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ALLIANCE Eciency Problem (AEP):

Conforme o nosso conhecimento religioso, a divindade é compreendida como qualquer objeto de culto religioso, ou seja, qualquer pessoa ou coisa que é objeto de veneração (TERRIN, 2004). O ser humano, sempre, buscou uma relação próxima com o divino, mesmo que esse divino não se apresente de forma clara e palpável, talvez, por isso, que ele o exalte e o consagre. A veneração ao sobrenatural, de alguma maneira, acompanha o ser humano, seja por um Deus ou por Deuses a quem ele devota o melhor de sua essência, seus sentimentos mais nobres, reconhecendo-os como sendo superiores aos seres humanos, logo, como divindades.

Na religião católica, por exemplo, os fiéis consagram-se à Virgem Maria, com o objetivo de encontrarem-se e unirem-se a Deus. Essa consagração consiste na entrega de tudo o que eles têm e o que eles são nas mãos da Virgem, para que possam pertencer de modo mais perfeito a Jesus. É dessa forma que acontecem as consagrações religiosas, quando os fiéis se entregam, apresentam-se e consagram-se a Deus, para que Ele aja como assim lhe agradar. É uma entrega de amor incontestável e de respeito, e, desse modo, os fiéis dedicam sua vida, seus sonhos, seus projetos, bens materiais e espirituais e, também, sua relação amorosa, que são colocadas diante de Deus para que ele os guie e os proteja.

Nos corpora, encontramos ocorrências em que o amante oferece seu amor à pessoa amada; esse amor é compreendido como objeto de oferecimento, pertencentes a dois domínios da DIVINDADE, mais específicos: o OBJETO DE CONSAGRAÇÃO e o OBJETO DE DEDICAÇÃO. Chegamos a esses domínios, partindo dos significados dos dicionários da língua portuguesa, para mostrarmos como os dois domínios se apresentam nas correspondências.

3.1.5.1 Domínio Específico do OBJETO DE CONSAGRAÇÃO

‘Consagrar’ é originário do verbo ‘sagrar’, que surge no século XIII, e significa “consagrar, dedicar a Deus, aos deuses ou ao serviço divino” (CUNHA, 2012, p. 208). Em Silva (1789) está registrada a seguinte acepção: “Fazer sagrada alguma pessoa”; Pinto (1832, p. 448) amplia esse sentido e mostra que ‘consagrar’ é “Fazer sagrada huma cousa, ou pessoa. Jurar pela hostia sagrada [...]. Dedicar”. Corroborando com esses sentidos, apresentados em dicionários dos séculos XVIII e XIX, Houaiss (2011, p. 223) traz a seguinte acepção: “Tornar sagrado, dedicando a divindade”. A partir desses significados, verificamos que consagrar é usado quando se oferece algo a Deus; no caso das cartas, o ato de oferecer o amor, é como se o amante fosse uma divindade. Nas ocorrências que seguem, coletadas dos corpora, encontramos a instanciação da metáfora AMOR É OBJETO DE CONSAGRAÇÃO:

(50) Saber da tua saúde e como passaste à noite, depois de tanto e tão gostoso excesso, é que me compele a ir cheio daquele amor130 que te consagro porque tu não mereces saber. (D. Pedro I, 13/12/1827)

(51) Que motivo haverá mais forte que me obrigou por algum tempo separar- me de minha casa. Mas senão o respeito e amor que de todo o meu coração consagro à pessoa de V. M. e por isso cheia da maior sensibilidade. (Marquesa de Santos, 12/1828)

Nessas ocorrências, observamos que, em (50), D. Pedro I dedica o seu amor à sua amada e, em (51), o é a marquesa que consagra o seu amor ao imperador. Vemos, aqui, que, da mesma forma que os fiéis se consagram a Deus e entregam-Lhe as suas vidas, D. Pedro I e a marquesa consagram um ao outro, entregando o amor que sentem um pelo outro.

Também, verificamos que alguns esquemas-I estruturam a metáfora instanciada, a partir dessas ocorrências. A ideia de trajeto encontra-se configurada por meio do esquema-I ORIGEM- PERCURSO-META, de modo que o amor percorre um caminho, partindo de um amante para o outro. Os itens linguísticos ‘cheio’, em (50), e ‘coração’, em (51), remetem ao esquema-I RECIPIENTE. Além desses esquemas, o polo PARTE do esquema-I PARTE-TODO, também, é acionado, visto que, nas duas ocorrências, é o amor de um dos amantes, que forma o casal, que é consagrado ao outro. Há, ainda, em (51), outra perspectiva desse esquema-I, no qual o objeto de consagração é formado por dois sentimentos, o respeito e o amor, logo, por duas PARTES. Importante observar que a compreensão do amor como objeto de consagração só foi identificada na correspondência dos escreventes da primeira metade do século XIX.

3.1.5.2 Domínio Específico do OBJETO DE DEDICAÇÃO

Nos corpora, também, identificamos a metáfora AMOR É OBJETO DE DEDICAÇÃO. Da mesma forma que fizemos no domínio anterior, buscamos, em dicionários, os sentidos de ‘dedicar’. No dicionário etimológico, apresenta-se uma definição sinonímica: “consagrar, destinar, votar” (CUNHA, 2012, p. 242); em Silva (1789, p. 518-519) encontramos a seguinte definição: “Offertar, e dar para o uso, e serviço da pessoa, a quem se dedica”, da mesma forma, em Pinto (1832), aparece “Offertar – dar para o uso e serviço de alguem”. Nos dicionários contemporâneos da língua portuguesa é definido como “destinar com afeição a, oferecer, ofertar” (HOUAISS, 2011, p. 260); além de “destinar ao culto de; CONSAGRAR” (AULETE, 2019). A partir dessas definições, observamos que, se relacionarmos à consagração, houve uma ampliação no sentido de ‘dedicação’. Enquanto no primeiro a dedicação é para Deus ou para os Deuses, o segundo está inter-relacionado ao divino ou não, portanto, nos corpora, a atitude de dedicar o amor, independe do recebedor, que pode ser uma divindade ou não. Vejamos as ocorrências que instanciam a referida metáfora:

(52) Minha flor já começo a sentir uma | inquietação por estares longe de mim131, e ando| um pouco triste por saber que tu não tens | confiança em

mim, eu que té dedico todo o meu | amor132, os meus momentos e tenho

tanta confiança | em ti. (Jayme, 12/01/1937)

(53) Meu amor seja um pouco razoável | creia um pouco mais em meu amor133,

| este amor que o meu pobre coração te dedicou, | e que tanto sofre134, em

ter criado o amor mais | belo que há neste mundo, e no entanto | não cres nele tanto, quanto ele cre135 em ti, (Jayme, 19/01/1937)

(54) Mas tudo que facam minha querida, não | faz esquecer-me de ti, pelo contrario, fazemme | gostar136 cada vez mais de ti, sonho, penso | sofro

tudo enfim, mais meu amor é fiel137, dedica- | se somente a ti, a mulher que mais | sofreu neste mundo pelo amor138, procurarei nos | resto de dias

de minha existencia corresponder | com o meu amor139 e o meu aféto140,

# o | amor que tanto me dedicas, portanto correspondo | a ti, a altura que tu mereces. (Jayme, 13/02/1937)

131 Discutimos o domínio da APROXIMAÇÃO na seção 3.1.6.1. 132 Discutimos o domínio do OBJETO POSSUÍDO na seção 3.1.2.1. 133 Discutimos o domínio do OBJETO POSSUÍDO na seção 3.1.2.1. 134 Discutimos o domínio do SOFRIMENTO na seção 3.1.7.7. 135 Discutimos o domínio do SER HUMANO na seção 3.1.1.1. 136 Discutimos o domínio do GOSTAR na seção 3.1.7.6.

137 Discutimos os domínios do OBJETO POSSUÍDO e do SER HUMANO nas seções 3.1.2.1 e 3.1.1.1,

respectivamente.

138 Discutimos o domínio do SOFRIMENTO na seção 3.1.7.7. 139 Discutimos o domínio do OBJETO POSSUÍDO na seção 3.1.2.1. 140 Discutimos o domínio da AFEIÇÃO na seção 3.1.7.2.

(55) Eu acho que no planeta terrestre não | existe aparelho capaz de medir a extensão141 | de meu amor, este amor que só a ti | dedico e que tanto faz-

me # sofrer142. (Jayme, 16/03/1937)

Nessas ocorrências coletadas das cartas de Jayme, o escrevente oferece o seu amor a sua amada e faz referência ao amor que Maria lhe dedica. Em todas as ocorrências antes expostas, o esquema-I ORIGEM-PERCURSO-META é acionado, visto que há um caminho percorrido pelo amor que parte do(a) amante para seu (sua) amado(a). O polo PARTE do esquema-I PARTE- TODO, que compõe o casal, é acionado, em (52), pois é o amor que cabe a um dos amantes, no caso de Jayme, que é evidenciado; além do amor, os momentos são, da mesma forma, dedicados pelo amante, portanto, o amor, nesse caso, constitui uma das partes do objeto de dedicação.

Em (53), o esquema-I RECIPIENTE é relacionado ao esquema-I ORIGEM-PERCURSO- META, para estruturar a metáfora em tela, pela expressão linguística “este amor que o meu pobre coração te dedicou”. Nela, observamos que o ‘coração’ é o recipiente que contém o amor e, por ser personificado, ele mesmo oferece o amor para Maria. Ainda em (54), e, também, em (55), os advérbios ‘só’ e ‘somente’, respectivamente, acionam o esquema-I PARTE-TODO, visto que, dentre todas as mulheres, o amor é destinado, apenas, a Maria, portanto, uma parte do todo que forma o casal, nesse caso, Jayme e Maria.

A ocorrência (56) foi identificada na carta de Maria, que oferece o seu amor ao seu amado, Jayme:

(56) [...] acho que tu não | tens pena de min eu sou | uma pobre infelis que Deus | botou no mundo para fofer | tu sabes perfeitamente que eu | dediquei todo o meu amor | a voçe o mundo para mim | sem voce não e mundo. (Maria, 19/01/1937)

O esquema-I PARTE-TODO estrutura a metáfora AMOR É OBJETO DE DEDICAÇÃO, na qual ambos atributos, PARTE e TODO, são acionados. O primeiro é instanciado pelo pronome ‘meu’, que particulariza o sentimento e faz referência, apenas, ao amor que Maria dedica ao amado. E o segundo atributo é indexado pelo item linguístico ‘todo’, visto que a amante dedica ao seu amado, o seu amor por completo. Em virtude do percurso do amor que parte de Maria até chegar a Jayme, o esquema-I ORIGEM-PERCURSO-META é acionado.

Em relação aos domínios específicos OBJETO DE CONSAGRAÇÃO e OBJETO DE DEDICAÇÃO, constatamos que o primeiro ocorre nas cartas dos correspondentes da primeira

141 Discutimos o domínio do OBJETO POSSUÍDO na seção 3.1.2.1. 142 Discutimos o domínio do SOFRIMENTO na seção 3.1.7.7.

metade do século XIX e, o segundo, na correspondência da primeira metade do século XX. O Quadro 12 sintetiza as informações encontradas no domínio geral da DIVINDADE.

Quadro 12 - Síntese do domínio geral da DIVINDADE

DOMÍNIOS ESPECÍFICOS

TIPO DE

MAPEAMENTO ESQUEMAS-I PERÍODO

ESCREVENTES DAS CARTAS OBJETO DE CONSAGRAÇÃO Metafórico ORIGEM-PERCURSO- META PARTE-TODO RECIPIENTE 1ª metade do século XIX D. Pedro I Marquesa de Santos OBJETO DE DEDICAÇÃO Metafórico ORIGEM-PERCURSO- META PARTE-TODO RECIPIENTE 1ª metade do século XX Jayme Maria Fonte: Elaboração nossa

Passemos às considerações a respeito do domínio geral da UNIDADE.