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2.5 Comportement m´ecanique du b´eton

2.5.1 Pr´eambule : observer de pr`es ou de loin ?

Agora que já delimitamos, empírica e teoricamente, o que entendemos por testemunhos, vamos discutir quais as suas principais funções políticas. Segundo Íris Young (1996, 2002),45 contar histórias de vida em contextos de discussão política, formais ou informais, é uma forma de comunicação relevante, pois “oferece meios pelos quais pessoas, cujas experiências e crenças diferem tanto que elas não compartilham premissas suficientes para se engajarem em um frutífero debate, possam ainda assim alcançar o entendimento dialógico” (YOUNG, 2002, p. 53, tradução nossa). A não consideração de posicionamentos em um debate, ou seja, a exclusão de pontos de vista, pode ocorrer exatamente porque os participantes de um público político não compartilham suficientemente de alguns entendimentos e valores. Assim, algumas experiências podem ser mal-entendidas, desvalorizadas ou subestimadas. Nessas situações, segundo Young, argumentos isolados pouco podem fazer para garantir a consideração de determinada voz pública. Até mesmo os outros modos de expressão e narrativa, que não os argumentos propriamente ditos, são

45 Young (1996, 2002) propõe maior inclusividade nas discussões políticas por meio da consideração de três formas comunicativas menos exigentes que o argumento, mas profundamente enraizadas nas conversações cotidianas: greeting (saudações), retórica e testemunhos de vida. Importante salientar que ela não exclui a relevância do argumento nessas discussões, apenas aponta formas alternativas e complementares de comunicação que podem enriquecer a discussão política. As saudações funcionariam como um convite ao debate e um reconhecimento de que o outro é merecedor de atenção. Isso levaria a maior confiança daqueles outrora excluídos de que seus posicionamentos podem ser considerados em igual medida. A segunda forma de comunicação seria a retórica, que inclui a linguagem figurativa, a emoção e expressões pouco usuais. A retórica – criticada pelos deliberacionistas por seu aspecto mais estratégico e menos racional – cumpre a função de chamar a atenção para determinados assuntos, engaja audiências e motiva o estabelecimento de julgamentos sobre os resultados da deliberação.

desconsiderados ou vistos com maus olhos, apesar de terem importante função de criar entendimentos entre os membros de uma comunidade política com muitas experiências ou suposições diferentes sobre o que é importante.

A narrativa política, entretanto, difere de outros tipos de narrativa, pois não é contada com fins de divertimento ou revelação, mas para demonstrar, descrever, explicar ou justificar alguma coisa aos outros em uma discussão política contínua. Por outro lado, “abrir a deliberação a histórias de vida legitima um tipo de discurso que é emocional, engajado e baseado em particularidades da experiência” (POLLETTA, 1998a, p. 2).

Young (2002) aponta cinco benefícios do “contar histórias” nas discussões políticas. O primeiro deles é a possibilidade de dar voz àqueles que sofrem injustiças, mas que não encontram formas de expressarem seu sofrimento. “As narrativas são freqüentemente uma ponte em tais casos entre a experiência silenciosa de estar injustiçado e argumentos políticos sobre justiça” (p. 72). Dessa maneira, os sujeitos relatam o senso de justiça publicamente, e a partir da narrativa pode haver o desenvolvimento de uma linguagem normativa que nomeia essa injustiça, a conecta a outros casos e estabelece padrões generalizáveis e busca por soluções coletivas. A segunda vantagem é a articulação de afinidades coletivas. Como dito, os membros da coletividade podem identificar-se com outros que passam pelos mesmos constrangimentos. Young (2002) chama isso de intercâmbio de narrativas, onde as pessoas explicam suas identidades e usam as biografias como meio de politizar situações, refletindo sobre o ponto em que convergem suas experiências, qual a semelhança dos problemas experienciados e quais as soluções que podem ser encontradas coletivamente. Além disso, contar histórias é, freqüentemente, o único meio para entender experiências particulares não compartilhadas anteriormente. “O testemunho freqüentemente provê uma resposta a pessoas que duvidam da legitimidade da reivindicação da necessidade ou direito” (p. 74). A autora faz questão de enfatizar que as narrativas, por si sós, não garantem legitimidade a determinada reivindicação. Apenas servem como meio para compartilhar experiências, necessidades, projetos ou problemas. Argumentos normativos gerais não devem ser preteridos em nome dos testemunhos de vida, pois são eles os responsáveis pelo processamento de questões éticas enraizadas no cotidiano das pessoas, por sustentarem determinadas reivindicações de justiça e assegurarem que elas sejam explicitadas. Outra função das narrativas é revelar a origem dos valores, das prioridades e dos significados culturais. Sendo assim, elas podem servir para explicar por que determinados símbolos e práticas têm valor para algumas pessoas e não para outras. Por fim, os testemunhos podem auxiliar na construção de um conhecimento social mais amplo, que promova mudanças de entendimento acerca de determinadas perspectivas.

As narrativas exibem conhecimentos localizados, e a combinação dessas narrativas pode produzir um conhecimento alargado sobre o outro.

Alguns autores (BENHABIB, 1996, HABERMAS, 1982, 1997; DRYZEK, 2000) afirmam que apenas por meio da força do melhor argumento é possível fazer distinções entre discursos falsos e verdadeiros e entre manipulação e consenso racional. Por exemplo, as narrativas podem ser falsas ou podem levar a estereótipos. Geralmente, esses autores fazem uma crítica não especificamente ao testemunho, mas a todas as formas alternativas de comunicação propostas por Young (1996, 2002). Seyla Benhabib (1996), por exemplo, defende que apenas podemos fazer essas distinções se aplicarmos alguns padrões de justiça e imparcialidade para julgar a maneira pela qual as opiniões foram levadas em conta, ou seja, por meio da linguagem pública das instituições e legislaturas. Ela diz que esses modos de comunicação – greeting, retórica e testemunho – são irracionais, arbitrários, superficiais e passíveis de serem estrategicamente manipulados a fim de conquistarem o consentimento do outro sem passarem pelo crivo da razão. Benhabib (1996) defende que apenas o argumento racional contribui para a deliberação e que as três formas de comunicação são opostas ao modelo normativo calcado na racionalidade.

A questão é que Young (1996, 2002) não propõe uma oposição entre argumento e formas comunicativas cotidianas, conforme destaca Benhabib. Ao contrário, ela enfatiza a relevância de uma conjugação entre ambos e a impossibilidade de substituir a normatividade que deve reger os debates públicos. Razões aceitas publicamente são capazes de “desbancar” mentiras e manipulações. Portanto, Young (2002) não propõe uma contraposição entre argumento e outras formas de comunicação, mas, ao considerar uma complementação de um pelo outro, a autora dá a entender que há uma dissociação entre essas formas de comunicação, o que não é verdade.

Acreditamos que tanto o argumento quanto o testemunho estão presentes em vários tipos de discurso e portanto também nas interações cotidianas. Como a nossa pesquisa trata de discursos das associações – enraizados no cotidiano das pessoas – e conversações políticas do Orkut, que se manifestam de maneira espontânea e descompromissada, entendemos que decompor os discursos em argumentos, testemunhos, retóricas, dentre outras formas comunicativas é por demais difícil e impreciso. A conversação cotidiana política utiliza vários elementos comunicativos de forma emaranhada, sem uma preocupação com as finalidades políticas decisórias e de influência.

Dryzek (2000) acredita que até mesmo os argumentos podem contar com elementos que envolvem coerção e que não são capazes de conectar o particular ao geral. O autor propõe

um teste para avaliar se determinadas formas de comunicação cotidianas, especialmente aquelas descritas por Young (1996), podem ou não representar um risco para a discussão pública. Ele parte do pressuposto de que essas e outras formas de comunicação, incluindo aí a argumentação, não se excluem mutuamente e podem coexistir em um cenário discursivo, mas podem representar perigos. O teste proposto pelo autor avalia uma a uma as formas de comunicação – greeting, retórica, narrativas e argumentos –, testando se elas contemplam os critérios da não coerção e da conexão entre o particular e o geral. No caso dos testemunhos, eles podem ser formas de comunicação coercivas quando o grupo não aceita determinada história de vida que não confirme os anseios desse grupo. Quando Young (1996, 2002) aponta para uma conexão de narrativas de modo a buscar soluções para problemas comuns e delinear identidades, pode ser que aquela história de vida destoante do grupo seja rejeitada e/ou o indivíduo punido. Ao passar pelo critério da generalização de particularidades, as narrativas também revelam que podem ser pouco politizadas e quase nada passíveis de generalização. Determinada história pode dizer respeito apenas ao indivíduo que a conta, não sendo de maneira nenhuma politizável. Para Dryzek (2000), uma história sobre uma repressão particular apenas irá envolver o outro se houver um apelo aos padrões universalizáveis. Determinadas histórias devem ser ouvidas porque dizem respeito a profundas violações dos padrões gerais de dignidade humana resumidas em uma particularidade, mas que se conectam ao outro por meio da questão da dignidade. Por outro lado, elas não devem ser contadas para incitarem o ódio ou a vingança nos seus ouvintes.

Em consonância com o pensamento de Young e Polletta, Laura Black (2008) 46 reforça o papel das narrativas na negociação de identidades que se dão em momentos de diálogos. “Contar histórias ajuda os participantes a solidificar e manifestar suas identidades em relação ao outro e também os habilita a imaginar e apreciar a outra perspectiva” (BLACK, 2008, p. 95-96). Isso permite aos parceiros de interação negociarem as tensões identitárias de modo a buscarem reconhecimento ou a conectarem experiências parecidas. As histórias de vida e as identidades, para Black (2008), perfazem uma relação dialética em que as pessoas constroem seu senso de quem são por meio do contar histórias aos outros sobre suas experiências e de ouvir suas histórias. Assim, para Black, duas são as funções das narrativas na deliberação: conhecer novas perspectivas de vida e negociar identidades.

46 A autora faz uma distinção entre diálogo e deliberação, sendo que o primeiro se dá de maneira espontânea e sem fins determinados, enquanto a deliberação é planejada e estruturada. Seu texto reflete o esforço de aproximar as duas concepções de maneira a incluir o diálogo na deliberação. No nosso entendimento, a concepção de diálogo já está implícita na de deliberação, pois, conforme Gutman e Thompson (1996), o desenrolar das deliberações é incerto e indefinido, e certamente incorpora manifestações espontâneas, tais como o diálogo.