• Aucun résultat trouvé

Calcul quantique de la structure ´ electronique

Bourdieu utilizou sistematicamente em sua obra a analogia do jogo para proporcionar uma primeira compreensão intuitiva do que se entende por campo. Ponderou, entretanto, que, diferente de um jogo, o campo não é produto de um ato deliberado, e segue regularidades que não são explícitas nem estão codificadas. O que se tem, na verdade, é o que está em jogo, ou seja, o produto da competência entre os jogadores; em outras palavras, um investimento no jogo, a illusio: os jogadores são admitidos no jogo somente na medida em que acreditam no jogo e no que se joga, atribuindo um reconhecimento fora de qualquer questionamento; os jogadores acordam, pelo mero fato de jogar, que o jogo merece ser jogado. (Bourdieu & Wacquant, 2008, p.135, 136). Nesse sentido,

participar da illusio, científica, literária, filosófica ou qualquer outra, é o mesmo que levar a sério (por vezes a ponto de fazer, também aí, perguntas de vida e morte) os móveis dessa competição os quais, nascidos da lógica do próprio jogo, conferem seriedade ao jogo, ainda que possam escapar ou parecer "desinteressados" e "gratuitos" àqueles que por vezes são chamados de "profanos" ou àqueles envolvidos em outros campos (a independência entre os diferentes campos acaba produzindo uma forma de incomunicabilidade entre eles). (Bourdieu, 2001, p. 21)

Todo campo social, seja político, científico, burocrático, artístico, tende, portanto, a obter daqueles que nele entram uma relação chamada illusio. As diferentes espécies de capital são as cartas de trunfo, e o poder – a força do possuidor de cada uma delas – varia nos distintos campos, determinando sua influência e até a sua existência no jogo. Porém, afirmou ainda o autor, os jogadores podem jogar para aumentar ou para conservar seu capital em

conformidade com as regras tácitas do jogo, como podem também entrar nele para transformar total ou parcialmente suas regras, para mudar o valor relativo e a taxa de troca das diversas espécies de capital (Bourdieu & Wacquant, 2008, p. 137). Mas, ainda aí, há um reconhecimento da importância dos alvos do jogo, a ponto de se desejar fazer a revolução nele. Ou seja, mesmo na discordância há uma concordância a respeito do objeto do desacordo. Não há, entretanto, nenhuma intelecção na base da aceitação dos valores e princípios fundamentais do campo: a illusio é da ordem da ação, da prática, da rotina, das coisas que são feitas porque se têm que fazer e porque sempre foram feitas assim. Não discutir o valor das apostas e ignorar as condições que fazem o agente ser quem ele é fazem parte da ilusão necessária para a adesão imediata ao jogo e a garantia da aceitação total das finalidades do campo.

A noção de illusio aparece na obra de Bourdieu como uma forma específica de abordar a questão do interesse e romper com uma concepção ingênua da conduta humana postulada pela antropologia filosófica, dominante quando o autor começou a trabalhar em ciências sociais. Segundo ele,

é preciso repudiar os vestígios de moralismo, religioso ou político, que servem de inspiração subterrânea a inúmeras interrogações de aparência epistemológica. Na ordem do pensamento, não existe, como lembrava Nietzsche, concepção imaculada; tampouco existe pecado original. E não é porque poder-se-ia descobrir que aquele que descobriu a verdade tinha interesse em fazê-lo que essa descoberta estaria por isso mesmo comprometida. Os que gostam de acreditar no milagre do pensamento "puro" devem resignar-se a admitir que o amor à verdade ou à virtude, como qualquer outra espécie de disposição, deve necessariamente algo às condições em meio às quais se formou, ou seja, a uma posição e a uma trajetória sociais. (Bourdieu, 2001, p. 12)

Seguindo um sensato princípio materialista postulado por Weber segundo o qual “os agentes sociais obedecem a uma regra somente na medida em que seu interesse em segui-la supera seu interesse em ignorá-la”, sua intenção ao tratar do interesse foi perguntar o que faz operar as regras, em vez de apenas pretender descrever as regras segundo as quais as pessoas atuam. Depois, preferiu utilizar o termo illusio, em vez de interesse, porque suas abordagens se referem sempre a interesses específicos, que são pressupostos e produzidos pelo funcionamento dos campos historicamente delimitados (Bourdieu & Wacquant, 2008, p. 154).

Nesse sentido, e para afastar qualquer acusação de se render a um economicismo, o autor advertiu que a noção de interesse se opõe não somente à de desinteresse ou gratuidade,

mas também à noção de indiferença. Significa dizer que, ao contrário da indiferença que é um estado ético de não preferência e um estado de conhecimento no qual não sou capaz de diferenciar o que está em jogo, a illusio é estar tomado pelo jogo, é aceitar que o que ocorre num dado jogo social é realmente importante, que vale a pena lutar pela questão em disputa. Significa dizer que o conceito de interesse para Bourdieu está totalmente desarticulado do interesse trans-histórico e universal da teoria utilitarista. O interesse é uma construção histórica que só pode dar-se a conhecer mediante a análise histórica, a posteriori, por meio da observação empírica, e não elucidada a priori por uma concepção fictícia de “Homem” (Bourdieu & Wacquant, 2008, p. 156).

Isso implica que cada campo convoca e dá vida a uma forma específica de interesse, uma illusio específica; que há tantos interesses quantos campos e que cada um pressupõe e gera simultaneamente uma forma de interesse que não pode ser medido segundo as que são válidas em outro lugar. Além disso, esse interesse específico implícito pela participação no jogo difere segundo a posição que se ocupe nele e a trajetória que conduziu cada participante à sua posição (Bourdieu & Wacquant, 2008, p. 156).

Ao desnaturalizar o conceito de interesse definindo-o como uma construção sócio- histórica, Bourdieu7 convoca a pensar no objeto em estudo não mais como uma manifestação individual e subjetiva, mas como produto da relação entre habitus e campo, sendo que

un campo es un conjunto de relaciones objetivas e históricas entre posiciones ancladas en ciertas formas de poder (el capital), mientras que el habitus consiste en un conjunto de relaciones históricas “depositadas” dentro de los cuerpos de los indivíduos bajo la forma de esquemas mentales e corporales de percepción, apreciación y acción. (Bourdieu & Wacquant, 2008, p.41, 43)

E ao conceber o interesse como algo aprendido, convocou, ainda, a pensarmos sobre o papel da educação na inculcação das disposições, na formação de esquemas mentais que fazem com que os agentes permaneçam no jogo, definindo inclusive a forma e o estado dessa permanência.

A noção de illusio constituiu-se, pois, como uma instigante trilha dentre as tantas abertas pela sociologia da prática de Pierre Bourdieu, possibilitando uma análise em termos de campo. E inaugurou uma série de novos questionamentos: o que leva os agentes a tomarem parte dos jogos sociais? Qual o motor originário da ação em cada campo? Segundo o autor, a aquisição das disposições específicas exigidas por cada campo certamente não é o produto de

7 Embora a referência seja a uma obra escrita a duas mãos, menciona-se aqui somente Bourdieu porque o conceito explicitado é uma formulação teórica de sua autoria, tendo sido sistematizada no diálogo estabelecido com Loïc Wacquant.

uma impressão mecânica; ao contrário, é o fruto de um trabalhoso processo de socialização que transforma a libido originária, isto é, os afetos socializados constituídos no campo doméstico, em formas específicas de libido.

Isso mesmo, Bourdieu propõe uma interface com a teoria freudiana quando empreende o exercício de análise da gênese do investimento num campo de relações sociais, estabelecendo uma instigante relação entre as noções de libido e illusio. Na obra “Meditações Pascalianas” (2001), Bourdieu conclama a união entre a sociologia e a psicologia para levar a cabo tal análise e afirma que “a forma originária da illusio é o investimento no espaço doméstico, lugar de um processo complexo de socialização do sexual e de sexualização do social” (Bourdieu, 2001, p.201).

A passagem de uma organização narcísica, na qual a criança se toma como objeto de desejo, para outra, em que ela se orienta para uma outra pessoa como objeto de investimento, sinaliza, segundo o autor, a transição de uma libido biológica, pulsão indiferenciada, para uma

libido social, específica. O trabalho de socialização da libido é o que transforma as pulsões em interesses específicos, socialmente constituídos, que existem tão somente na relação com um espaço social no qual certas coisas são consideradas importantes e outras indiferentes (Bourdieu, 2011, p.141, 142).

A criança percebe, desde cedo, que “seu ser é um ser-percebido, condenado a ser definido em sua verdade pela percepção dos outros” (Bourdieu, 2001, p.200), e a partir daí, o trabalho pedagógico elementar consiste em apoiar-se num dos principais motores que impulsionarão os investimentos ulteriores: a busca do reconhecimento.

Eis aí o que poderia ser a raiz antropológica da ambiguidade do capital simbólico – glória, honra, crédito, reputação, notoriedade –, princípio de uma busca egoísta das satisfações do “amor-próprio” que é, ao mesmo tempo, a procura fascinada pela aprovação de outrem... (Bourdieu, 2001, p.202)

A ação pedagógica inicial, sobretudo quando tem a intenção de desenvolver a sensibilidade a uma forma particular de capital simbólico, deriva seu principal recurso dessa relação originária de dependência simbólica. A socialização das pulsões é tecida numa transação permanente, altamente carregada de afetividade, na qual a criança faz sacrifícios em troca de aprovação e reconhecimento. Os vereditos familiares (elogios ou reprimendas), impostos como ordem moral, não seriam tão poderosos se não estivessem carregados de desejo “e, graças ao recalque, enfurnados no que há de mais profundo no corpo, onde estão

registrados, sob a forma de culpabilidades, de fobias, numa palavra, de paixão.” (Bourdieu, 2001, p.203).

O desejo é, pois, a base das relações de poder que se instauram e determinam posições dominadas e dominantes nos diferentes campos (lócus das disputas). “De um modo geral, a eficácia das necessidades externas é a eficácia de uma necessidade interna” (Bourdieu, 2001, p.205). Dessa forma,

tanto se pode dizer que os agentes tiram partido das possibilidades oferecidas por um campo no intuito de exprimir e saciar suas pulsões e desejos, eventualmente sua neurose, como dizer que os campos utilizam as pulsões dos agentes constrangendo-os à submissão ou à sublimação, fazendo-os dobrar diante das estruturas e finalidades que lhe são imanentes. (Bourdieu, 2001, p.200)

A busca por reconhecimento está, portanto, na base do processo de socialização. A aprovação do outro é, na verdade, afirmação do eu, condição mesma de sua existência. Afirmar, então, a exemplo do que fez Bourdieu, que, em última instância, o motor de toda e qualquer ação humana é o interesse próprio, não seria exagero.

Este ponto de vista afronta em primeiro plano a teoria do dom que atribui a uma inclinação natural a facilidade ou habilidade dos indivíduos em determinadas áreas do conhecimento, encarando o sucesso como produto de talentos natos. É que, possuindo como motor o desejo de reconhecimento, o agente tende a dirigir sua ação no sentido da aprovação e, nesse processo, gostos, preferências, habilidades, comportamentos, seriam aprendidos na relação com o meio com vistas à obtenção de um lucro social. Nesse sentido, não há mais de um significado para interesse, senão o mesmo que se reveste de facetas diferentes; todas elas, de algum modo, revertendo em benefício próprio.

Afronta também a ideia de uma moral pura, fixa e absoluta (no sentido kantiano) que preside as ações humanas e que seria responsável por atitudes, por exemplo, bondosas ou racionais. De acordo com a perspectiva bourdieusiana, então, aprende-se a se fazer o bem porque, mais do que isso, aprende-se a sentir-se bem fazendo o bem. Na mesma direção, aprende-se a ter prazer na aquisição do conhecimento a partir de um interesse pessoal de obter dividendos sociais, ao fim e ao cabo, reconhecimento por parte do outro do valor de sua própria existência. Nesse processo de transmutação prolongado, contínuo, insensível – nem inconsciente, nem produto de cálculo consciente –, os ritos de instituição desempenham um papel determinante ao favorecer o investimento inicial no jogo.