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O conceito de esquema-I é central, nos estudos da LC, em virtude da natureza corpórea do significado e da sua conexão com os referidos esquemas-I; foi explorado, inicialmente, tanto

por Johnson (1987), para elaboração de uma epistemologia e filosofia moral, quanto por Lakoff (1987), quando procurou articular uma teoria cognitiva da categorização. Além da LC, o esquema-I foi utilizado em outras áreas do saber com outras perspectivas de análise (OAKLEY, 2007).

Johnson (1987, xiv, tradução nossa) apresenta o esquema-I como sendo “um padrão recorrente e dinâmico de nossas interações perceptivas e programas motores que proporcionam coerência e estrutura à nossa experiência31”. Esse conceito está diretamente relacionado com o significado corpóreo, pois é através dessa base corporificada que os esquemas-I se originam, dentro do sistema conceptual humano, a partir da nossa experiência sensorial e perceptual à medida que interagimos e nos movemos no mundo; sendo assim, a corporificação constitui uma das características mais proeminentes desse modelo.

Em consonância com o conceito apresentado por Johnson (1987), Lakoff (1987) define os esquemas-I como estruturadores de grande parte dos conceitos que circulam sócio- culturalmente, a partir das noções de espaço e de tempo. Esses esquemas são, portanto, estruturas cognitivas construídas na mente humana, concebidas a partir das representações de experiências corporais, motoras e perceptuais que decorrem da interação do ser humano com o mundo em sua volta desde o seu nascimento. Essas interações são como redes e ocorrem, repetidamente, em nossas práticas discursivas, a partir da exploração e contato com objetos físicos, através da nossa movimentação ao redor do mundo, experimentando forças físicas que nos afetam e/ou resistindo a essas forças, dentre outras interações que derivam esquemas básicos de imagem e que contribuem para nossa compreensão do mundo. Os esquemas-I representam padrões esquemáticos que refletem domínios, como RECIPIENTE, ORIGEM- PERCURSO-META32, ATRAÇÃO, PARTE-TODO, que são responsáveis pela estruturação da

experiência ancorada no corpo.

Um exemplo de como os esquemas-I operam em nosso sistema conceptual e, também, linguístico é apresentado por Johnson (1987), quando ilustra o esquema-I RECIPIENTE através das cenas do início de um dia:

Você acorda de um sono profundo e olha, ainda embaixo das cobertas, para o seu quarto. Você gradualmente sai do seu estado letárgico, descobre-se, põe seu robe, alonga-se e anda alegremente do quarto para o banheiro. Você olha

31 Do original: “a recurring, and dinamic pattern of our perceptual interactions and motor programs that gives

coherence and structure to our experience”.

32 Há muitos termos, na literatura da LC, para os quais não há consenso quanto a sua tradução para o português;

desse modo, no que diz respeito aos esquemas-I, usamos RECIPIENTE para a tradução de CONTAINER e ‘ORIGEM-PERCURSO-META, para ‘PATH’ ou SOURCE-PATH-GOAL.

no espelho e vê seu rosto olhando para você. Você abre o armário do banheiro, pega a pasta de dente, espreme um pouco de pasta na escova, coloca a escova na boca, escova os dentes rapidamente e enxágua a boca33.(JOHNSON, 1987,

p. 30, tradução nossa)

No exemplo apresentado, Johnson (1987) descreve a rotina de uma pessoa ao acordar, e mostra como a recorrência da experiência de entrar e sair nos espaços (como sair do quarto para o banheiro, abrir o armário do banheiro, espremer a pasta na escova de dentes, colocar a escova na boca) produz padrões que contribuem para emergir o esquema-I RECIPIENTE. A experiência corporal desse esquema-I surge da compreensão que temos dos nossos corpos como contêineres e pode ser elaborado ou fazer parte de uma elaboração metafórica para nossa compreensão de conceitos abstratos, para conceptualizar emoções e estados mentais, tendo o corpo, ou parte dele, como recipientes de emoções, ideias, sentimentos etc.

Outros exemplos de esquemas-I, apresentados por Peña Cervel (2012), são os que nos ajudam a compreender expressões metafóricas como “João caiu em uma depressão”. Nesta frase, são instanciados os esquemas-I VERTICALIDADE e RECIPIENTE, visto que o verbo ‘cair’ implica uma orientação vertical para baixo, na qual João é a entidade em movimento, vítima desse deslocamento descendente, que chegará a um destino, à depressão. A depressão, por sua vez, é delineada por uma região tridimensional que tem o seu interior preenchido por João.

Ainda sobre o conceito de esquema-I, Oakley (2007, p. 215, tradução nossa), corroborando com Johnson (1987) e Lakoff (1987), afirma que “um esquema de imagem é uma redescrição condensada da experiência perceptual com a finalidade de mapear a estrutura espacial na estrutura conceptual34”. Assim, os esquemas-I seriam a base para organizar o conhecimento e o raciocínio sobre o mundo, a partir de experiências espaciais e temporais. Conforme Lakoff (1987), determinados conceitos são derivados de esquemas-I e esses esquemas podem servir de domínio-fonte para a correspondência metafórica na TMC. O referido autor apresenta alguns esquemas-I mais básicos e mais centrais originários dessa experiência corpórea, são eles: CONTAINER, PARTE-TODO, LIGAÇÃO, CENTRO-PERIFERIA, ORIGEM-PERCURSO-META e PARA CIMA-PARA BAIXO.

33 Do original: “You wake out of a deep sleep and peer out from beneath the covers into your room. You gradually

emerge out of your stupor, pull yourself out from under the covers, climb into your robe, stretch out your limbs, and walk in a daze out of the bedroom and into the bathroom. You look in the mirror and see your face staring out at you. You reach into the medicine cabinet, take out the toothpaste, squeeze out some toothpaste, put the toothbrush into your mouth, brush your teeth in a hurry, and rinse out your mouth”.

34 Do original: “an image schema is a condensed redescription of perceptual experience for the purpose of mapping

Johnson (1987), também, apresenta uma lista de esquemas-I, na qual considera os seus principais tipos. Além dos citados por Lakoff (1987), ele, ainda, indica a existência dos seguintes: EQUILÍBRIO, COMPULSÃO, BLOQUEIO, CONTRA-FORÇA, RESTRIÇÃO, REMOÇÃO, DESBLOQUEIO, ATRAÇÃO, POSSIBILITAÇÃO, CICLO, PERTO-LONGE, ESCALA, FUSÃO, SEPARAÇÃO, CHEIO-VAZIO, COMBINAÇÃO, SUPERPOSIÇÃO, INTERAÇÃO, CONTATO, PROCESSO, SUPERFÍCIE, OBJETO e COLEÇÃO35.

Existem diferentes propostas de listas em que esquemas-I são agrupados, a partir de diferentes critérios; sendo assim, não há uma taxonomia fixa e nem um limite numérico de esquemas-I definidos; esses, segundo Gibbs e Colston (2012 [1995]), surgem diariamente no nosso pensamento, raciocínio e imaginação no processo de conceptualização. Isso se deve à natureza dinâmica dos esquemas, conforme apresentado por Johnson (1987), e ao fato de os estudiosos desse assunto não se preocuparem em oferecer um conceito fechado.

Apresentaremos, a seguir, uma síntese dos esquemas-I explorados nesse estudo; para isso, serão discutidos os elementos estruturais e as relações estabelecidas entre eles, seguidos de um exemplo. Para descrever esses esquemas, recorremos aos seguintes autores: Jonhson (1987), Lakoff (1987), Peña Cervel (2012) e Duque e Costa (2012). Vejamos:

 Esquema-I RECIPIENTE: descreve como compreendemos uma região de espaço limitada e possui quatro elementos: um interior, um exterior, um limite, que os separa, e um portal, que regula o acesso ao espaço. Segundo sua lógica interna, as entidades podem estar dentro ou fora do recipiente e um recipiente pode estar dentro de outro recipiente. No exemplo, “Maria está no quarto”, Maria está dentro do quarto, que se encontra dentro da casa; desse modo, tanto quarto como casa são recipientes.  Esquema-I ESCALA: está relacionado aos aspectos qualitativos (intensidade) e quantitativos (aumentar e diminuir) da nossa experiência. Noções como mais, menos e igual são a base do esquema-I. No exemplo, “Estou um pouco chateada com você”, o grau de intensidade é menor do que “Você é tão linda”, que tem intensidade alta de beleza.

 Esquema-I PARTE-TODO: experienciamos nossos corpos como um todo com partes, além de que distinguimos a estrutura PARTE-TODO em diferentes elementos do meio em que vivemos, como o nosso corpo (TODO) que é formado por braços, pernas,

35 Do original: “CONTAINER, BALANCE, COMPULSION, BLOCKAGE, COUNTERFORCE, RESTRAINT,

REMOVAL, ENABLEMENT, ATTRACTION, MASS-COUNT, PATH, LINK, CENTER-PERIPHERY, CYCLE, NEAR- FAR, SCALE, PART-WHOLE, MERGING, SPLITTING, FULL-EMPTY, MATCHING, SUPERIMPOSITION, INTERATION, CONTACT, PROCESS, SURFACE, OBJECT, COLLECTION”.

cabeça, tronco etc. (PARTES). Esse esquema-I é estruturado por três elementos: um todo, suas partes e uma configuração. No exemplo “Maria é a filha mais velha do casal”, o total de filhos do casal compõe o TODO e ‘a filha mais velha’ constitui a PARTE, mesmo sendo ela própria um todo.

 Esquema-I ORIGEM-PERCURSO-META: é entendido por meio dos nossos movimentos, como andar. Sua estrutura é constituída por uma origem, um destino e uma série contínua de locações que liga o ponto de partida ao ponto de chegada, por exemplo, “João deu flores a sua namorada”, em que João é a origem e a namorada é o destino.

 Esquema-I CHEIO-VAZIO: é concebido por um interior, um recipiente e alguma entidade que encha o interior. Desse modo, o recipiente encontra-se CHEIO,quando a entidade ocupa todo o seu interior, como em “O rio estava cheio de peixes mortos”, ou VAZIO, se não contém entidade em seu interior, conforme “Carlos esvaziou o taque para lavar”.

 Esquema-I PERTO-LONGE: os elementos estruturais desse esquema-I incluem duas ou mais entidades, uma trajetória e alguma distância entre as entidades; se a distância for pequena, o polo PERTO é ativado, quando a distância é grande, o polo LONGE do esquema é instanciado. No exemplo “Salvador e São Paulo são cidades muito distantes”, o polo LONGE foi ativado; já em “João está sentado junto de Maria”, o polo PERTO é ativado.

 Esquema-I CONTATO: ocorre se não existe distância entre as entidades, elas encontram-se em contato. Os elementos estruturais desse esquema-I constituem duas ou mais entidades e uma trajetória sobre a qual a distância entre elas é medida. No exemplo “Lucas está, a cada dia, mais próximo de Joana” há uma relação de proximidade entre Lucas e Joana.

 Esquema-I LIGAÇÃO: em relação à corporificação, nosso primeiro elo de ligação é estabelecido pelo cordão umbilical, que torna o feto inseparável da mãe. Desse modo, esse esquema funciona sempre que alguns elementos estão relacionados e ocorre uma conexão entre eles. Sua estrutura consiste em duas entidades que se ligam entre si por algum laço, como no exemplo “Nossas vidas estarão ligadas para sempre!”. Nesse exemplo, as entidades são as duas pessoas que estão ligadas através do relacionamento.

 Esquema-I EQUILÍBRIO: esse esquema surge em virtude da nossa experiência de equilíbrio ou desequilíbrio corporal, como quando as crianças, aprendendo a andar, mesmo já estando em pé, muitas vezes, balançam e caem ao chão e, somente, as repetidas tentativas a farão manter uma postura ereta e equilibrada. Se tomarmos como exemplo a frase “Estou na corda bamba”, é possível estabelecermos relação com o conceito experiencial de equilíbrio.

 Esquema-I VERTICALIDADE: é constituído por uma trajetória vertical que consiste nos seguintes elementos estruturais: uma origem, uma direção e um destino. No exemplo “Marina continua feliz”, o estado de humor de Marina descreve uma trajetória vertical para cima.

 Esquema-I FORÇA36/ATRAÇÃO-REPULSÃO: em nossas experiências, há muita estrutura esquemática de atração e repulsão, como um ímã atraindo um pedaço de aço para si ou um polo magnético repelindo outro polo magnético. Os elementos estruturais são uma origem, um destino, uma direção e alguma força que faz com que alguma entidade se mova em direção a ela, no caso do esquema-I ATRAÇÃO, ou para longe dela, no esquema-I REPULSÃO. Como exemplos, temos “Pensamentos positivos atraem coisas boas” e “As pessoas sentem repulsa pelo mal”; no primeiro, ‘pensamentos positivos’ são vistos como uma força que aproxima as coisas boas; e, no segundo, o ‘mal’ é uma força repulsiva que faz com que as pessoas se afastem dele.

 Esquema-I FORÇA/BLOQUEIO: faz referência às experiências de obstáculos que bloqueiam ou resistem a alguma força. É caracterizado pelos seguintes elementos: uma trajetória com uma direção, um destino que não pode ser alcançado, uma entidade se movimentando e outra que bloqueia ou resiste à força da entidade que se move. Quando falamos, por exemplo, “Silvia impediu a nomeação de Júlia para o cargo”, ‘Silvia’ é um agente que impede que Júlia avance para alcançar uma meta na carreira.

36 O esquema-I FORÇA está presente em todas as nossas interações com o nosso entorno, seja quando atuamos

sobre objetos e pessoas ou quando somos influenciados por eles. De acordo com Johnson (1987), há sete estruturas de força que são mais representativas e que operam constantemente em nossa experiência: COMPULSÃO,

Apesar de os esquemas-I terem sido apresentados separadamente, quando ativados, esses padrões cognitivos se interligam37 de modo dinâmico e distinto, não existindo como entidades individuais estáticas e isoladas, mas ligadas entre si. Oakley (2007), ao falar sobre a diversidade de esquemas-I, expõe a possibilidade de uma sobreposição entre eles ou da existência de alguns mais ou menos prototípicos, formando uns mais complexos, a partir de outros mais simples.

Seguindo essa proposta, alguns trabalhos têm sugerido um sistema de dependência entre os esquemas-I, partindo de estudos relacionados à metáfora e à metonímia e, também, à polissemia. Um desses estudos é o de Peña Cervel (2012), segundo o qual, os esquemas-I estruturam princípios que não pertencem a um mesmo nível de categorização, eles possuem padrões que se encontram inter-relacionados devido aos vários tipos de relações de dependência conceptual existente entre eles. Desse modo, os esquemas são divididos pela autora em básicos e subsidiários ou dependentes, pois as estruturas são organizadas de forma hierárquica em níveis diferentes, conforme o grau de generalidade.

Tendo como base a lista de classificação de alguns estudiosos, Peña Cervel (2012) apresenta uma proposta de uma taxonomia de esquemas-I, a qual ela busca identificar os elementos imediatos de cada esquema-I e sua lógica interna, atribuindo a três esquemas básicos, REGIÃO DELIMITADA, ORIGEM-PERCURSO-META e PARTE-TODO, o nível mais alto na hierarquia, de modo que os padrões dependentes são especificações mais detalhadas desses esquemas básicos.

As figuras que seguem mostram como a autora relaciona os esquemas-I e a dependência entre eles. As caixas sombreadas equivalem aos esquemas-I básicos e as setas indicam que os esquemas-I apontados são dependentes do que os precedem.

Figura 3 – Esquema-I REGIÃO DELIMITADA e dependentes

Fonte: Adaptada de Peña Cervel (2012, p. 87)

37 Lakoff (1987, p. 442-3) chama essas ligações de transformações. Cada uma delas, segundo o autor, reflete

aspectos importantes da experiência humana visual, auditiva, sinestésica e, sobretudo, corporal.

REGIÃO DELIMITADA

SUPERFÍCIE

Conforme a autora, o esquema-I REGIÃO DELIMITADA é o nó dominante e dele dependem os esquemas-I SUPERFÍCIE e RECIPIENTE, como mostra a Figura 3. Da mesma forma, o esquema-I RECIPIENTE empresta a sua estrutura e material conceptual ao esquema-I CHEIO-VAZIO, do qual o esquema-I EXCESSO é subsidiário. Vejamos, na Figura 4, como se dá a relação entre os esquemas dependentes do esquema-I ORIGEM-PERCURSO-META:

Figura 4 - Esquema-I ORIGEM-PERCURSO-META e dependentes

Fonte: Adaptada de Peña Cervel (2012, p. 88)

Na Figura 4, os esquemas-I PERTO-LONGE, VERTICALIDADE, FRENTE-TRAS, FORÇA, CICLO e PROCESSO são dependentes de ORIGEM-PERCURSO-META. O PERTO- LONGE inclui o CONTATO. O esquema-I FORÇA abarca COMPULSÃO (e seus esquemas-I subsidiários ATRAÇÃO-REPULSÃO), BLOQUEIO, CONTRA-FORÇA (junto com o esquema dependente DESVIO) e ELIMINAÇÃO DE BARREIRAS (e seu padrão subsidiário POSSIBILITAÇÃO).

Por fim, na Figura 5, a autora apresenta o esquema-I básico PARTE-TODO, relacionado com seus esquemas dependentes CENTRO-PERIFERIA, COMBINAÇÃO, SEPARAÇÃO, COLEÇÃO e FUSÃO. ORIGEM- PERCURSO- META PERTO-LONGE VERTICALIDADE FRENTE-TRÁS CICLO PROCESSO FORÇA CONTATO COMPULSÃO BLOQUEIO CONTRAFORÇA ELIMINAÇÃO DE BARREIRAS ATRAÇÃO-REPULSÃO DESVIO POSSIBILITAÇÃO

Figura 5 - Esquema-I PARTE-TODO e dependentes

Fonte: Adaptada de Peña Cervel (2012, p. 88)

Tentativas como essa de Peña Cervel (2012), de agrupar os esquemas-I, são mais um exemplo de sua natureza dinâmica. Desse modo, um mesmo conceito pode acionar diferentes esquemas-I, a depender da perspectiva. Por exemplo, a expressão: “Meu coração está cheio de amor” pode evocar pelo menos dois esquemas-I: RECIPIENTE, o coração, que compreende um espaço delimitado, e CHEIO-VAZIO, relacionado ao conteúdo que preenche o recipiente, o amor.

Diante do exposto, observamos que os esquemas-I têm participação em qualquer outro modelo na estruturação dos MCIs metafóricos e metonímicos (LAKOFF, 1987) e, por conseguinte, de todo e qualquer processo de conceptualização.