Robot Awareness and Action Recognition
5.2 The Importance of Robot Awareness
Conforme já exposto, Fisher (2015 [2004]) declara que o desejo é a primeira fase do amor, aquela que a pessoa vai em busca do seu parceiro sexual. No entanto, nos corpora, o desejo, manifestado linguisticamente pelo verbo ‘querer’, que tem como definição, entre outras, “ter vontade de; [...] desejar; sentir afeto ou amor por” (AULETE, 2019), aparece em uma fase mais estável da relação amorosa, na qual o amante está distante e deseja a pessoa que ama. Em vista disso, as expressões linguísticas das ocorrências que seguem instanciam a metonímia EFEITO PELA CAUSA, de maneira específica, DESEJO POR AMOR, na qual o desejo é compreendido como consequência ou efeito do amor.
(108) Quero-te muito, muito e muito e não quero que tu queiras bem a mais ninguém, pois eu assim o faço. Eu te dei o meu coração inteiro, quero também possuir o teu inteiro entregado182. Este é o meu protesto de
amor para contigo, e espero que nunca mais me chames senão filho, pois assim te trato por filha e não posso ser tratado de outra maneira. (D. Pedro I, 04/05/1827)
Nessa ocorrência, observamos que, a partir da expressão linguística “Quero-te muito, muito e muito”, D. Pedro I revela a vontade de possuir a marquesa, deixando claro que a deseja. Observamos, ainda, que o esquema-I ESCALA estrutura a referida metonímia, acionado pelo advérbio ‘muito’, que se repete, indicando que o desejo do imperador pela sua amada vai aumentando, gradualmente; ele a deseja tanto que quer que ela queira somente a ele. O esquema-I FORÇA/ATRAÇÃO, também, é acionado, visto que o ‘querer’ é uma força que faz a marquesa se mover para D. Pedro I.
De modo semelhante, as ocorrências seguintes indicam o desejo de D. Pedro II pela condessa:
(109) Não imagina o quanto você me faltou durante esta viagem. Se me quer muito quanto mais lhe quero eu como melhor consolo para a vida que levo! Felizmente achei suas cartas acabadas a 30 de abril e a 4 de Maio. Creia que a todas queimo e que ‘preciso’ de que você me diga ‘tudo’ e ‘tudo’. (D. Pedro II, 07/06/1880)
(110) Vou ler para dormir. Adeus! E ainda adeus! Mande-me como puder em sua próxima carta um pouco do que Você sente por mim tão e tão longe de quem lhe quer cada vez mais. Adeus! Vou enfim dormir. (D. Pedro II, 07/06/1880)
(111) Você lá está em Roma perto de tantos monumentos curiosos, e eu? Quem terá mais saudades?183 Esta noite sonhei com Você. Vi-a,
conversei com Você, brigamos e tornamos a fazer as pazes quando bateram-me à porta para o banho de mar. Que saudades! Veja tudo que lhe mando aqui e escreva-me como o faz quando só pensa184 em quem tanto lhe quer. (D. Pedro II, 01/08/1880)
(112) Condessa Noite da Glória. Em que estará Você pensando? Vou ler e depois – Quer ainda estas boas noites de Atenas? Você nem imagina como eu quero a você. Adeus! (D. Pedro II, 15/11/1880)
(113) Que boa carta é a sua de 24 do passado! Você ainda não imagina quanto me aflige não demonstrar-lhe ainda mais quanto lhe quero e por isso agradece-me o telegrama pelo dia 17. Querer como lhe quero é muito bom; porém sofre-se muito na ausência sobretudo na minha posição. (D. Pedro II, 21/03/1884)
(114) Depois de amanhã por ser dia santo não há trem pela manhã para a cidade e por isso dou-lhe desde já bons anos como lh’os pode desejar quem tanto e tanto lhe quer. (D. Pedro II, 30/12/1884)
O esquema-I ESCALA estrutura as ocorrências destacadas em (109), (110), (111) e (114) e é acionado pelos itens linguísticos ‘muito’, ‘mais’ e ‘tanto’, que intensificam o desejo do imperador pela condessa. Em (110), a expressão “cada vez mais” indica o aumento gradual do desejo de D. Pedro II. Também, em (112) e (113), o esquema-I ESCALA é instanciado, pelo advérbio ‘como’, que aponta o fato de o monarca não querer a amada de qualquer maneira, só por querer, mas em um grau mais intenso. Ocorre, ainda, em todas as ocorrências, o esquema- I FORÇA/ATRAÇÃO, pois, é desejo do imperador, atrair a condessa para si.
Do mesmo modo, a condessa demonstra seu desejo por D. Pedro II, como em (115):
(115) Adeus meu Senhor. Aqui fica sempre esta abelhuda que muito lhe | quer e que gosta de o repetir cada dia mais. C de Barral (Condessa de Barral, 15/12/1881)
Nessa ocorrência, o advérbio ‘muito’ intensifica o desejo da amante, evocando o esquema-I ESCALA. Há, do mesmo modo, a instanciação do esquema-I FORÇA/ATRAÇÃO.
Na ocorrência que segue, Jayme demonstra querer muito a sua amada, Maria:
183 Discutimos o domínio da SAUDADE na seção 3.1.7.5. 184 Discutimos o domínio da LEMBRANÇA na seção 3.1.8.1.
(116) Sinto que em ti é que esta toda a | minha existencia, por isso quero-te muito | para poder viver eternamente, sempre em teus | braços185
recebendo as caricias tuas, que tanto me | acalentam e me dão vida. (Jayme, 02/03/1937)
O esquema-I ESCALA, mais uma vez, estrutura a metonímia EFEITO PELA CAUSA/ DESEJO POR AMOR, e, em (116), é acionado a partir do advérbio ‘muito’, que indica intensidade. Também, o esquema-I FORÇA/ATRAÇÃO é instanciado, pois, Jayme deseja atrair Maria em direção a ele.
Por fim, em (117), além de adorar a amada, José, da mesma forma, a deseja e quer casar-se com ela, caso ela, também, queira o matrimônio, como vemos na sequência:
(117) meu bei | eu co não micaco cmo voci Se voci não| gize com liliaca cua vai um Bejo me | eu ti gero e ti adoru Dezejo te todu tipo | para noisi coveca mais todu [.] tipo e pouco | mia gerida [...] (José, 21/12/1975)
Nessa ocorrência, observamos o esquema-I FORÇA/ATRAÇÃO, pois o desejo é uma força que faz Helena ser atraída em direção à José.
O domínio ora explorado esteve presente na correspondência acessada dos dois séculos, em cartas dos escreventes e das escreventes do século XIX e, no século XX, apenas, nas cartas dos homens.
Passemos às principais questões tratadas no domínio da SAUDADE, na próxima seção.