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CHAINE MARANTZ 2252
A ambiência que constitui o Facebook é fundamentalmente construída para comunicação e interação. Cada usuário tem a seu dispor um mural que permite postar mensagens que, a depender da configuração de privacidade escolhida, poderá ser visualizada apenas por amigos confirmados ou o público em geral. Essas postagens, conhecidas popularmente como posts podem ser comentadas por todos os agregados ao perfil e a depender do conteúdo pode gerar verdadeiros fóruns de
discussão. Neste universo a leitura e a escrita são recursos primazes para a construção individual e coletiva de posições ideológicas, afirmação de identidade, engajamento político, além de simples relações sociais e de entretenimento.
A leitura nesse ambiente, bem como em todo o meio virtual, assumiu contornos específicos, diversos do que se tem na interação com os textos
impressos. Para Lévy (1996, p.12), “a virtualização afeta hoje não apenas a
informação e a comunicação, mas também os corpos, [...] ou o exercício da inteligência”. Os processos de leitura em rede, além de serem remodelados pelo imagético não mantém mais aquela certa linearidade dos livros, dos antigos jornais
ou revistas impressos. “Do antigo rolo ao códex medieval, do livro impresso ao texto
eletrônico, várias rupturas maiores dividem a longa história das maneiras de ler” (CHARTIER, 1999, p. 77).
A cada momento histórico percebemos que a leitura tem seu grau de complexidade aumentado, que as exigências sociais impostas para os leitores são crescentes e mutáveis. Inicialmente muitas questões foram levantadas sobre as práticas de leitura que a internet poderia ofertar aos jovens e a seleção de conteúdos acessíveis na rede, mas essas questões estão bem mais claras hoje. Já se sabe que as ferramentas digitais podem promover mais democraticamente a difusão de conhecimento e de práticas de leitura e escrita, mas não são por si só suficientes. Existe um agente, um indivíduo, um internauta por trás da tela que toma decisões, faz escolhas e deve estar preparado para isso.
Contemporaneamente, a leitura cifra através de hiperlinks adentrando janelas virtuais que interligam ambientes e estendem leituras e significados, ampliam o espaço, elastecem palavras, conformam novos pensamentos e produzem amplos sentidos e contextos.
se abrem possibilidades novas e imensas, a representação eletrônica dos textos modifica totalmente a sua condição: ela substitui a materialidade do livro pela imaterialidade de textos sem lugar específico; às relações de contiguidade estabelecidas no objeto impresso ela opõe a livre composição de fragmentos indefinidamente manipuláveis; à captura imediata da totalidade da obra, tornada visível pelo objeto que a contém, ela faz suceder a navegação de longo curso entre arquipélagos textuais sem margens nem limites. Essas mutações comandam, inevitavelmente, imperativamente, novas maneiras de ler, novas relações com a escrita, novas técnicas intelectuais (CHARTIER,1999, p. 100-101).
Pode ser um fenômeno complexo, que na visão dos nativos digitais e dos imigrantes que se adaptaram a esse tipo de leitura, leitores digitais proficientes, são percursos bem familiares, seus mapas mentais já estão configurados para desvendar esses caminhos da leitura em rede. Ao interagir com o texto virtual ele vai construindo os sentidos, a partir das múltiplas linguagens mobilizadas na sua construção. Esse é o cenário ideal, entretanto a leitura em rede pode trazer armadilhas para um leitor ingênuo e digitalmente pouco letrado.
A questão não é apenas conhecer as ferramentas, a arquitetura do texto digital, os recursos que o usuário utiliza para formatar seu post. O fato é que toda essa construção baseia-se em uma intenção e o usuário deve estar preparado para essa leitura. Segundo Santaella (2004, p.145) é necessário:
[...] antes de tudo, uma boa competência semiótica, isso implica alfabetização na linguagem da hipermídia que permite ler a versatilidade das interfaces povoadas de diferentes signos para compreender suas negociações interativas. Da competência semiótica resultam tanto a prontidão perceptiva quanto a agilidade das inferências mentais, grande parte delas abdutivas, quer dizer, baseadas na arte da adivinhação, mas também indutivas, baseada na habilidade de seguir pistas, e mesmo dedutivas, baseadas na capacidade de prever[...]
Esse projeto de pesquisa se ateve muito a um conceito contemporâneo amplo de leitura, que exige competências variadas do leitor. A capacidade de trilhar e descobrir os caminhos do texto na rede, de prever significados, de construí-los dinâmica e coletivamente. Também a uma noção dialógica da linguagem (Bakhtin, 1997), o que ficou marcado desde a plataforma escolhida para a interação dos alunos, a rede social Facebook. Todo o planejamento pensado para desenvolver o projeto partiu dessa noção de que o aluno deve compreender as intenções que movem a construção de um texto digital, para dialogar com o texto em um ambiente com tantos recursos semióticos.
O ambiente do Facebook é compartimentado, possui várias janelas e hiperlinks, desde a formatação do mural ou do feed de notícias, podem compor sua arquitetura uma infinidade de textos multimodais, dispostos em diversos gêneros textuais, que permeiam toda a engenharia da leitura nesses espaços. A arquitetura dos posts pode ser bem diversificada e utiliza-se principalmente de conjuntos complexos e simbióticos, imagéticos e sonoros. Ler tem cor, tem forma, tem som.
Essa diversidade propiciada pelo ciberespaço, essa interatividade com outros lugares através do hipertexto, as possibilidades de permuta e conexão é que ampliam as modalidades dentro das redes sociais e distancia-se muito da leitura de documentos em folhas papel.
Como afirma Bakhtin, “a língua apresenta-se como uma corrente evolutiva ininterrupta” (2014, p. 93), e a leitura, como parte integrante da língua, percorre esse mesmo ciclo evolutivo. Perceber a leitura como elemento constituinte da comunicação em rede e como fenômeno multimodal é compreender melhor a amplitude de possibilidades de interação e de produção discursiva dentro do ambiente virtual, especialmente no Facebook, que é um dos propósitos deste trabalho. Como a multimodalidade dos textos e a diversidade de gêneros postados contribui para a construção de sentidos pelo leitor e para os objetivos comunicativos do usuário. Não por acaso ele associa aos grupos verbais em uma mesma postagem elementos diversos. A cor do texto, a cor e a textura do papel de parede ou fundo do texto, uma imagem, desenho ou fotografia, um vídeo, um hiperlink que leve à outra postagem em outro ambiente, a associação de todos esses elementos configuram os objetivos comunicativos e produz os sentidos que serão compreendidos por um leitor proficiente.
A multimodalidade é mais um fenômeno da linguagem humana e um elemento constitutivo da comunicação.
Quando falamos ou escrevemos um texto, estamos usando no mínimo dois modos de representação: palavras e gestos, palavras e entonações, palavras e imagens, palavras e tipográficos, palavras e sorrisos, palavras e animações etc. (DIONISIO, 2011, p. 139).
Assim como na teoria da enunciação de Bakhtin, “o centro de gravidade da língua não reside na conformidade à norma da forma utilizada, mas na nova significação que essa forma adquire no contexto” (2014, p.96). Então no contexto de uma postagem no Facebook os diversos elementos semióticos que compõe o significado linguístico pretendido pelo usuário, sua junção é que constrói o significado final. São elementos complementares, às vezes congruentes, muitas vezes até divergentes, mas as conexões ou desconexões que existem na arquitetura do post e entre esses elementos são intencionais e contribuem para a formação do sentido pretendido por seu arquiteto.
Para o professor toda essa engenharia linguística propiciada pelo caráter multimodal do Facebook, associada à diversidade de gêneros textuais que ele suporta, o que não é uma característica exclusiva, mas dos ambientes virtuais contemporâneos, pode contribuir efetivamente para o desenvolvimento de uma metodologia e atividades didáticas que privilegiem a proficiência linguística de seu
aluno e desenvolva multiletramentos27. Essa fonte de leitura extremamente
contemporânea e atrativa para os Nativos Digitais pode fomentar atividades de leitura complexas e que não fogem da rotina do jovem, em um espaço próximo de seu cotidiano, acolhedor, atrativo, que ele conhece e está habituado.
Como professor, não posso deixar de compreender que meu aluno é um Nativo Digital e como tal está acostumado à interatividade digital e a expressão multidimensional. Os processos de leitura e escrita em rede foram tão alterados em relação aos impressos no papel, que, como afirma Rojo (2013, p.20), com a virtualização, as relações de leitura e autoria de fundem e passamos a um “lautor”. De acordo com Beaudouin (2002, p.207), conforme citado por Rojo (2013, p. 20):
[...] o texto eletrônico altera as relações entre leitura e escrita, autor e leitor, altera os protocolos de leitura. Uma de suas particularidades é a de que leitura e escrita se elaboram ao mesmo tempo, numa mesma situação e num mesmo suporte, o que é nitidamente diverso da separação existente entre a produção do livro (autor, copista, editor, gráfico) e seu consumo pelo leitor nas eras do impresso ou do manuscrito. Isso porque a internet, por sua estrutura hipertextual, articula espaços de informação a ferramentas de comunicação, propondo um conjunto de dispositivos interativos que dão lugar a novos escritos.
Algumas atividades que corriqueiramente a escola submete o alunado estão muito distantes de suas relações pessoais. Não que atividades tradicionais de ambientes escolares e a leitura em livros didáticos e paradidáticos não devam ser incentivadas, mas entrar nos ambientes virtuais em que o aluno transita pode fazer com que o professor desenvolva aulas mais interessantes para os alunos, oferecendo-lhe também amplas possibilidades de leitura/escrita em rede. Além disso, ao utilizar as redes sociais como ferramenta para o ensino-aprendizagem, o professor pode contribuir para que os alunos desenvolvam no ciberespaço, ações
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A noção de Multiletramentos que defendo é a mesma defendida por Rojo, bem como o New London
Group, de práticas de letramento situadas, pautadas pela pluralidade cultural e diversidade de
linguagens, próprias dos ambientes virtuais e das gerações Nativas Digitais nas quais as linguagens são marcadas pelo hibridismo, pela mestiçagem e pela interatividade.
éticas e responsáveis, relações saudáveis, tomando esse ambiente como objeto de discussão e de formação cidadã.