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Synchronisation temporelle et superposition spatiale

A cidade de Santos, na qual se situa a escola frequentada pelos alunos pesquisados, ocupa posição de destaque numa região metropolitana que abrange outros oito municípios. Embora seja a quarta em extensão territorial, ocupa a primeira posição em população (419.400 habitantes), PIB e IDH. Possui o maior e mais importante complexo portuário da América do Sul e o maior em extensão da América Latina, e atualmente passa por evidente processo de expansão, em todos os ramos de atividades, devido à exploração da camada pré- sal, recém-descoberta em sua bacia. A maioria das cidades geograficamente próximas constituem verdadeiras cidades-dormitório, uma vez que Santos configura-se como o centro de oportunidades de trabalho, estudo e lazer, assumindo feições de grande centro. Esta faceta coexiste com outra que se emoldura a partir de sua realidade como polo turístico, devido à presença da praia, o que a leva a aumentar em 50% sua população durante a chamada alta temporada.

Em que pese sua posição de destaque neste cenário regional, a cidade, por estar próxima a um grande centro urbano, capital de estado, demonstra, contraditoriamente, padrões e estilos de vida provincianos, chegando a ser alçada, em certa medida, também à posição de cidade dormitório. Sendo a capital o “lugar” do espaço físico onde se concentram os polos positivos de todos os campos e a maior parte dos agentes que ocupam as posições dominantes, só pode ser pensada em relação à província que, neste sentido, “nada mais é que a privação (totalmente relativa) da capital e do capital” (Bourdieu, 2007a, p 162).

Ao longo de sua história, a vinculação objetiva e simbólica à “cidade grande” esteve evidente de diversas maneiras: busca de emprego e estudo em nível superior (melhor nível salarial e universidades públicas), sobretudo pelas camadas média e alta, na metrópole; padrões arquitetônicos de habitação – edifícios cada vez mais altos e com área social, centros de lazer e esporte incorporados ao espaço – em conformidade com as aspirações e necessidades de um grande centro urbano; vivências culturais, como frequência a museus e teatros, também são transferidas para a capital, retardando substancialmente o incremento cultural da própria cidade.

Esse desenho, essa dinâmica, descortina um movimento em busca por distinção, por ocupação de posições distintivas, ancorado principalmente numa forma específica de capital econômico e cultural que se reverte em maior poder no jogo de concorrência, pautado em relações de forças, empreendido nos diversos campos do espaço social, aqui designado cidade: as pessoas que trabalham, estudam ou desfrutam de atividades culturais nessa cidade, sendo moradoras de outra, constituem um grupo que, simbolicamente, se aproxima no mapa das relações sociais; da mesma forma, mas em outra medida, os nativos dessa cidade que frequentam a metrópole se aproximam entre si e se distanciam dos demais, distinguindo-se em interesses, preferências, gostos, rotinas, modos de vida e, sobretudo, visões de mundo.

Esse é apenas um elemento dentre inúmeros outros no amplo espectro de possibilidades de distinção, mas muito presente e determinante no mapa das relações da cidade da escola pesquisada. E é um elemento importante, à medida que coloca, para as famílias e jovens, expectativas de futuro que incidem fortemente em suas escolhas, em sua maneira de se posicionar e se mover no jogo social.

Outro aspecto a ser observado no cenário geográfico da cidade repousa sobre a forma de ocupação do espaço físico que, sem dúvida, é também emblemática das aproximações e distanciamentos que se vão operando ao nível simbólico e que se materializam nos locais de residência de cada camada social.

Como bem expressa Bourdieu,

o espaço social tende a se retraduzir, de maneira mais ou menos deformada, no espaço físico, sob a forma de um certo arranjo de agentes e propriedades. Por conseguinte, quaisquer divisões e distinções do espaço social (alto/baixo, direita/esquerda etc.) se exprimem real e simbolicamente no espaço físico apropriado como espaço social reificado (por exemplo, na oposição entre os bairros elegantes, Faubourg Saint-Honore ou Quinta Avenida, e os bairros populares ou os subúrbios). (Bourdieu, 2001, p. 164)

A praia é o ponto de referência; morar entre ela e a desativada linha férrea que corta a cidade paralelamente à orla, separando-a dos bairros/centro, equivale a prestígio. Mais do que poder arcar financeiramente com o valor do metro quadrado do terreno, aquele que reside nas imediações da orla possui certo estilo de vida, costumes, hábitos, posturas, padrões de consumo, bem distintos daquele que reside, por exemplo, nos morros (exceção a um determinado morro, totalmente ocupado por uma pequena elite econômica que ali se estabeleceu, transformando-o num condomínio fechado) ou na parte que dá face ao continente. E, dessa forma, numa cidade com pouca extensão territorial (281Km2 no total, sendo que quase 90% da população se concentra nos 39,4Km2 de área insular), as distâncias se aprofundam indefinidamente, hierarquizando posições de acordo com a desigual distribuição de capitais.

Isso porque vizinhança ou afastamento no mapa social expressa um maior ou menor diferencial das mesmas propriedades: proximidade significa intercâmbio das mesmas práticas e afastamento, práticas distintas. Essa homologia entre o espaço social (conjunto de posições mutuamente exteriores) e o espaço simbólico (conjunto de práticas e preferências que constituem signos distintivos), se retraduz em escolhas de escolas, gostos por certos tipos de bebidas, preferências musicais, gostos por determinados esportes etc. E implica, ainda, maior ou menor dominação/subordinação do agente conforme sua posição no espaço social em relação às demais posições (Catani e Pereira, 2002).

Segundo Bourdieu (2001), não existe quem não seja caracterizado pelo lugar em que está situado de maneira mais ou menos permanente (“não ter eira nem beira” ou não possuir “domicílio fixo” é ser desprovido de existência social; ser “da alta sociedade” é ocupar as altas esferas do mundo social) e pela posição relativa de suas localizações temporárias (lugares de honra) e permanentes (endereços, pontos de vista). E é por meio do habitus, princípio gerador, organizador e unificador das práticas, dos discursos e das representações (tanto do agente quanto do grupo ou classe social), que as diferenças relativas às condições materiais de vida se transmutam em diferenças nas maneiras de usufruir dos bens, ou seja, em distinções simbólicas que vão configurar distintos estilos de vida (Nogueira, 1997).

Interessante notar, no caso específico da cidade analisada, que o uso da praia não necessariamente faz parte da rotina dos moradores que geográfica e simbolicamente a “possuem”. Muitos não a frequentam e muitos outros, dirigem-se, nos finais de semana, feriados e férias, a suas “casas de praia” em outras cidades do litoral, bem próximas a esta. Esses elementos emergem das falas dos entrevistados, como se observará adiante, e podem denotar também uma espécie de “mentalidade provinciana”, que leva a adotar o padrão de

necessidades e anseios do centro urbano tido como referência, visando constituir, talvez, mais um elemento de distinção.

Como já afirmara Bourdieu, as “grandes oposições sociais objetivadas no espaço físico (por exemplo, capital/província) tendem a se reproduzir nos espíritos e na linguagem sob a forma de oposições constitutivas de um princípio de visão e de divisão, isto é, enquanto categorias de percepção e de apreciação ou de estruturas mentais” (Bourdieu, 2007a, p 162).