a locais e museus que abrigam restos de animais extintos
d) Turismo Ferroviário: valoriza o passeio em ferrovias com paradas em locais relacionados à história desse transporte
e) Turismo de Patrimônio Industrial: visitação de indústrias para conhecer suas obras de engenharia e métodos de produção, principalmente relacionados aos locais onde estão instaladas.
f) Turismo Étnico: conhecimento de comunidades consideradas diferenciadas, geralmente mais afastadas, e que conservam costumes ancestrais
g) Turismo Gastronômico: segmento dedicado à visitação de locais com comidas típicas
h) Turismo Científico: visita a locais com acervos científicos como jardins botânicos, oceanários e zoológicos.
i) Turismo de Eventos Culturais: viagens para assistir a festivais de teatro, de música, de cinema, etc
j) Enoturismo: dedicado ao conhecimento dos locais e dos processos de elaboração do vinho.
Dias, R. (2006) considera que a segmentação do turismo facilita o estudo e desenvolvimento da oferta turística e a compreensão sobre o potencial turístico da localidade.
Atualmente está havendo uma fragmentação, explica Richards (2003) referindo-se à segmentação do mercado do turismo cultural, pois as pessoas têm necessidades distintas, mesmo em torno do tema da cultura em suas viagens, por isso o turismo cultural está diferenciando-se em uma série de nichos que estejam mais relacionados aos gostos particulares. Para o autor, os segmentos do turismo cultural são compostos por consumidores interessados na cultura em diferentes aspectos como, por exemplo, o enoturismo. Getz (2000) afirma que os enoturistas, a exemplo dos turistas culturais, estão interessados nos relacionamentos com as pessoas dos locais onde o vinho é produzido, e têm interesse em conhecer seus costumes, tradições, gastronomia, assim como, a arquitetura e a história, especialmente das quintas.
Destaca-se que a segmentação, não é estática ou imutável e pode variar de acordo com os critérios adotados. Na segmentação do turismo cultural, apresentada pelo Ministério do Turismo do Brasil (2007, sp), adotou-se uma estratificação voltada às características dos recursos culturais brasileiros, apresentada da seguinte forma:
1) Turismo Cívico: ocorre em função de deslocamentos motivados pelo conhecimento de monumentos, ou ainda, pelo interesse de acompanhar ou rememorar fatos, observar ou participar em eventos cívicos.
2) Turismo Religioso: ―configura-se pelas atividades decorrentes da busca espiritual e da prática religiosa em espaços relacionados às religiões institucionalizadas, independentemente da origem étnica ou do credo‖.
3) Turismo Místico e Esotérico: ―caracteriza-se pelas atividades turísticas decorrentes da busca da espiritualidade e do autoconhecimento em práticas, crenças e rituais considerados alternativos‖.
4) Turismo Étnico: ―constitui-se de atividades turísticas envolvendo a vivência de experiências autênticas e o contato direto com os modos de vida e a identidade de grupos‖.
5) Turismo Cinematográfico: ―o segmento de audiovisual vem sendo incorporado às novas tendências mundiais do turismo como estratégia de atração de visitantes‖.
6) Turismo Arqueológico: visitas a sítios arqueológicos e paleontológicos com relevância histórico-cultural.
7) Turismo Gastronômico: segmento turístico relacionado à vivência da experiência da cultura local pelo turista por meio da culinária.
8) Enoturismo: visitas a locais, onde se produzem vinhos, com o objetivo de conhecer o processo de produção do vinho.
9) Turismo Ferroviário: os serviços de trens turísticos e culturais caracterizam- se pelo transporte não regular de passageiros, com o objetivo de agregar valor aos destinos turísticos, contribuindo para a preservação da memória ferroviária.
Craik (1997) analisa o turismo cultural na perspectiva de aprendizagem sobre outras pessoas, modos de vida, tradições e artes, em uma procura de formas que representem genuinamente aquelas culturas e seus contextos históricos. Stebbins (1996) classifica os turistas culturais em: geral e especializados. Para o autor, o turista cultural geral tem como objetivo visitar diferentes locais, e com o passar do tempo, aumentando seus conhecimentos sobre diferentes culturas, pode se tornar um turista cultural especializado que se concentrará no conhecimento de um ou poucos locais.
De acordo com Smith (2003) o turista cultural tem como interesse os deslocamentos pessoais, buscando ativamente as diferenças e o aprimoramento pessoal, visa um contato a sério com as destinações e os habitantes interessados em experiências ―reais‖. Johan e Joppe (2005), em uma análise do perfil dos turistas culturais, descrevem-nos como pessoas com maior poder aquisitivo e um maior nível de escolaridade, e que organizam suas viagens com base em informações de familiares, amigos e internet. Smith (2003) recomenda, mesmo considerando esses interesses e o perfil do turista cultural, que as localidades estejam atentas aos comportamentos dos visitantes em relação aos moradores e ao patrimônio local, pois nem todos os turistas poderão ser conscientes e sensíveis à cultura visitada.
Em seus estudos sobre turismo cultural, Smith (2003) apresenta em uma tabela algumas medidas econômicas e programas sócio-culturais que colaboram para uma melhor performance do turismo cultural, e portanto, devem ser observadas no desenvolvimento da atividade enoturística:
Tabela 1: Medidas e programas socioculturais
Medidas Programas socioculturais
Fortalecer os vínculos entre o turismo e outros setores da economia
Educação da comunidade e do turista sobre o turismo e seus impactos
Encorajar o uso e a compra de produtos locais e o empreendedorismo regional
Prover oportunidades para o intercâmbio cultural entre turistas e residentes
Prover incentivos financeiros para o investimento local
Estabelecer códigos de conduta sempre que necessários
Maximizar a geração de empregos locais em todos os níveis
Garantir a população o acesso aos atrativos culturais
Prover treinamento, educação e ferramentas
para o desenvolvimento local Preservar os estilos arquitetônicos locais Encorajar e apoiar os negócios locais Manter a autenticidade das artes locais e das
performances culturais Estimular o aumento dos gastos dos turistas e
multiplicar os efeitos do turismo
Proteger e apoiar os métodos de produção culturais locais
Desenvolver o turismo gradualmente para controlar os problemas de aumento de preços de terras e produtos
Limitar o número de turistas onde for necessário
Fonte: adaptado de Smith, 2003
Smith (2003) resume que o turismo cultural e seus impactos podem ser melhor estudados através de seus nichos e suas particularidades, uma vez que o turismo cultural abrange uma gama de atividades. A autora considera que o turismo cultural em comparação com o turismo de massas traz mais resultados positivos do que negativos e frequentemente aparece como uma prospecção economicamente desejável para a maioria dos governantes, pois implica um interesse nas pessoas do país, nas suas tradições e valores, levando a um aperfeiçoamento da imagem de um país e melhorando as relações internacionais. Smith (2003) adverte que com o crescimento da demanda do turismo cultural, seus impactos também aumentam, e muitos destes impactos podem ser positivos, mas deve-se monitorar a escala e a natureza da atividade turística antes que as destinações tornem-se irrevogavelmente prejudicadas.
Por fim, considera-se importante observar alguns princípios propostos pelo ICOMOS (2008), como base para o desenvolvimento do enoturismo de forma responsável e benéfica, a saber: a) entender o turismo cultural como forma de intercâmbio cultural entre turistas e moradores, através de uma gestão sustentável do patrimônio cultural e do seu aproveitamento turístico, b) envolver a comunidade receptora no planejamento das atividades e beneficiá-la dos resultados obtidos com a atividade turística e c) proteger os valores do patrimônio cultural e natural. Estes princípios visam assegurar e maximizar os benefícios do turismo cultural e, ao mesmo tempo, minimizar os impactos negativos, pois de acordo com Pérez,
o turismo cultural pode e deve estar ao serviço da conservação e valorização do patrimônio cultural, mas também pode acontecer o contrário, isto é, o patrimônio cultural pode surgir em função dos interesses mercantis, sendo explorado com esse objetivo. Aqui, os riscos são o abuso, os impactos negativos e a própria perda do patrimônio cultural. Neste sentido, as políticas deveriam ser orientadas numa perspectiva de equilíbrio entre o turismo cultural e o patrimônio cultural (2009,129).
Girard e Nijkamp (2009) recomendam três ―regras de ouro‖, referindo-se às áreas onde se deve dar ênfase na questão da sustentabilidade do turismo cultural, de forma a ter resultados positivos na sua implantação, e que portanto, devem ser princípios orientadores do enoturismo:
a) o reconhecimento do valor cultural como uma dimensão distinta e válida.
b) a necessidade de ser claro sobre os princípios da sustentabilidade e, em particular, da natureza da trajetória do desenvolvimento sustentável para as economias locais, regionais ou nacionais onde os recursos naturais e culturais são objetos da demanda turística.
c) a importância de rigorosos métodos analíticos a serem adotados no estudo das interações entre a cultura e o turismo nos níveis micro e macro.
É fundamental observar estes princípios pois, como explica Richards (2003), existe uma percepção geral que o turismo cultural traz mais benefícios do que prejuízos, por atrair visitantes com um maior nível de escolaridade e mais conscientes da importância do respeito às pessoas dos locais visitados, assim como dos patrimônios das regiões que visitam. Mas, como ressalva o autor (2003), é preciso compreender que o não atendimento a esses princípios, pode, trazer prejuízos às regiões visitadas ao permitirem que o turista cultural penetre em ambientes culturais sensíveis.