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As lutas por reconhecimento moralmente motivadas têm como grande norteador de suas ações a desconstrução de referenciais valorativos implícitos e auto-evidentes de uma determinada comunidade de valores. O que é bom, relevante ou merecedor de estima é definido por essa hierarquia de valores que é tida como dada e inabalável. Se as lutas por reconhecimento buscam justamente abalar essas certezas e tentam engendrar novos entendimentos, elas tentam atingir, exatamente, essa base valorativa tida como sólida. Dessa maneira, as premissas de fundo, aquelas certezas que os sujeitos carregam consigo sobre os valores morais, buscam ser reveladas e questionadas.

Ao delinearmos a nossa análise tanto no site da Feneis quanto no Orkut, pudemos evidenciar que realmente há uma busca pela desestabilização de determinados valores e a tentativa de configurar novos entendimentos acerca da surdez. Essas ações se valem dos testemunhos para legitimar a luta por reconhecimento. No site da Feneis, identificamos alguns pares de entendimentos que se têm sobre os surdos e que foram revelados por meio dessas histórias de vida:

- a surdez como delineadora de uma vida normal x anormal;

- a língua de sinais como código lingüístico completo com o mesmo status de língua x língua inferior, incompleta e pouco abstrata;

- língua de sinais como comunicação integral x comunicação oral; - capacidade x incapacidade dos surdos.

Já no Orkut, os pares de sentido que encontramos foram: - a surdez como delineadora de uma vida normal x anormal;

- língua de sinais como primeira língua x dificultadora de aprendizagem do português, com pouca abstração e inferior;

- língua de sinais como comunicação integral x comunicação oral;

- língua de sinais como configuradora de modos de vida que levam à dependência x autonomia;

- língua de sinais como forma de comodismo x língua materna;

- igualdade de participação por meio da língua de sinais e por meio oral; - atributo da surdez como elemento que gera visibilidade x invisibilidade; - língua de sinais como configuradora de guetos x delineadora de processos de

conhecimento de mundo;

- surdos sinalizados como minoria lingüística x gueto

Percebe-se que, dos quatro pares de sentido que encontramos no site, três também foram encontrados nas conversações do Orkut. São eles: a) a surdez entendida como delineadora de uma vida normal x vida anormal; b) a língua de sinais como código lingüístico completo com o mesmo status de língua x língua inferior, incompleta e pouco abstrata; c) língua de sinais como comunicação integral x ineficiência da comunicação oral. Talvez, com um material de análise mais extenso, encontrássemos a equivalência dos pares na sua totalidade. É importante ressaltar novamente, a partir dessas evidências, que a luta por reconhecimento dos surdos sinalizados não se restringe ao ambiente virtual. Ela perpassa várias dimensões da vida desses sujeitos, sendo uma delas a vida associativa. Não é possível afirmar que todos os posicionamentos a favor da língua de sinais expressos no Orkut partem de sujeitos associados. É válido assegurar, contudo, que as mesmas premissas de bem viver que a Feneis acredita são confirmadas pelos defensores da Libras que publicaram seus comentários e relatos no Orkut. Isso revela uma dimensão bem maior das lutas por reconhecimento.

Foi possível demonstrar na nossa análise uma luta por reconhecimento dos surdos e que revela alguns valores predominantes contra os quais se luta. Tanto no site da Feneis quanto no site de relacionamento foi possível identificar essa busca por engendrar novos sentidos. Entretanto, há algumas distinções que devem ser levadas em conta. Enquanto no site da Feneis trabalhamos com o entendimento de um outro “presumido” que se encontra exatamente naquelas premissas dadas como certas e auto-evidentes, no Orkut esse outro está presente de maneira palpável no momento da conversação. Os surdos sinalizados encontram essas evidências concretamente na expressão e no posicionamento dos participantes das

conversas do Orkut. Isso apenas reforça o nosso pressuposto de que as lutas por reconhecimento são engendradas na dinâmica social e ganham expressão nos sites de modos distintos. Aquilo que é presumido no site se confirma de maneira concreta no Orkut. É interessante notar que, no site, os próprios testemunhos revelam em suas falas premissas e valores contra os quais se quer lutar. Frases e expressões carregam consigo fortemente o olhar e o posicionamento do outro. Existe um interlocutor para quem as expressões são endereçadas, e este “outro” pauta o conteúdo das minhas expressões (BAKHTIN, 1986). As lutas por reconhecimento são intersubjetivamente construídas (HONNETH, 2003; TAYLOR, 1992), portanto, o olhar a presença do outro, parceiro de interação, é exatamente o que dá sentido a essas lutas.

Além disso, o site, por meio dos seus testemunhos, dá grande ênfase à a) presença de histórias de superação; b) ao sucesso sobre as dificuldades; c) à defesa da língua de sinais; d) ao orgulho de ser surdo; e) à conexão de histórias particulares com contextos gerais; e f) à militância. Com exceção da militância, que não foi possível demonstrar nas conversações do Orkut, todas essas características também puderam ser encontradas nas histórias de vida acionadas no site de relacionamento. Relevante notar, contudo, que o site de relacionamento expressa também histórias de superação dos surdos oralizados, critica à língua de sinais e defesa da surdez como algo que não deve ser valorizado, pois se configura como uma patologia e deficiência. Por ser um ambiente um pouco mais isento de controles, o Orkut favorece o surgimento não apenas das histórias de vida dos surdos sinalizados, como também dos testemunhos dos oralizados, dos familiares, amigos, dentre outros.

A presença ou não das premissas de bem viver conflitantes é a grande diferença encontrada nos testemunhos do site e do Orkut. No site, os posicionamentos divergentes não estão presentes, enquanto no Orkut eles são os responsáveis por configurarem aqueles modelos de conversação política. A ausência dos pontos de vista discordantes, dos testemunhos que evidenciam o modo oral de se comunicar como valoroso e das críticas endereçadas à língua de sinais demonstra certa homogeneidade dos conteúdos expressos no site. Além de os testemunhos serem muito parecidos, tendem a confirmar a existência de uma cultura e de uma identidade surdas como valorosas e dignas. Os questionamentos sobre se isso é valido ou não são subsumidos. Conforme já dito, Warren (2001) atribui ao associativismo efeitos potencialmente democráticos, e um deles é o efeito de esfera pública. Para que a associação tematize questões nessa esfera de debate, represente e defenda pontos de vista, ela precisa eliminar externamente a ambigüidade de valores e a dispersão de interesses. As questões alvo da heterogeneidade e da complexidade interna, no momento em que a

associação se apresenta publicamente para representar determinados interesses, devem dar lugar a um discurso coeso que demonstre credibilidade. Nesse sentido, é evidente que o site da Feneis não cederia espaço para as opiniões discordantes. Isso não reduz o valor das instituições representantes de grupos sociais. A heterogeneidade não deixa de existir, mas, para fins políticos de luta por reconhecimento, ela deixa de se apresentar. O que se mostra, no caso dos surdos, é uma entidade que representa uma coletividade ligada por alguns pontos de interseção das histórias de vida pessoais que conformam um “nós” motivador da ação (MELLUCI, 1996).

A heterogeneidade dos surdos brasileiros, que não encontra lugar no site da Feneis, é deflagrada no Orkut. Um ambiente virtual que dá espaço para as opiniões discordantes, principalmente se elas dizem respeito a questões sensíveis como identidades não reconhecidas ou questões de injustiça, está sujeito a conceder espaço também para as discórdias tácitas, preexistentes em sociedade. Em todos os três debates analisados do Orkut isso ficou evidente. Os acirramentos diziam respeito sempre à mesma questão: ao embate entre língua de sinais e oralismo. A presença ou não de intérpretes de Libras, a vergonha ou não de se comunicar por meio de gestos e o valor da língua de sinais são faces da mesma questão.

Cabe lembrar também que as associações, e mais especificamente a Feneis, ao representarem os anseios dos surdos sinalizados, negligenciam publicamente a outra “classe” de surdos existente e que não corrobora os mesmos pontos de vista dos primeiros. É importante salientar que as políticas públicas e as leis, em geral, são formuladas a partir de uma pressão de atores políticos organizados da sociedade civil (WARREN, 2001; AVRITZER, 2004; BAIOCCHI, 2005). As associações de surdos empreendem ações dessa natureza freqüentemente, mas acabam por conquistar leis e políticas públicas que se referem a todos os surdos brasileiros. Elas exercem uma representação discursiva (DRYZEK; NIEMAYER, 2006) que representa todos os surdos, sem ser eleita por todos eles. A heterogeneidade existente entre os surdos brasileiros fica clara em nossa pesquisa. Tantos embates de sentido apenas se configuram porque eles discordam entre si sobre o melhor modo de vida. Mas nos momentos de elaboração de políticas públicas apenas um desses pontos de vista é levado em conta. Um dos comentários do Orkut define muito bem essa representação discursiva que se configurou por ocasião da promulgação da Lei nº 10.436, que reconhece a Libras como meio válido de comunicação dos surdos brasileiros:

Daniela: Olha este Decreto valeu, porém nem sequer se falou nos surdos oralizados... isso foi mal. Minha opinião é q se deve investir em centros auditivos

com toda estrutura de fonos, palestras para a família, terapias grupal...criar uma Lei para as mães de deficientes trabalharem seis horas.

A Lei nº 10.436, já regulamentada, representa, em grande parte, os interesses dos surdos sinalizados. Reconhecer uma nova língua em um país significa, primeiro, desafiar os valores monolingüístas historicamente constituídos. Segundo, iniciar um processo de consolidação dessa língua por meio de políticas públicas voltadas para a educação e a cultura. Terceiro, garantir que o acesso a bens materiais e simbólicos seja possível por meio da língua de sinais. Isso implica desconsiderar aqueles que não são usuários da língua. É claro que, em alguma medida, os surdos oralizados também se beneficiaram dela. Por exemplo, a legenda obrigatória em alguns programas e propagandas políticas traz benefícios para ambas as partes. A representação discursiva, todavia, não deixa de se revelar nesse episódio. A grande heterogeneidade existente entre os surdos faz com que essas lutas de sentido tomem lugar na Internet e é reforçada pelo papel que as associações desempenham na esfera pública.

Observamos também que os testemunhos são recursos freqüentemente acionados nas lutas por reconhecimento de maneira a se associarem a argumentos, o que os torna importantes politicamente. Tanto no site quanto no Orkut, uma de nossas categorias de análise buscou revelar essa articulação entre testemunhos e argumentos. A questão é que no site não encontramos os posicionamentos discordantes de maneira concreta e também não identificamos outros modos comunicativos, tais como a ironia, desprezo, ofensas ou jogos de linguagem. Lidamos apenas com testemunhos e argumentos publicados de maneira estática. Como no Orkut as conversações cedem espaço para a utilização dos mais diversos modos comunicativos, a partir do ponto em que os argumentos deixaram de ser justificados eles deram origem a um acirramento pouco salutar para a conversação política. Isso convocou novas provocações e contestações que pouco contribuíram para o avanço da construção de um entendimento comum ou ao menos de um terreno passível de negociações de sentido. Não só a ausência de justificativas para os posicionamentos, mas também a existência de alguns modos comunicativos estético-afetivos pouco democráticos, tais como a ironia e a ofensa, foram capazes de desestabilizar as conversações. Em todas elas houve picos de tensão, troca de ofensas e ironias. Esse é um risco das conversações que envolvem temas ligados a questões sensíveis como identidades e luta por reconhecimento (CONOVER et al., 2002). Na conversação “Vergonha Surdo” essa discussão durou cerca de dois anos, e a discórdia se manteve ao longo do tempo, com argumentos e provocações repetidas. Já no tópico “Oralização”, que durou cerca de dois meses, a discórdia revelada em alguns momentos agonísticos deu lugar a uma conversa amena que incluía assuntos como bares e receitas

culinárias. Apenas no debate “Como fico numa reunião de ouvintes”, conversação mais curta, o dissenso foi dissolvido e a conversação retomou a troca de opiniões de maneira amena. Isso evidencia também o quão imprevisível são os rumos das conversações (MANSBRIDGE, 1999; DAHBERG, 2005).

Outro ponto a ser considerado nas nossas análises é o exame da recorrência de lutas por reconhecimento nos três âmbitos. Ao elegermos a luta por reconhecimento como nosso marco teórico orientador, também assumimos o risco da sua abstração e da sua dificuldade de estabelecer análises empíricas, principalmente no que diz respeito à distinção feita por Honneth entre as esferas íntima, social e legal. Embora seja possível identificar que os participantes discorrem sobre assuntos que percorrem os três âmbitos, a separação deles para fins analíticos se mostra complexa e difícil. Por outro lado, isso demonstra que os âmbitos estão fortemente conectados e se influenciam mutuamente. Nas análises, podemos ver que a questão do reconhecimento da surdez como definidora de identidades e culturas perpassa a esfera íntima, o âmbito legal e o social de maneira bastante intrincada e de difícil separação. Em alguns momentos, um ou outro âmbito se destaca. Entretanto, optamos por não sistematizar essa análise separadamente para dar a ver que os três âmbitos se entrelaçam ao longo da luta por reconhecimento. Isso não invalida a nossa análise, pois demonstra exatamente o quão complexa é a luta por reconhecimento e que ela não deve se restringir a apenas um âmbito. Os sujeitos plena e idealmente realizados são aqueles que atingem reconhecimento nos três âmbitos.

Considerações finais

Ao iniciarmos essa pesquisa, tínhamos em mente algumas questões que brotaram da pesquisa de conclusão da graduação (GARCÊZ, 2004), além de outras que surgiram a partir de uma vivência próxima das associações de surdos. Primeiro, para nós, era inquestionável que a Teoria do Reconhecimento pudesse fornecer bases sólidas para a explicação de conflitos advindos das questões de identidade, especialmente no caso dos surdos. As obras de Axel Honneth (2003) e Charles Taylor (1992) nos levavam à percepção de questões relevantes, tais como o caráter intersubjetivo das lutas, a divisão desta nos três âmbitos – íntimo, legal e da estima social – e a consideração de uma evolução social via luta por reconhecimento. Tudo isso fornece um rico aparato conceitual para entendermos não apenas a dimensão que afeta as identidades dos sujeitos como também a inter-relação destas com o meio social.

Além disso, as injustiças simbólicas vividas pelos surdos cotidianamente, e mais especificamente por aqueles que escolheram como modo de vida a língua de sinais, nos parecia um objeto de pesquisa extremamente relevante. Explicar o modo como essas questões se configuram, como os atores políticos dessas lutas se posicionam e as bases valorativas dessas injustiças simbólicas nos motivava a debruçarmo-nos sobre esse trabalho.

A vivência sobre a questão, somada ao aparato conceitual fundante da nossa pesquisa, forneceu bases para identificarmos na Internet um espaço onde se configuram essas lutas. Visitas descompromissadas aos debates do Orkut conduziram-nos a uma inquietação sobre as formas como se desenvolviam aqueles debates e o quão frutíferos eles eram na revelação de sentidos distintos acerca da surdez. Depois de escolhido o nosso material empírico de análise, ainda havia a percepção de uma lacuna empírico-conceitual. A informalidade dos sites de relacionamento não deixava transparecer, na maioria das vezes, as pretensões normativas da luta por reconhecimento. Havia o conhecimento dessas pretensões, mas elas não pareciam evidentes no Orkut. A escolha pela análise do site da Feneis foi, dessa maneira, uma forma de evidenciar esse caráter mais amplo da Teoria do Reconhecimento. Além disso, o papel das associações de surdos está intrinsecamente ligado a essa luta, dado o contexto histórico de atuação dessas instituições. Entendemos que a escolha pelos dois ambientes virtuais distintos nos proporcionou uma rica comparação dos modos de acionamento das histórias de vida. Isso se deve não apenas ao fato de haver uma voz associativa de um lado e uma pluralidade de vozes do outro. O próprio formato dos ambientes influencia na maneira como os conteúdos e discursos são produzidos. É uma espécie de moldura que acomoda – mas não define totalmente – os conteúdos expressos nos vários meios de comunicação.

Uma análise primeira do nosso material revelou a recorrência das histórias de vida, acionadas nos contextos de luta por reconhecimento. Dessa maneira, optamos por investigar essas lutas tendo em vista o lugar dos testemunhos nessa dinâmica. Desenvolvemos, assim, o nosso problema buscando entender de que maneira os testemunhos revelam premissas de bem viver e questionam valores tacitamente incrustados em sociedade, elementos essenciais das lutas por reconhecimento. Nosso olhar foi guiado sempre por uma perspectiva relacional que buscasse evidenciar não apenas o lugar dos surdos que defendem a língua de sinais, mas também a sua relação com o “outro”, representante desses valores auto-evidentes. A perspectiva da interação nos conduz à dinâmica intersubjetiva da luta por reconhecimento, em vez de nos prender ao olhar apenas daqueles que lutam. Mesmo em relação às associações, onde as vozes são mais homogêneas, fizemos questão de evidenciar esse aspecto relacional, haja vista que o funcionamento interno destas é complexo, heterogêneo e dinâmico (MELLUCI, 1996). A própria constituição das identidades coletivas requer considerar as relações que vinculam os sujeitos a um determinado grupo. Assim, a perspectiva relacional se configura dentro e fora das associações, nas lutas por reconhecimento e nos ambientes dentro e fora da Internet.

No decorrer da pesquisa, esse olhar para as interações nos trouxe alguns desafios. O primeiro deles foi o manuseio do material extraído do Orkut. Por serem as conversações excessivamente desordenadas, analisá-las em seu conjunto se mostrou uma difícil tarefa. Nem sempre os comentários diziam respeito à questão colocada, muitas vezes brincadeiras entrecortavam o assunto, havia o surgimento de um ou mais assuntos paralelos, alguns comentários resgatavam outros posicionamentos antigos, publicados bem no começo, dentre outras dificuldades. Entretanto, não bastava olhar para os testemunhos isoladamente, mas sim em relação aos contextos de produção destes. Por isso, optamos por analisar as conversações no seu conjunto e só então analisar os testemunhos um a um.

Outra dificuldade foi a sistematização da análise em relação aos três âmbitos propostos por Honneth (2003) – íntimo, legal e social. Às vezes, a identificação de luta por reconhecimento em um âmbito surgia atrelada a outro âmbito, como no caso de Robson, que contesta a opinião da mãe Aline sobre o oralismo. Ao mesmo tempo que ele alerta para uma situação de ineficácia da oralização que acontece na infância, por responsabilidade ou falta de conhecimento dos pais, busca estima social para a língua de sinais. As relações primárias, estabelecidas na infância, são fortemente guiadas pelas relações sociais mais gerais e por uma hierarquia de valores preconcebida e anterior ao nascimento das crianças. Dessa maneira, o não-reconhecimento da surdez como definidora de uma cultura é desenhado socialmente e

reproduzido no âmbito doméstico. Os âmbitos do reconhecimento estão intrinsecamente ligados. Para fins didáticos, é importante ter ciência desses âmbitos e olhar para lutas por reconhecimento com esse horizonte. Poderíamos optar por investigar a luta por reconhecimento âmbito a âmbito, separadamente. Entretanto, optamos por uma categorização que demonstrasse o valor dos testemunhos, que é o nosso objetivo de pesquisa. Deixamos a questão dos âmbitos de reconhecimento para ser identificada ao longo das análises.

Dessa maneira, ao longo da pesquisa, identificamos as seguintes funções para os testemunhos: a) explicitação de premissas de fundo; b) intercâmbio de narrativas; c) articulação entre argumentos e testemunhos; d) presença em debates controversos; e e) promoção de aprendizado coletivo. A primeira e grande função desses testemunhos era evidenciar valores contra os quais se quer lutar e engendrar o entendimento de novas premissas. A explicitação de premissas de fundo foi uma categoria bastante abrangente que nos possibilitou articular pares de sentido, sempre com o intuito de demonstrar, de um lado, o entendimento que os surdos sinalizados têm de determinada questão, e, de outro, o sentido