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Summary and Contributions

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3.9 Summary and Contributions

De modo geral, as Ciências Biológicas definem os seres vivos como qualquer organismo que tenha uma função própria da vida, como reprodução, nutrição e consumo de energia (REECE et al., 2015). Desse modo, os animais, as plantas, os seres humanos, as bactérias, os fungos, entre outros organismos que apresentam as características antes citadas, são chamados de seres vivos.

Esses seres vivos passam por diversas fases, durante a sua existência, que constituem o seu ciclo vital: eles nascem, crescem, se reproduzem e morrem (REECE et al., 2015). São essas transformações pelas quais passam os seres que possuem vida, que asseguram a sua continuidade. Baseados nessas noções advindas do conhecimento da Biologia, inferimos, na

ocorrência (13), encontrada numa carta de D. Pedro I enviada à Marquesa de Santos, a metáfora conceptual AMOR É ORGANISMO VIVO:

(13) [...] o amor que eu tenho86 nasce do fundo da alma, e assim com um outro igual é que pode ser pago metade de tudo. (D. Pedro I, 04/05/1824)

Nessa ocorrência, o amor é compreendido em termos de um organismo vivo, porém, não fica claro se tratar de uma planta, de um ser humano ou de outro animal, isso porque, nem todas as características do conhecimento do domínio-fonte são projetadas no domínio-alvo. No trecho “o amor que eu tenho nasce do fundo da alma”, quando o escrevente fala do amor que sente por sua amada, ele enfatiza um aspecto do ciclo vital dos seres vivos, qual seja, o nascimento.

A concepção de amor como organismo vivo, em (13), é estruturada pelos esquemas-I PARTE-TODO e RECIPIENTE, porque o nascimento é partedo ciclo vital de um ser vivo, que, no caso em tela, tem sua origem no “fundo da alma”. Ainda é possível observar que a expressão linguística em destaque permite a compreensão de uma coisa dentro de outra, o amor dentro do coração, que remete ao esquema-I RECIPIENTE.

A compreensão do amor como organismo vivo é instanciada em, apenas, uma carta de D. Pedro I enviada à Marquesa de Santos, não aparecendo nem no século subsequente, nem nas cartas das escreventes.

3.1.1.1 Domínio Específico do SER HUMANO

Encontramos, ainda, nos corpora, o amor compreendido a partir de particularidades dos seres vivos, mais especificamente, de seres humanos, sendo, portanto, personificado pelo escrevente. Segundo Lakoff e Johnson (2002 [1980]), a personificação é um tipo de metáfora ontológica, em que objetos físicos são concebidos com traços parecidos àqueles de uma pessoa. No caso, o amor não é um objeto físico, mas, nas cartas, ele é personificado em alguns contextos.

Encontramos, nas correspondências, processos de personificação decorrentes da metáfora ontológica. Neles, o domínio-alvo, o amor, é compreendido como uma pessoa, ativando características próprias dos seres humanos, tendo, assim, a conceptualização

metafórica AMOR É SER HUMANO, inter-relacionada a mais geral AMOR É ORGANISMO VIVO, conforme os exemplos a seguir:

(14) Tu não ignoras o que é o amor e o que é ciúme, e neste ponto é só o amor quem fala, pois no ciúme não toco porque comto contigo assim como tu contas comigo. (D. Pedro I, 04/05/1827)

(15) Meu amor seja um pouco razoável | creia um pouco mais em meu amor,87

| este amor que o meu pobre coração te dedicou88, | e que tanto sofre89,

em ter criado o amor mais | belo que há neste mundo, e no entanto | não cres nele tanto, quanto ele cre em ti. (Jayme, 19/01/1937)

(16) Mas tudo que facam minha querida, não | faz esquecer-me de ti, pelo contrario, fazemme | gostar90 cada vez mais de ti, sonho, penso | sofro

tudo enfim, mais meu amor é fiel, dedica- | se91 somente a ti, a mulher

que mais | sofreu neste mundo pelo amor92 [...]. (Jayme, 13/02/1937)

(17) Eu não mezango com | voçe nei presizavas pedir pela | carta o meu amor93 e sego. | eu sei perfeitamente que teis | sofrido94 muito por minha causa |

mais tenha fé em Deus e | na N. Senhora. (Maria, 21/01/1937)

As ocorrências (14) a (17) sugeriu-nos a personificação do amor, a qual foi acionado através do uso dos verbos ‘falar’ e ‘crer’ e dos adjetivos ‘fiel’ e ‘cego’. Em (14), ocorre uma personificação decorrente do ato de falar para conceptualizar o amor (“só o amor quem fala”). Do mesmo modo, em (15), o verbo ‘crer’ atribui ao amor a faculdade humana de acreditar (“ele [o amor] cre em ti”). Também, em (16), Jayme se refere ao amor como uma pessoa que é fiel a outra (“meu amor é fiel”), assumindo, assim, um compromisso ou vínculo de fidelidade com a pessoa amada. Da mesma forma, em (17), mais uma vez, o amor é conceptualizado como ser humano, de modo que se projetam conhecimentos a propósito da incapacidade de enxergar, conforme demonstra a expressão linguística “meu amor e sego”. Desse modo, a partir desses trechos, percebemos a projeção de conhecimentos acerca da crença, da fidelidade, da habilidade de falar e da privação da visão, que são específicos dos seres humanos, no amor.

A partir dos contextos apresentados, observamos que, o esquema-I PARTE-TODO ancora a conceptualização AMOR É SER HUMANO, em todas as ocorrências, sendo que, em

87 Discutimos o domínio OBJETO POSSUÍDO na seção 3.1.2.1.

88 Discutimos o domínio do OBJETO DE DEDICAÇÃO na seção 3.1.5.2. 89 Discutimos o domínio do SOFRIMENTO na seção 3.1.7.7.

90 Discutimos o domínio do GOSTAR na seção 3.1.7.6.

91 Discutimos os domínios do OBJETO POSSUÍDO e OBJETO DE DEDICAÇÃO nas seções 3.1.2.1 e 3.1.5.2,

respectivamente.

92 Discutimos o domínio do SOFRIMENTO na seção 3.1.7.7. 93 Discutimos o domínio do OBJETO POSSUÍDO na seção 3.1.2.1. 94 Discutimos o domínio do SOFRIMENTO na seção 3.1.7.7.

(15), ambos os atributos desse esquema-I são ativados, pois Jayme faz referência à faculdade de acreditar tanto por parte do amor, quanto por parte de Maria, como vemos no trecho: “Meu amor seja um pouco razoável creia um pouco mais em meu amor [...], não cres nele tanto, quanto ele cre em ti”. Em (14), (16) e (17), apenas, o atributo PARTE é ativado; em (14), ao fazer referência ao amor e ao ciúme, D. Pedro I atribui a faculdade de falar, apenas, a uma parte dos sentimentos referenciados: o amor: “neste ponto é só o amor quem fala”, o que é evidenciado pelo uso do item linguístico ‘só’. Em (16) e (17), o atributo PARTE é ativado, uma vez que, na relação, o TODO é formado pelos dois amantes; então, em (16), Jayme faz menção à fidelidade do amor que ele sente por Maria e, em (17), Maria, por sua vez, ao seu amor pelo amado. Ainda observamos que, em (15), o esquema-I EQUILÍBRIO é acionado, visto que, ao usar a locução comparativa ‘tanto quanto’, no trecho “não cres nele tanto, quanto ele cre em ti”, Jayme afirma que sua amada não acredita no amor dele na mesma proporção que seu amor (que é personificado) acredita nela.

A metáfora AMOR É SER HUMANO está presente, nos corpora, somente, na primeira metade do século XX, nas cartas dos escreventes de ambos os sexos, não aparecendo nos outros períodos. A seguir, no Quadro 8, apresentamos a síntese do que encontramos no domínio experiencial do ORGANISMO VIVO:

Quadro 8 - Síntese do domínio geral do ORGANISMO VIVO

DOMÍNIOS TIPO DE

MAPEAMENTO ESQUEMAS-I PERÍODOS

ESCREVENTES DAS CARTAS ORGANISMO VIVO Metafórico PARTE-TODO RECIPIENTE 1ª metade do

século XIX D. Pedro I

SER HUMANO Metafórico PARTE-TODO

EQUILÍBRIO

1ª metade do

século XIX D. Pedro I

1ª metade do século XX

Jayme Maria Fonte: Elaboração nossa

Após discussão do domínio do ORGANISMO VIVO, passemos para a exposição dos resultados do domínio da POSSE, na próxima seção.