Enquanto eu imigrava digitalmente, nascia na era digital, uma geração de pessoas que teriam em suas mãos “extensões”, pontes digitais para o ciberespaço e que esse trânsito, essa linha imaginária entre o mundo virtual e o real que alguns Imigrantes Digitais como eu ainda teimavam em perceber se dissolveria. Para essa nova geração, ciberespaço e espaço são prolongamentos de uma mesma realidade, de um mesmo todo que se expande constantemente sem limites. Para os nascidos
na Era Digital, os Nativos Digitais também conhecidos como geração “ponto-com13”, suas relações com o mundo e em sociedade são muito diversas da geração anterior.
Os nascidos a partir dos anos 70, que viveram a primeira revolução das telecomunicações, em alguma medida aprenderam a conviver com relações sociais que já representaram uma grande ruptura em relação aos padrões comunicativos da geração anterior. A sociedade acostumava-se às novas relações de comunicação, os televisores, os videogames e outras ferramentas eletrônicas começavam a fazer parte do universo da família, algumas crianças aprenderam a conviver sem a presença mais efetiva de seus pais e muitas mães assumiram a dupla função de criar seus filhos e ocupar o mercado de trabalho14.
Os núcleos de convivência dessas crianças, principalmente em grandes centros urbanos tornaram-se mais restritos, distante da liberdade das ruas. Nesse novo paradigma da revolução do trabalho, da urbanização, do nascimento de novos modelos de vida social, muito mais individualizados e fechados, os aparelhos de televisão passaram a ocupar um importante espaço na rotina da criança que despertam um novo olhar para “o brincar”, para os modos de diversão e interação. Crianças vidradas nas televisões e nos demais aparelhos que as acompanharam como os videogames, os aparelhos de videocassete, entre outros, implicando ações, por si só, mais individuais, ou em grupos mais restritos. A aprendizagem, o contato com o conhecimento e a informação, passam a ter novos mediadores eletrônicos.
As relações com a educação escolar também se transformaram e os livros, consequentemente a leitura, passaram a ter, naquele momento, novos concorrentes, bem verdade a leitura estava em processo de mutação para novos formatos, perdendo aquela rigidez formal do material impresso, além do novo lugar muito mais responsabilizado que a escola passa a ter na educação e formação da criança. A
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A geração contemporânea é a geração da internet, uma geração pautada pela rapidez de sua comunicação, misturando mensagens de textos, sons e imagens, dinâmicas ou estáticas, cada dia se desdobrando no ciberespaço e tornando-se mais efetiva, democrática e veloz, a mão, nos seus
smartphones, meios potentes de comunicação que, conectados a Rede Mundial de Computadores,
transformaram as relações humanas e suas formas de interação social.
14 Vale sinalizar a situação impar vivida por nós brasileiros, um país onde essa revolução tecnológica
foi tardia, que pela própria condição social sempre foi muito modalizada, onde as distorções sociais são evidentes. Em pleno século XXI ainda existem grupos sociais vivendo em condições muito distintas de outros, sem acesso às tecnologias e à urbanização, em níveis precários de desenvolvimento humano. A reflexão que levanto deve ser vista não como uma generalização, dadas às devidas proporções e singularidades da sociedade brasileira, mas sim como um recorte que gerou um modelo hoje predominante.
sociedade acaba delegando à escola, muito mais que antes, a responsabilidade pela formação e orientação da criança. Essa evolução rápida e exponencial causada pela explosão das telecomunicações inicia uma transformação social que afeta todo o movimento do conhecimento e, sobretudo, afeta a escola e as práticas docentes.
Bem como a geração da televisão, a geração ponto-com, ou Nativos Digitais, também cresce tendo suas relações sociais mediadas pelos aparatos tecnológicos, as ferramentas digitais. “As pessoas integraram as tecnologias nas suas vidas, ligando a realidade virtual com a virtualidade real, vivendo em várias formas tecnológicas de comunicação, articulando-as conforme as suas necessidades” (CASTELLS, 2005, p.23). Todas as relações sociais foram alteradas, relações de trabalho, interpessoais, formas de comunicação e interação social, o contato e apreensão do conhecimento formal ou informal - Hoje vemos bebês operando com destreza, que nos parece um tanto precoce, aparelhos eletrônicos. Por vezes, encontramos em rede vídeos de crianças com celulares no ouvido, balbuciando e imitando adultos, com seus dedinhos nas telas de tablets deslizando e jogando, para nós imigrantes, verdadeiros prodígios, para um jovem ponto-com, apenas mais um.
Para o professor e a escola, quando ainda nem aprendemos a lidar bem com uma ruptura total, causada pela primeira revolução das telecomunicações, seus desdobramentos e suas mutações, nos deparamos com revoluções diárias, que apesar de terem um mesmo fio condutor, são tão distinta, difusas e constantes que as práticas, os processos e os estudos pedagógicos e metodológicos não dão conta de responder a tantas inquietações docentes e consequentemente suprir aos anseios dessa nova clientela. As escolas teimam em manter e fortalecer seus limites como se os Nativos Digitais e seus modos específicos de pensar o mundo não adentrassem todos os dias seus portões. Aprender é um fenômeno muito diverso, contemporaneamente, do que foi antes da revolução tecnológica e a escola ainda não aprendeu a mediar o aprendizado dos Nativos Digitais. Ela permanece firme naquele perfil de outrora, ignorando, em grande medida, a ciberatividade. O modo como o jovem hoje aprende e coleta informações perpassa, diretamente, o meio digital simplesmente porque suas relações cotidianas estão imbricadas ao ciberespaço. Para Palfrey e Gasser (2011. P.269):
Aprender é muito diferente para os jovens de hoje do que era 30 anos atrás. A internet está mudando a maneira com que as crianças coletam e
processam informações em todos os aspectos de suas vidas. Para os Nativos Digitais, “pesquisa”, muito provavelmente, significa uma busca no Google mais do que uma ida até a biblioteca. É mais provável que eles chequem as coisas com a comunidade Wikipédia ou recorra a um amigo on- line antes de pedir ajuda a um bibliotecário de referência. Eles raramente, se é que alguma vez, compram o jornal em papel; em vez disso, surfam por enormes quantidades de notícias e outras informações on-line.
Fato é que muitas das práticas no ciberespaço se universalizaram e abarcam tanto nativos como imigrantes digitais, integram o cotidiano das pessoas e o professor e a escola ainda deixam essas práticas distantes da formação educacional.
São muitos os desafios que a escola encontra para lidar com essa nova geração e ainda não tem como responder precisamente como ela aprende. Ainda tentamos responder se aprendem mais e melhor no meio digital e se sua cognição é tão diversa da geração que viveu num mundo totalmente analógico. Essas e outras questões são levantadas por Palfrey e Gasser (2011) e são questões sobre as quais educadores e a sociedade em geral devem se debruçar para compreender e guiar as transformações necessárias para trazer a escola e suas práticas para o lado dessa geração. É o salto mais que necessário. Os autores também salientam que a ausência de respostas sobre como essa nova geração aprende no meio digital são motivos de muito temor para os pais e também os professores. Temor de que o contato com o meio digital possa prejudicar a aprendizagem. Que esses jovens não estejam lidando de maneira correta com as ferramentas que têm a mão e não estejam sabendo percorrer os caminhos possíveis do ciberespaço, que estejam como arcas sem bússola à deriva.
Bem verdade esse temor remonta ao que ocorreu com a geração da televisão. Muito se discutiu sobre os benefícios e malefícios da TV e dos
videogames na vida das crianças daquela geração. À época, muitos se debruçaram
em pesquisas que buscavam determinar como esses aparatos afetavam as relações de aprendizagem. Acabamos percebendo que tudo depende muito da orientação e do tratamento que é dado a criança. Não dá para voltar atrás, conviver com o novo paradigma que se apresenta a cada salto tecnológico é uma necessidade social e cabe a nós extrair o melhor de cada um desses momentos. O diferente e o novo
sempre serão controversos e é natural que os adultos, que viveram sob outro prisma tenham dúvidas e se preocupem com os efeitos das novidades sob seus filhos.
Todavia é primordial entender que temos que acompanhar a velocidade dessa geração. Certamente todas as suposições de que essa geração esteja sendo prejudicada pelas suas relações no ciberespaço são errôneas. Aqueles que apregoam que os Nativos Digitais não leem, apenas porque não estão lendo em meios impressos como livros, jornais e revista se enganam. O que temos que perceber é que o modo como leem é diverso das gerações anteriores. A esse respeito Palfrey e Gasser (2011) ressaltam:
Essas suposições estão erradas porque subestimam a profundidade do conhecimento que os Nativos Digitais estão obtendo na Web. Também deixam escapar um aspecto fundamental de como os Nativos Digitais experienciam as notícias: interagindo com as informações de maneira construtiva. Os Nativos Digitais acessam muito mais informação sobre um tópico em que estão interessados do que os jovens das gerações anteriores jamais poderiam fazer. Um estudo recente dos jovens e de seus hábitos de coletar notícias confirmam essas mudanças. Como descobriu o estudo, os americanos jovens não leem o jornal diário. Os Nativos Digitais, no decorrer do dia, captam fragmentos e peças de notícias e informações, não em uma única leitura de jornal na mesa do café da manhã ou na frente da televisão à noite. E eles, na verdade, se envolvem mais do que antes com o material, em virtude de escreverem uma página ou uma mensagem sobre a ideia em um blog ou compartilhá-la com um amigo no Facebook ou em um programa de mensagens instantâneas (PALFREY e GASSER, 2011, p.270).
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Dadas as devidas adequações aos modos de interação social e à realidade brasileiros, é fato que a maneira de obter e lidar com a informação construiu um novo paradigma. Desta maneira, lidar com os Nativos Digitais é um desafio que a escola, sobretudo, tem que enfrentar e nós professores temos que incorporar as novas práticas de leitura e as novas ferramentas de informação e interatividade social às práticas diárias de sala de aula. Estas ferramentas podem ser muito úteis para desenvolver processos de aprendizagem. Para além disso, elas são constitutivas da realidade em que os sujeitos, atores da escola, estão inseridos.
Existem muitas atividades que os Nativos Digitais realizam em seu cotidiano que podem ser incorporadas à rotina escolar. Eles leem e realizam trocas de informação em redes sociais o tempo todo, produzem blogs pessoais, páginas web, criam sites, escrevem e trocam mensagens instantâneas em mensageiros, criam
potencialmente pedagógicas de escrita, leitura, planejamento, criatividade e até iniciação científica.
Os Nativos Digitais desenvolvem muito mais precocemente e muitas vezes de forma autônoma a capacidade de investigação e coleta de dados de interesse de forma intuitiva, não mediada, bem mais facilmente que as gerações anteriores, claro, porque têm à mão recursos tecnológicos cada dia mais inovadores e acessíveis e cabe à escola explorar toda essa potencialidade direcionando-os para a aquisição também de conhecimentos formais. A escola precisa incorporar as ferramentas e meios digitais às suas práticas, mas, sobretudo, formar sujeitos para lidar com essa nova realidade letrada, com os novos modos de produção e circulação da informação e do conhecimento.
Foi pensando em todos esses pontos e movido pelas questões já mencionadas que me engajei em aproximar minhas práticas docentes aos ambientes virtuais de vivências do meu aluno, e passei a incorporá-los à minha metodologia de trabalho. Também procurei compreender melhor como essas práticas de escrita e leitura que eles desenvolvem autonomamente em rede podem contribuir para os estudos de língua, de formação leitora, para levá-los a praticar uma escrita mais monitorada, no entanto, sem perder a espontaneidade própria das novas relações que estabelecem nas redes sociais.
O professor precisa entender que o aluno também ensina. Que a metodologia eficaz é aquela que vê a dualidade do ensino-aprendizagem, a vida de mão dupla. Como Freire (2002) afirmou:
Ensinar não é transmitir conhecimentos, conteúdos, nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. (FREIRE, 2002, p. 12)
Trilhar o caminho percorrido à velocidade dos Nativos Digitais e nos meandros do ciberespaço para um professor, Imigrante Digital, pode ou não ser tarefa fácil. Necessita que o professor e a escola estejam abertos a aprender com o que o aluno traz consigo, com suas práticas e conhecimentos prévios.