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Action and Goal Recognition

Robot Awareness and Action Recognition

5.1 Action and Goal Recognition

De acordo com Kövecses (1988, 1990, 2000, 2014, 2015), a amizade é um conceito relacionado ao amor, pertencendo ao repertório conceitual desse domínio-alvo, pois, segundo o referido autor, se alguém diz que é apaixonado por outro alguém, a atitude de amizade está presente, pois não é comum, numa relação amorosa entre duas pessoas, não haver o sentimento de amizade.

Nos corpora, as expressões linguísticas identificadas levaram-nos a inferir uma conceptualização metonímica do tipo PARTE PELO TODO, especificamente, AMIZADE POR AMOR, uma vez que a amizade é um sentimento que constitui parte do amor, sendo as duas entidades pertencentes a um mesmo domínio. A amizade surge, apenas, nas cartas de D. Pedro I, de D. Pedro II e da condessa; nessas cartas, seu uso parece-nos eufemístico170, de forma que o casal busca suavizar o que sente um pelo outro, para não expor abertamente seus sentimentos e, assim, preservarem socialmente suas respectivas imagens, conforme ocorrências que seguem:

(93) O amor que te tenho171 está provado com as provas irrefragáveis. Se ele

era grande, hoje, com a nova prova por mecê dada da sua amizade para comigo e constância, meu coração fica muito mais cativado e procurarei dar cada vez mais demonstrações do quanto a estimo e lhe sou obrigado e agradecido [...]. (D. Pedro I, 04/08/1825)

(94) Se teus amores para comigo são assim, é porque tua amizade para comigo te não borbulha no peito como a minha para contigo. Pois sejam embora teus amores para comigo passageiros, os meus, que são baseados sobre a mais firme amizade (ainda além de todos os reveses), hão de ser sempre puros e mui constantes. (D. Pedro I, 15/12/1827)

Após a leitura dessas ocorrências, constatamos que os esquemas-I mais recorrentes são PARTE-TODO e RECIPIENTE. Em (93) e em (94), o esquema-I PARTE-TODO é acionado, a partir das expressões linguísticas “com a nova prova por mecê dada da sua amizade para comigo” e “tua amizade para comigo te não borbulha no peito como a minha para contigo”, respectivamente. Na primeira, D. Pedro I expõe sobre uma prova de amizade da marquesa, portanto, da parte que cabe à amante, e, na segunda ela fala tanto da parte dela, quanto da parte dele. Ainda, em (94), o esquema-I RECIPIENTE é instanciado a partir da preposição ‘em’ e do

170 Conforme Chamizo Domingues e Sánchez Benedito (2000), o eufemismo compõe o sistema conceptual do ser

humano e atrela-se ao fenômeno da conceptualização, sendo um tipo especial de metáfora. Além disso, para esses autores, o eufemismo está, intimamente, relacionado ao acervo cultural dos usuários da língua.

item linguístico ‘peito’, visto que a amizade do imperador borbulha dentro do seu peito, o recipiente.

Nas cartas de D. Pedro II, a amizade mostra-se nas seguintes ocorrências:

(95) Tantas cabeças políticas e tantos interêsses partidários! Cada vez careço mais de meus estudos e sobretudo do coração da Amiga172. Não se enfade

com tanta amizade da minha parte. Adeus! Bôas noites. (D. Pedro II, 27/03/1880)

(96) Nada de novo. Logo às 3h. parte esta carta. Como ela é feliz! Você não imagina como brotam as saudades173. Creio na sua amizade; mas tudo o

que lhe dá a minha mesmo de tão longe abranda saudade que só Você bem perto174 de seu amigo poderia fazer esquecer. (D. Pedro II,

15/07/1880)

(97) Porque há de falar-me d’êsses passeios que seriam sempre deliciosos para mim perto de Você?175 Creia ou não me creia, sinto sempre o mesmo e

preciso cada vez mais de sua amizade. (D. Pedro II, 17/09/1880)

Nessas ocorrências, o atributo PARTE do esquema-I PARTE-TODO é acionado, através das expressões linguísticas “tanta amizade da minha parte”, “Creio na sua amizade” e “preciso cada vez mais de sua amizade”, das quais D. Pedro II faz referência à parte da amizade que cabe a ele e à parte que cabe a condessa. Diante disso, observamos que a amizade constitui um todo dividido em duas partes cabíveis a cada um dos amantes. Além do esquema-I PARTE- TODO, o item linguístico ‘tanta’ e a expressão “cada vez mais”, verificadas nas ocorrências (95) e (97), evidenciam o acionamento do esquema-I ESCALA. A partir delas, podemos deduzir que há muita amizade e esta tem um aumento crescente. Dessa forma, em (95), D. Pedro II pede que a condessa não se aborreça com tanta amizade que ele tem por ela; já em (97), ele diz precisar progressivamente da amizade da amada.

Nas ocorrências (98) a (100), observamos, também, o uso reservado da condessa ao se referir ao amor que sente por D. Pedro II como amizade:

(98) Aceite minha dedicação, meu amor176, meu respeito, minha Geografia,

meu Museu de Versailles, enfim, tudo quanto posto junto, faça uma farofa da velha amizade da C. de Barral. (Condessa de Barral, 22/01/1881)

172 Discutimos o domínio do CORAÇÃO na seção 3.1.9.1. 173 Discutimos o domínio da SAUDADE na seção 3.1.7.5. 174 Discutimos o domínio da APROXIMAÇÃO na seção 3.1.6.1. 175 Discutimos o domínio da APROXIMAÇÃO na seção 3.1.6.1. 176 Discutimos o domínio do OBJETO POSSUÍDO na seção 3.1.2.1.

(99) Permita Deus que eu saiba breve o que disse de mim um folhetim feio onde me consta que se fala numa Condessa dando a entender que é de mim que se trata. Isso que só deveria fazer rir uma velha que pode quase ser Mãe de V. M. me tem aliás aborrecido. Adeus meu Senhor, mas digam lá o que quiserem nunca alterarão os sentimentos de amizade e de dedicação que há tantos anos lhe consagra a Condessa de Barral. (Condessa de Barral, 18/05/1882)

(100) Confesse que passamos dias bem felizes devidos à confiante amizade que nos consagramos há tantos anos e que embora a manifestação dessa amizade seja outra, nem por isso é menos viva. Assim sinto eu, e se um dia o tornar a ver será como se o tivesse visto na véspera. Sempre com o mesmo prazer. (Condessa de Barral, 18/11/1883)

Do mesmo modo que ocorre na correspondência de D. Pedro II, nas ocorrências coletadas das cartas da condessa, o esquema-I PARTE-TODO, também, é acionado. Em (98), os itens linguísticos ‘dedicação’, ‘amor’, ‘respeito’, ‘Geografia’ e ‘Museu de Versailles’ são elementos que mostram coisas valorosas, material e espiritualmente, que constituem bens valiosos que se entrega para quem ama, demonstrando a importância da pessoa amada. ‘Dedicação’, ‘amor’ e ‘respeito’ são sentimentos que se relacionam à amizade e ‘Geografia’ e ‘Museu de Versailles’ é uma forma bem humorada de a condessa referir-se, provavelmente, às viagens realizadas na Europa, em especial, à Paris, inferida a partir do ‘Museu de Versailles’, metonímias perspectivadas por diferentes experiências vividas ao longo do relacionamento. Nesse caso, é possível deduzir que essas partes constituem o todo, a amizade. Além disso, a própria condessa explica que essas partes devem ser misturadas para fazer uma ‘farofa’, conforme o trecho: “enfim, tudo quanto posto junto, faça uma farofa da velha amizade da C. de Barral”. Diferentemente de (98), em (99), podemos observar que o sentimento da condessa pelo imperador é dividido em duas partes, quais sejam, ‘amizade’ e ‘dedicação’. Logo, a amizade passa a ser uma das partes desse sentimento, acionando o polo PARTE do esquema-I PARTE- TODO. Em (100), mais uma vez, o TODO do referido esquema-I é ativado, visto que a condessa faz referência a sua amizade e, também, a do seu amado.

Diante do que foi exposto, verificamos que a amizade, compreendida como parte do amor, aparece, apenas, no século XIX, nas cartas de D. Pedro I, D. Pedro II e da Condessa de Barral e seu uso tem um sentido eufemístico. Pensamos que a necessidade de usar o eufemismo, por metonímia, decorre em virtude de apenas esses escreventes serem casados; o que não aparece nas cartas dos outros casais constituídos por solteiros.

A seguir, discutiremos outro domínio-fonte usado na conceptualização do AMOR: o da AFEIÇÃO.