Os participantes das oficinas foram estudantes indígenas e mestiços da UNIA. Quando falo em indígenas, parto da definição de organismos como a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e as Nações Unidas (ONU) os quais, segundo Anne Deruyttere (2001, p. 5) definem
como indígenas os descendentes dos habitantes originários de uma região geográfica antes da colonização e que mantêm total ou parcialmente suas características linguísticas, culturais e de organização social. Além disso, a auto identificação é um critério fundamental para determinar quem se considera indígena.
A situação da maioria dos participantes indígenas das oficinas era bastante complexa. Eles estão inseridos nas dinâmicas de discriminação e pobreza descritas no início deste capítulo. Franguine Paati58, um dos participantes pertencente à etnia Awajun, ilustra a situação: “E agora, por exemplo, estamos sem nada. Não estamos tomando café-da-manhã, estamos só com o almoço, e isso também estamos preocupados. Janta não temos “ (informação verbal)59. A situação da maioria dos estudantes indígenas na UNIA é muito dura. Muitos deles têm que viajar vários dias para chegar às suas comunidades e têm pouco dinheiro para os estudos. Alguns deles, inclusive, têm que trabalhar para conseguir 50 soles60 para sua matrícula.
Os grupos étnicos representados nas oficinas foram os seguintes: Awajun, Wampis, Shipibo- Konibo, Shawi, Tikuna, Asháninka e Aymara61. Este último é o único grupo étnico que não é da Amazônia, mas andino.
Apesar de que existem diferenças importantes entre esses grupos indígenas, existe uma identidade indígena e um reconhecimento do ser indígena, independentemente do grupo étnico a que se pertence. Segundo Bodmer e Mayor (2009, p. 23), “por detrás da grande
58 Daqui em diante: Franguine
59 PAATI, F. 2011. “Y ahora por ejemplo estamos sin nada. No estamos desayunando, solamente estamos en
almuerzo, y eso también estamos preocupados, cena no tenemos”.
60 O sol é a moeda peruana.
variedade de configurações socioculturais amazônicas existe uma série de características genéricas comuns a todas elas e que as diferenciam, em seu conjunto, da sociedade urbana do tipo ‘ocidental’”62.
Durante quase todo o período das oficinas, trabalhou-se em termos de indígenas e mestiços, e tanto a teoria quanto os próprios participantes utilizam o termo indígena como critério de identificação.
Definir o mestiço no contexto amazônico pode ser complexo. Não existe realmente uma distinção de raça e, como afirma Jacques Tournon (2002, p. 14) “muitos mestiços são indiscerníveis fisicamente dos nativos”. A maioria deles tem antepassados que pertenciam a etnias amazônicas ou são descendentes de migrantes andinos. Poder-se- ia dizer que mestiço é aquele que não se reconhece como indígena (auto identificação) e que não fala uma língua nativa. Portanto, a língua é um dos elementos mais importantes da identidade cultural.
Segundo Tubino e Zariquiey (2007, p. 21) a língua e a cultura são parte do mesmo “universo” desde o qual os indivíduos formam sua identidade. Atualmente no contexto amazônico, a língua é praticamente o único signo externo, visível, para diferenciar os indígenas dos mestiços e, portanto, é muito relevante para as situações de discriminação. Segundo alguns dos participantes, há estudantes indígenas da universidade que negam sua origem indígena, e afirmam que não falam uma língua nativa só para evitar serem discriminados.
Por outro lado, os estudantes mestiços que participaram das oficinas moravam todos na cidade de Pucallpa e, portanto, tinham maior conhecimento da vida urbana, e tinham uma situação econômica menos precária que a maioria dos participantes indígenas.
Abaixo apresento a lista dos participantes que participaram regularmente das oficinas:
62 Os autores incluem aos mestiços, também chamados de colonos, que moram no espaço rural de forma similar a seus vizinhos indígenas.
Tabela 1 Lista de Participantes 1a Oficina
Nome Cultura Curso Idade
Franguine Paati Antuash Awajun EPB 29 Daniel Dionicio Diaz Mestiço EPB 19
Elias Chamik Saan Awajun EPB 25
Haydee Rivera Panduro Mestiça Professora 50 Ismael Chumpi Pijushkun Awajun EPB 28 Lirio Tankamash Santiak Awajun EPB 21 Reyner Yatsupish Sanchez Awajun EPB 21
Robert Ugkuch Antun Awajun EPB 27
Tabela 2: Lista de participantes da 2ª oficina
Nome Etnia Curso Idade
Alver Nijigkus Kajekui Awajun EPB 23
Carla Beatriz Carbajal Arratea Mestiça EIB 21 César S. Giucam Kunkumas Awajun IAI 22
Daniel Dionicio Diaz Mestiço EPB 19
Edinzon Gilder Perez Jimenez Asháninka EPB 21
Jhon Garay Falcón Mestiço IAI 24
Jimmy Jair Acuña Osores Mestiço IAI 20
José Tangoa Huiñapi Shawi EIB 23
Lirio Tankamash Santiak Awajun EPB 21
Marco Tangoa Mapuchi Shawi EPB 22
Raquel Sabrina Ruiz Meléndez Mestiça EIB 22 Rocío S. Mensilla Huayllas Tikuna EIB 22
Solís Unup Pacunta Wampis EPB 30
Waldemar Pizango Rojas Shawi EPB 23
Yanne Yeny Mamani Pilco Aymara IAI 16
Nestas listas encontram-se apenas os nomes dos participantes que assistiram acima 60% dos encontros. Apesar de apresentar omissões, como por exemplo, na primeira oficina também
participaram alguns estudantes shipibos, a lista proporciona um panorama geral sobre os participantes e a mudança destes de uma oficina a outra.
Na primeira tabela, se vê que a grande maioria dos participantes era da cultura Awajun e todos são do curso de EPB. As razões disto são as seguintes:
• Eu havia pedido para focar o convite nos estudantes indígenas de educação. • A professora encarregada de fazer o convite delegou a tarefa a um estudante de
EPB da etnia Awajun.
• Nas datas nas quais começou a oficina, a Universidade estava de férias, portanto só podiam participar os que não tinham condições de voltar para suas casas nesse período, como era o caso dos estudantes da cultura Awajun, já que suas casas ficam muito longe.
Como se pode apreciar, na segunda oficina houve mais variedade tanto de origem cultural quanto de cursos da universidade, o que gerou um intercâmbio mais completo. Isto aconteceu porque para o convite da segunda oficina, elaboramos cartazes e fizemos convites nas salas de aula de todos os cursos, sem diferenciar mestiços de indígenas, e as aulas já tinham começado.