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Evolution de la structure ´ electronique en fort des´ equilibre thermique

Como se pôde observar, a distância da necessidade (econômica) é a linha que comanda a constituição das disposições estética e escolástica, que, como se pôde notar também, se enraízam num ethos – conjunto de valores e crenças fundamentais – determinante dos estilos de vida e das disposições frente ao futuro, assumindo, portanto, uma dimensão

moral. É, sobretudo, quando tenta compreender o futuro de uma classe social, esmiuçando as estratégias de reprodução empreendidas pelos diferentes grupos, que Bourdieu põe maior relevo na questão do ethos e das disposições morais.

O ethos de classe constitui-se como poderosa ferramenta na apreensão do sentido e da inclinação das trajetórias dos agentes sociais, pois se configura como princípio gerador e unificador ao qual se deve retornar quando se deseja compreender o sistema de estratégias objetivamente orientadas para a manutenção ou melhora da posição ocupada na estrutura social. É por intermédio do ethos de classe que

toda a visão do mundo econômico e social, toda a relação com o outro e com o próprio corpo, enfim, tudo o que faz o estilo próprio do grupo, afirma-se em cada uma das suas práticas, quer seja a mais natural em aparência, a menos controlada pela consciência, pela razão ou até pela moral. (Bourdieu, 2008d, p. 104)

As investigações empíricas de Bourdieu levaram-no a uma classificação da sociedade francesa em função das posições ocupadas pelos agentes e pelos grupos no espaço social, medidas por suas escolhas, práticas e preferências expressas na posse das diferentes espécies

de capitais. Tomando como um polo a experiência burguesa de distanciamento da necessidade econômica, e como outro polo a dependência material e simbólica que elimina as chances de futuro, característica das classes subalternas, o autor delineia num espaço intermediário as variantes que compõem as frações dominadas e dominantes das classes que estão no jogo com alguma chance de êxito devido à posse de capitais. Refere-se, dessa forma, a uma pequena

burguesia (ou classes médias) que realizaria uma trajetória que parte da negação de um passado ligado à classe operária em direção a todo e qualquer empreendimento que resulte na possibilidade de conquista das benesses da vida burguesa. No seio dessa pequena burguesia, o autor apreende, ainda, variações significativas implicadas no sentido das trajetórias, especificando, assim, três frações de classe: a pequena burguesia em declínio, a pequena

burguesia de execução e a nova pequena burguesia.

Grosso modo, a pequena burguesia em declínio se caracteriza por práticas e opiniões associadas a um passado ultrapassado, e pela manifestação de disposições regressivas por serem semelhantes às dos operários. Os pequenos burgueses em declínio exprimem, em todos os domínios, as preferências mais austeras e mais tradicionais; e têm sua posição demarcada também pela recusa e o ressentimento que exprimem pela nova moral (da nova pequena burguesia). A pequena burguesia de execução ocupa posição central, no que tange a estrutura do capital, e se caracteriza, sobretudo, pelo esforço, rigorismo ascético e boa vontade cultural (em oposição a um efetivo capital cultural). Destinados a um “progresso progressivo por um esforço de educação”, eles são levados a uma visão de mundo progressista, baseada na fé nas luzes da instrução e na inteligência e investem numa disciplina totalmente subordinada à ascensão social. A nova pequena burguesia é composta pelos membros da pequena burguesia que têm sua trajetória interrompida e que se esforçam para prolongá-la ou restabelecê-la; são aqueles que não obtiveram êxito pela via escolar, ou porque não conseguiram, apesar de sua favorável posição social de origem, os diplomas que lhes permitiriam reivindicar suas posições, ou porque de posse deles não obtiveram tudo aquilo que se sentiam no direito de esperar. São na verdade pequeno-burgueses desclassificados, cuja pretensão é conseguir a reclassificação (Bourdieu, 2007b, p. 325 – 342).

Essa classificação empreendida por Bourdieu a partir de pesquisas datadas e contextualizadas, definindo minuciosamente as profissões que ocupariam cada pedaço do espaço, não se aplica integralmente a uma sociedade pouco estratificada e jovem como a nossa e não deve, portanto, ser transportada anacronicamente para o estudo em pauta. Mas pode permitir, neste caso particular do possível, a compreensão de alguns deslocamentos dos agentes e suas práticas no campo das produções simbólicas.

Interessam aqui os princípios mais gerais, imanentes à classificação empreendida pelo autor, que possam contribuir como ferramentas operatórias para desvendar a economia das práticas. Interessa apreender, por exemplo, o princípio de que as disposições frente ao futuro e, por consequência, as estratégias de reprodução, dependem não só da posição sincronicamente definida da classe e do indivíduo na classe, mas do sentido da trajetória coletiva do grupo do qual faz parte o indivíduo ou o grupo e, secundariamente, do sentido da trajetória particular a um indivíduo ou a um grupo englobado em relação à trajetória do grupo englobante (Bourdieu, 2008d, p. 101).

Da mesma forma, importa apreender algumas noções que emergem das descrições das variantes de classes, efetuadas pelo autor, que, ao remeterem ao processo de formação das disposições morais, indicam explicações possíveis para as situações em que não há coincidência entre o habitus e as estruturas. É o caso do ascetismo, expressão utilizada de forma recorrente pelo autor, principalmente quando aborda as variações do ethos pequeno burguês.

Aplicado à pequena burguesia de execução, assim se poderia resumir o ascetismo manifesto em uma disposição ascética: aptidão individual e coletiva de se fazer pequeno para tornar-se grande (se fazer pequeno para passar pela porta estreita que dá acesso à burguesia), ou seja, de poupar e se abster para reunir recursos, de ter ambições razoáveis em troca do êxito certo, de adiar o prazer, de fazer da necessidade virtude. Não podendo contar com garantias reais (econômicas, culturais, sociais) nas trocas sociais, o asceta oferece garantias morais: sacrifícios, privações, renúncias, boa-vontade, reconhecimento. Os membros da pequena burguesia ascendente são, portanto, definidos pelo fato de se determinarem em função de chances objetivas que não teriam se não tivessem a pretensão de obtê-las e se não acrescentassem, por conseguinte, aos seus recursos em capital econômico e cultural, recursos

morais.

Mas, como Bourdieu também se refere a um ascetismo inscrito na ordem das virtudes intelectuais que se faz sentir, por exemplo, no aristocratismo presente na experiência escolástica, cabe, aqui, uma apropriação mais ampliada do conceito. A partir, então, do que foi possível reunir nos diferentes textos do autor, pode-se dizer que ele compreende o ascetismo como a prática da ascese: exercício da renúncia voluntária aos prazeres sensíveis que leva à assunção de um modo de vida austero, feito de privações, com o fim maior de alcançar a perfeição moral, a virtude ou o domínio de si. O ascetismo, de uma maneira geral, resultaria num estilo de vida pautado por renúncias, por comportamentos comedidos e metódicos, o que, por sua vez, se retraduziria numa disposição ascética – remanência do

efeito dos condicionamentos primários inscritos sob a forma do habitus –, fundamental na definição das maneiras de agir no mundo.

Em oposição direta ao ascetismo, emerge nas descrições das variantes do ethos pequeno burguês, empreendidas por Bourdieu, o hedonismo. A palavra não foi cunhada pelo autor, que se referiu mais diretamente a uma “moral modernista”, “terapêutica” e “dos consumidores”; mas será aqui utilizada por retratar de modo apropriado o conjunto de ideias exploradas por ele ao abordar a conversão ética operada pela nova pequena burguesia. Este aspecto é aqui destacado pelas mesmas motivações já expostas: apreender os diferentes processos de formação das disposições morais que, enraizadas no ethos de classe, vão definir as estratégias de reprodução dos grupos.

O hedonismo enquanto busca do prazer como primeiro princípio da moral, opõe-se, aqui, à moral tradicional do esforço e da renúncia, e aparece mais nitidamente quando Bourdieu trata da moral inaugurada pela nova pequena burguesia, qual seja: a moral do dever

de prazer.

A moral do dever de prazer, que delinearia uma espécie de reconversão operada pela nova pequena burguesia para manter o valor distintivo de seu patrimônio no mercado de capitais, é esquadrinhada por Bourdieu em A Distinção (2007b, p. 343-349), que comprova, ao final e ao cabo, que se trata de uma moral tão conservadora quanto a anterior. Sob o risco de efetuar saltos teóricos que prejudiquem a correta interpretação das ideias do autor, importa reter, para subsidiar as discussões aqui empreendidas, os aspectos que possam elucidar a

aversão ao esforço, que formataria um outro tipo de disposição moral.

Nesse sentido, a moral do dever, que opondo prazer e bem, colocava sob suspeita o

lazer e o agradável e levava a uma relação moderada e reservada com o corpo (temperada pela culpa), se vê em xeque pela imposição de outras normas éticas que não só autorizam o prazer, considerando fracasso a impotência em divertir-se, como o exigem. O medo de não ter suficiente prazer (sequência lógica da preocupação em superar o medo do prazer) combina-se com a busca da expressão de si (e de seu corpo) e da comunicação (e até mesmo imersão) com os outros, para substituir uma ética pessoal por um culto à saúde pessoal e uma

terapêutica psicológica. Essa psicologização (antítese direta da politização) da relação com o corpo – que passa pela imposição de novos padrões de normalidade, pela afirmação de uma falsa ciência da sexualidade para naturalizar determinada maneira de vê-la e vivê-la – fornece uma resposta sistemática aos problemas da existência cotidiana e é inseparável da exaltação de um eu que se realiza por intermédio de um corpo tratado agora como sinal e não mais como instrumento (Bourdieu, 2007b, p. 345 - 346).

Pode-se depreender a partir das considerações do autor a emergência de uma

disposição hedonista que responderia por uma parte significativa das ações dos indivíduos e dos grupos ao longo de suas trajetórias. Não se deve, entretanto, opor as duas morais de forma a desconsiderar que os membros de uma mesma classe podem ter disposições frente ao futuro, portanto morais, radicalmente diferentes segundo façam parte de uma fração globalmente em ascensão ou em declínio e, também, conforme se encontrem os próprios indivíduos em movimento ascendente ou descendente. Não se pode, pois, deixar de considerar que essa disposição reveste um número de modalidades específicas, e, até, singulares, igual ao das maneiras de ascender a uma posição média (Bourdie, 2008d, p. 101).

Um exemplo de arranjos diferentes das mesmas disposições ou da atrofia de uma e hipertrofia de outra de acordo com a necessidade e os interesses de classe é o da pequena burguesia ascética que, tradicionalmente devotada à poupança, pode acabar por se voltar, no âmbito da sociedade de concorrência, para o crédito. Ainda nesse caso é a pretensão à burguesia que leva a pequena burguesia a buscar esses meios de viver acima de seus meios, ao preço de uma tensão e de uma contenção permanentes, e que assim a sujeita a uma nova

forma de ascetismo, própria a desempenhar por outros meios, mais bem ajustados às novas estruturas econômicas, as funções antigas (Bourdieu, 2008d, p. 110).

É dessa forma que deve ser interpretada a figura 3 apresentada a seguir a fim de não se incorrer em grave falta ao tentar esquematizar um conceito que só pode ser apreendido em movimento. Ela representa, mais uma vez, o esforço de organizar e, assim, evidenciar os elementos envolvidos no trabalho de formação das disposições que compõem o habitus, desta feita, a disposição moral que orienta as ações empreendidas pelos agentes em suas trajetórias.

Disposição Moral

frente ao futuro

Disposição Ascética Disposição Hedonista

D E V E R DEVER DE PRAZER Ações de sacrifícios, Ações de lazer restrições, esforço descontração, consumo

Recalque dos apetites Incitação aos apetites

Base de Valores

Ethos Familiar – CRENÇA

Condições Sociais de Existência Ethos de Classe

Figura 3 - Modelo conceitual - Formação das Disposições Morais Modo de Agir

A figura 3 pode ser interpretada de maneira semelhante às anteriores, mas com algumas particularidades: a partir da base de valores que compõe o ethos familiar, ações diferençadas poderão se empreendidas a depender do grau do recalcamento que se exerça sobre as pulsões primárias. Se o trabalho de socialização da libido original se der no sentido de um reforçamento do Eu, a tendência será a formação de uma disposição moral de cunho hedonista, voltada à satisfação dos prazeres imediatos; e, por força de afirmação, será marcada por uma aversão ao esforço que resulta dos investimentos empreendidos pelas ações contrárias, dispostas na face esquerda do quadro. Lembrando que a própria base de valores de que se fala é ela mesma produto de um arranjo para atender às novas demandas de uma classe que pretende se reclassificar e não perder posições no espaço social.

É possível, a essa altura, num exercício de sobreposição das três figuras propostas, perceber que a disposição estética e a disposição escolástica estão estreitamente ligadas à

disposição moral em sua vertente ascética, já que as três demandam um esforço de recalque dos apetites primários e um distanciamento do mundo (econômico), formando um feixe de

disposições que imprimem nos agentes, respectivamente, certo modo de apreciar, de pensar e de agir da classe dominante.

Cabe ainda ressaltar que ao curso do longo processo de constituição das disposições e, portanto, do habitus, agem, incessantemente, as forças que compõem a illusio de cada campo, a necessidade de reconhecimento e o desejo de sucesso, que sustentam e orientam as mais variadas formas de disputa por poder.

No capítulo seguinte, questões de método, apresentação e análise de dados empíricos se misturam, constituindo uma forma particular de tratar o problema de pesquisa em seu aspecto mais político e social.