Falar sobre o assistencialismo é relevante uma vez que esta é uma prática generalizada no contexto Amazônico e afetou de certa forma o andamento da experiência. O assistencialismo muitas vezes é justificado com o argumento de que se quer melhorar a condição de pessoas com algum tipo de necessidade, principalmente econômica, mas é uma atitude que, consciente ou inconscientemente, procura manter a ordem social estabelecida pelo sistema. As relações baseadas no assistencialismo são estabelecidas verticalmente, de forma que existe um setor da população necessitada que recebe passivamente aquilo que necessita. Para Paulo Freire (2005, p. 172) estas atitudes são um “instrumento de manipulação, servem à conquista. Funcionam como anestésico”. No contexto amazônico, existe um costume assistencialista que remonta ao início da colonização, quando, para poder entrar na Amazônia, os padres católicos levavam ferramentas às populações indígenas. Esta prática existe até hoje e foi inclusive incorporada por políticos e, mais recentemente, pelas ONGs.
Como resultado desta prática centenária, é muito comum na Amazônia peruana (e em outras regiões) que as pessoas só participem de capacitações caso recebam alimentação, camisetas, ou seja, coisas materiais. Aparentemente, dentro da UNIA, isso também acontece. Quando fui conversar com a professora encarregada pela universidade da articulação do projeto, sobre os problemas de frequência dos alunos, ela me disse que o problema era que às vezes os estudantes indígenas se comprometiam e depois não cumpriam, e que os albergados63 queriam tudo fácil.
Depois do primeiro dia da oficina, que ninguém compareceu porque não receberiam comida, a Universidade resolveu oferecer almoço àqueles que participassem da oficina. No dia seguinte assistiram 16 estudantes. Nessa mesma semana os albergados fizeram um protesto para todos receberem comida e o conseguiram. Nos dias seguintes o número de participantes baixou a 10. Para esta experiência, eu havia decidido não oferecer nada além da oficina de teatro64. Esta decisão se manteve até o final do projeto. Este fator, acredito, influenciou no rápido decréscimo do número de participantes. Porém, não posso ter a certeza absoluta dos motivos pelos quais alguns dos participantes abandonaram a oficina. Quando lhes perguntava, eles não respondiam ou diziam que viriam no dia seguinte. Pouco antes de ter que encerrar a primeira oficina por falta de participantes, perguntei aos poucos que continuavam se achavam que, se eu tivesse oferecido lanche, teríamos tido mais estudantes. Eles disseram que sim, mas que teria sido muito difícil fornecê-lo por tanto tempo, e que alguns estariam participando só pelo lanche. Disseram também que muitos só participam dos eventos pela comida e que achavam que isso havia acontecido na nossa oficina. Sobre este tema, a professora Haydeé (que participou da primeira oficina) afirma o seguinte:
Eu sinto que, em certa forma, estamos acostumando [mal] os jovens... talvez eu não, mas, talvez outras pessoas que vêm [e oferecem:] ‘se participas desta oficina vou te pagar, vou te dar comida, vou te dar alguma coisa.’ Então, os jovens estão sempre na espera. ‘Para eu ir estudar, o que vou receber?’ […] Neste caso, por exemplo, era o teatro, era o estudo, era a vontade de querer fazer uma coisa diferente, mas eles estavam sempre pensando ‘mas não tenho’, ‘não comi’, ‘não vou’. Penso que esse é um fator (informação verbal)65.
63 Estudantes que moram dentro da Universidade.
64 No projeto do 2006, se ofereceu lanche para todos os dias da oficina e todas as comidas nas apresentações nas comunidades. No 2007, os próprios participantes foram os encarregados de consegui-la. Isto gerou um conflito entre os participantes de Lima e os de Pucallpa. Este está descrito em BENZA, Rodrigo. Teatro intercultural: recuperando nuestra humanidad. 2012. (artigo não publicado).
65
PANDURO, H. 2011. “Yo siento que, de alguna manera, hemos acostumbrado [mal] a los jóvenes… de
O que é melhor, que participem do teatro pela comida ou que não participem? O tema do assistencialismo é muito complexo. Qual é o limite entre gerar boas condições e ser assistencialista? Quais as prioridades? Como lutar contra o assistencialismo? Utilizando-o para pouco a pouco começar a mudar as atitudes ou rejeitando-o desde o começo? Querer mudar as atitudes é sempre uma postura assistencialista?
Considero que, em linhas gerais, neste projeto não existiu uma postura assistencialista. Porém, tampouco existiam, principalmente no início da experiência, as condições mínimas para que os participantes pudessem participar da oficina sem se preocupar se teriam o que comer mais tarde.
Em paralelo a esta, existe uma situação que me trouxe questionamentos sobre as condições que devem ser oferecidas. No caso da etnia Shipibo-Konibo, por exemplo, eles organizam todo ano uma copa de futebol intercomunidades. Toda a equipe viaja para a cidade de Pucallpa com o dinheiro da comunidade principalmente e paga sua acomodação e alimentação. Mas se tivessem que assistir a uma capacitação organizada por uma ONG, por exemplo, mesmo que considerem que os temas da capacitação poderiam beneficiar sua comunidade, é muito provável que só assistam se receberem tudo. No caso de alguns dos participantes da primeira oficina, acontecia algo parecido. Muitas vezes se queixavam porque não haviam comido, mas de tarde estavam jogando futebol. Aliás, para eles jogarem, todos os que estão no campo devem aportar dinheiro para a aposta contra o outro time. Portanto, tinham dinheiro e energia para apostar no futebol, mas não para comprar algo para comer. Isto me leva ao tema seguinte que é o compromisso pela oficina.