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Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 94-99)

As primeiras práticas de lazer promovidas pelas proximidades entre as pessoas, como no caso da mobilidade dos trabalhadores das olarias e propriedades agrícolas, fizeram surgir, no Baixo Paranaíba Goiano, os primeiros sujeitos sociais sensibilizados com o lazer. Nesse processo, os espaços foram se tornando turísticos, devido às redes sociais locais definidas pela amizade e parentesco, que foram divulgando os atrativos pelo boca a boca e logo demarcando os espaços de lazer e entretenimento de cada grupo social em determinado lugar eleito. Apesar de reconhecer a importância das iniciativas de lazer desses sujeitos sociais para o turismo regional, somente, após a criação da Praia Artificial na cidade de São Simão e da privatização das águas quentes em Lagoa Santa, surgiram os primeiros órgãos públicos dessa atividade na microrregião quirinopolina, contribuindo para a expansão do processo de sensibilização das comunidades regionais que começaram a perceber o potencial turístico de suas cidades. No contexto das grandes obras públicas houve o fortalecimento das redes sociais locais com uso de meios de comunicação mais modernos, como a internet, emissoras de rádio e televisão.

É importante ressaltar as transformações espaciais que ocorreram nos municípios, especialmente, em São Simão e em Lagoa Santa, que conseguiram atrair novos sujeitos sensibilizados com as oportunidades geradas pela inserção do turismo nesses contextos locais, criando conexões que deram vida aos lugares, novas lideranças envolvidas com as atividades turísticas, tanto no setor público como no privado.

Nesse contexto, é fundamental compreender como o poder central tem se posicionado nessas novas áreas interioranas e como as novas políticas têm criado as redes sociais e parcerias da atualidade e como essa sociabilidade vem ocorrendo entre os sujeitos públicos, privados e comunidade em geral.

É preciso entender, de fato, como a microrregião quirinopolina está sendo contemplada pelo projeto de regionalização do Ministério do Turismo. Há que se considerar a rede urbana

atual e a oferta de equipamentos e serviços, a mão de obra disponibilizada, os órgãos de administração pública local diretamente ligada à atividade turística, bem como as sociabilidades forçadas pelas atuais propostas do poder central. Para Carlos (1996, p.26), essa produção espacial realiza-se no plano do cotidiano e aparece nas formas de apropriação, utilização e ocupação de um determinado lugar, num momento específico e revela-se pelo uso como produto da divisão social e técnica do trabalho que produz uma morfologia espacial fragmentada e hierarquizada.

Uma vez que cada sujeito se situa num espaço, o lugar permite pensar o trabalho, o lazer e o turismo como situações vividas, revelando, no cotidiano, os conflitos da modernidade. Então, o lugar é o mundo do vivido, onde se formulam os problemas da produção no sentido amplo. Isto posto, para compreender como as pessoas operam o turismo em diferentes lugares do Baixo Paranaíba Goiano é preciso analisar como esses heterogêneos espaços repletos de sujeitos sociais se redefinem “pelo estabelecimento e/ou aprofundamento de suas relações numa rede de lugares (CARLOS, 1996, p.28)” e se esses poderão reproduzir uma articulação regional.

Primeiramente, como afirma Gomes (2008, p.42-44), as redes têm por finalidade aproximar os agentes, estimulando-os a trocar informações, reduzindo a incerteza e a assimetria de informações. Na mesma vertente conceitual, a rede é vista como “um conjunto de linhas de comunicação, interligadas de modo que uma mensagem recebida possa transitar por essas linhas, canais de comunicação, para que, partindo de um ponto de origem, chegue a seu destino (BRIZOLLA, LIMA, 2008, p.116)”.

Segundo Haesbaert (2002, p.132), a estrutura social em rede pode atuar tanto como um elemento fortalecedor do território quanto como um componente fundamental na promoção da desterritorialização. Sob esse prisma, Raffestin (1993, p.150) compreende que:

A partir de uma representação, os atores vão proceder à repartição das superfícies, à implantação de nós e à construção de redes. É o que se poderia chamar de essencial visível das práticas espaciais, ainda que as malhas, nós e redes não sejam sempre diretamente observáveis, pois podem pura e simplesmente estar ligados a decisões. Mesmo que não sejam discerníveis, têm uma existência com a qual é preciso contar, pois intervêm nas estratégias (RAFFESTIN, 1993, p. 150).

Haesbaert (2002, p.121-122) associa o surgimento das redes ao capitalismo, para explicar determinadas formas espaciais disseminadas pelo novo sistema: redes de transporte cada vez mais articuladas, vários tipos de redes dentro das cidades (metrô, bondes, água, esgoto), diversas redes técnicas construídas para destruir e reordenar territórios. Por conseguinte, a sociedade moderna foi se tornando cada vez mais “resificada” ou reticulada, quer dizer, transformada pelos fluxos cada vez mais dinâmicos, marcados pela velocidade crescente dos

deslocamentos, passando de um mundo “tradicional” introvertido para um “moderno” mais extrovertido e globalizado.

Santos (1996, p. 16-19) cita que as redes constituem uma realidade nova que, de alguma maneira, mas além das redes, antes das redes, apesar das redes, depois das redes, com as redes, há o espaço banal, o espaço de todos, porque as redes constituem apenas uma parte do espaço e o espaço de alguns e, desse modo, pensando os territórios turísticos, hoje, esses podem ser formados de lugares contíguos e de lugares em rede. Nesse sentido:

Las particularidades del enfoque geográfico parten de asociar redes y territorios, y sensibilizarnos aumentando nuestra capacidad para la interpretación de los procesos socio-territoriales. Las lineas de trabajo futuras, tendram que orientarse tanto a la búsqueda de indicadores específicos, como a profundizar los aspectos teóricos (CARA, 1996, p.74).

No mesmo leque contextual, fica registrado que as redes “de informações globais da mídia, apoiadas em satélites artificiais, também atuam pela internacionalização de todos os lugares, na Terra e no Espaço (GEIGER, 1996, p. 242)”. Segundo Carlos (1996, p.34), os lugares na era das redes trazem a ideia de que os novos processos de produção e de troca se dão hoje de outra forma no espaço num momento em que as vias de transporte e de comunicação mudam radicalmente sua configuração, que não passam somente pelas rotas terrestres tradicionais, mas, cada vez mais, aéreas e por via satélites.

Essa discussão do termo rede está incorporada ao Programa de Regionalização do Turismo (Roteiros do Brasil) e, para o Ministério do Turismo (2004, p.54), as redes de empresas do setor ou as famílias envolvidas no processo representam formas organizadas de produção grupal, articuladas entre si, com os demais sujeitos sociais da cadeia produtiva e com o setor governamental.

Um dos objetivos do trabalho em rede, segundo o órgão estatal, é realizar atividades comuns, a fim de conseguir melhor produtividade, redução de custos, acesso a inovações tecnológicas e aos novos mercados, maior poder de negociação e barganha, troca de experiências e de informações. Esse nó regional ou interregional permite ainda aumentar a competitividade dos produtos turísticos gerados por meio da articulação entre seus membros e um redirecionamento das estratégias de promoção e venda dos produtos.

De acordo com o Ministério do Turismo (2004, p.54), uma rede possibilita promover o desenvolvimento da atividade turística, desenvolver pesquisas e estudos, estabelecer interlocução política, facilitar o acompanhamento, avaliação e monitoria do processo de regionalização, realizar ações de captação, prestar serviços, captar recurso, valorizar os produtos turísticos regionais. E ainda consolidar suas marcas e facilitar sua comercialização,

subsidiando o desenvolvimento de novos roteiros, destinos e produtos turísticos e melhorando o padrão de qualidade dos roteiros, destinos e produtos.

Para o Ministério, a elaboração de projetos específicos para a formação de redes poderá ficar a cargo de consultorias, sob a coordenação da instância de governança regional. Como resultado desse trabalho, espera-se que sejam produzidos instrumentos de articulação entre os integrantes da rede e desta com outras similares, nas diversas regiões do Estado e do país. Na linha do órgão estatal, o que se pode concluir, é que as redes entre os sujeitos locais são essenciais, pois os produtos turísticos para serem ofertados, requerem, necessariamente, a articulação de diversos agentes, e dificilmente um turista visita uma região turística em função de uma única organização, discurso que força uma sociabilidade regional.

Segundo Gomes (2008, p.47-48), essa articulação poderá possibilitar aos sujeitos sociais de uma região turística benefícios, como um produto turístico diferenciado e mais competitivo, pois resultará da junção das potencialidades de cada organização, maior tempo de permanência do turista na região, maior poder para negociar com as operadoras de turismo e agências de viagens. É fundamental também para dar aos sujeitos do lugar maior poder para defender seus interesses junto à administração pública, compra de equipamentos e redução das incertezas, pois partilharão experiências e conhecimentos.

Utilizando as palavras de Santos, pode-se afirmar que a atual proposta estatal de regionalização do turismo fundamenta-se no que ele chama de acontecer complementar “aquele das relações entre cidades e campo e das relações entre cidades, consequência igualmente de necessidades modernas da produção e do intercâmbio geograficamente próximo (SANTOS, 1996, p.17)”. Ao longo da história, é a informação que vai ganhando essa função, para ser hoje o verdadeiro instrumento de união entre as diversas partes do regional. Como no mundo contemporâneo vive-se concomitantemente uma multiplicidade de escalas, numa simultaneidade atroz de eventos, vivenciam-se, também, ao mesmo tempo, múltiplos territórios. Ora somos requisitados a nos posicionar perante uma determinada territorialidade, ora perante outra, como se os marcos de referência e controle espaciais fossem perpassados por múltiplas escalas de poder e identidade. Isso resulta numa realidade multiterritorial que se traduz em novas concepções, com os termos hibridismo e glocal, significando que os níveis global e local podem estar quase inteiramente confundidos. Dessa interação, surge e avança, cada vez mais, o uso do termo rede, que contribui para compreender as articulações e sociabilidades entre os diferentes lugares bem como suas estruturações internas (HAESBAERT, 2002, p.121).

Para os autores citados, a organização em rede tem enorme poder de promover a divulgação de informações e a troca de experiências de forma descentralizada, ou seja, vai ao encontro do documento teórico de turismo proposto pelo Ministério brasileiro da atividade. Essa estrutura e sua forma de organização induzem à colaboração, à cooperação, ao trabalho conjunto, à gestão compartilhada e à ação autônoma individual integrada a uma visão coletiva. A rigor, essa rede só funcionará se a política municipal de turismo estiver atrelada aos governos estadual e nacional.

Para Seabra (2007, p.35), os sujeitos sociais devem identificar seus próprios objetivos, desejos e atividades que refletem a realidade vivida, pois sem a participação dos moradores nas diversas fases de planejamento e execução de planos turísticos, aumentam as chances de prejuízos econômicos e perda da identidade cultural causados pela imposição dos padrões econômicos globais. A preocupação com espaço vivido coloca, no centro, a análise do lugar, pois é ele que se relaciona à existência real e à experiência vivida pelos sujeitos sociais envolvidos com as redes de turismo, que podem estimular a incorporação de novas atividades no espaço regional.

No contexto do turismo, os nós são iniciativas voltadas para o desenvolvimento da cultura associativa e participativa, muitas vezes, já existentes na comunidade, embora nem sempre percebidas pelos poderes públicos. Seu maior desafio é fortalecer a capacidade de relacionamento do ser humano com seus semelhantes, pois, na prática, o objetivo da rede para o turismo é fazer com que seus integrantes consigam a conexão entre os espaços turísticos. Segundo Beni (2003, p.57), essas espacialidades são resultadas da presença e distribuição territorial dos atrativos turísticos que são a matéria prima da atividade.

De acordo com Beni (2003, p. 102) aos órgãos públicos de turismo federal cabem a formulação das diretrizes e coordenação dos planos de âmbito nacional e internacional e aos órgãos estaduais e locais, cabem, com o apoio federal, a concepção dos programas e a execução nas escalas locais e regionais. Para Yázigi (1998, p.131), a falta de atrelamento entre as políticas municipais e as do Estado causa, efetivamente, transtornos quanto as metas a serem atingidas. A inexistência de ambas ou de uma das partes pode também ser motivo de casuísmos, pois o pessoal, a troca de favores políticos entre as partes e mesmo o conflito de interesses sobrepujam o interesse comunitário.

Para estudar as redes regionais e a sua relevância na criação de novas regiões turísticas, eis duas questões importantes: é fundamental verificar onde elas estão na área de estudo e como os lugares existem nessas conexões. E se existe no Baixo Vale Paranaíba Goiano, “uma forma de articulação que permite os distintos sujeitos sociais a trabalhar em conjunto e de

modo organizado, incluindo laços, relações de troca e articulações baseadas no interesse comum que, em muitos casos, se estende além dos laços formais estabelecidos (BRIZOLLA, LIMA, 2008, p.116)”.

Assim, neste capítulo, apoiamo-nos na proposição de que para compreender as questões espaciais do interior de Goiás em relação às políticas públicas de regionalização do turismo, não basta apenas entender que nesses lugares existem as redes locais, potencialidades turísticas e o agronegócio. É preciso considerar que existe um sistema circulatório nos diferentes lugares que formam essas cidades e que a proposta de regionalização do turismo deverá romper com essa hierarquia. Nesta perspectiva, cabe problematizar: quem e como se organizam os lugares que formam os pequenos espaços urbanos da microrregião quirinopolina para o turismo?

Será importante conhecer a rede urbana regional e quem são os sujeitos sociais locais sensibilizados que estão inseridos nessas cidades e se estes estão comprometidos com a rede regional. São as organizações sociais, nas comunidades locais, que conhecem os contextos ambientais, históricos e culturais dos municípios, desse modo, é salutar priorizar os indivíduos com forte enraizamentos identitários e vínculos com as paisagens do cerrado e dialogar com eles.

3.2. PEQUENAS CIDADES COM SERVIÇOS E OFERTA TÉCNICA PARA FAZER

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