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O modo poético pascoaesiano do pensar é, na sua raiz última, um modo vivencial. Queremos dizer que, na consciência do Poeta, o pensamento faz a sua aparição originariamente em modo de vivência. É um pensamento vivido antes de ser propriamente um pensamento pensado. Dá-se genesicamente em modo de experiência vital, em que está comprometida concreta e indistintamente a totalidade anímica do Poeta-Pensador, em fusão do bios e do logos, do coração e da razão, sem que ainda interfira a acção abstractizante da mesma razão34.

Neste momento genésico vivencial, não conta ainda também a distinção entre sujeito e objecto do pensamento. Nada é pensado como estranho ao Poeta-Pensador. Mundo objectivo e mundo subjectivo confundem-se na intimidade anímica daquele, que pensa «em intimidade vivente e comovida» com as coisas e «como que se integra na Vida» universal (GP, 79, em nota), em sentimento de comunhão num mesmo ser ou de pertença ao que é

34 A propósito do conhecimento sentimental que é o conhecimento

próprio da experiência saudosa em geral, desenvolveu reflexões pertinentes Ramón Piñeiro, em Pra unha Filosofía da Saudade, ensaio publicado no vol. colectivo La Saudade, Edições Galaxia, Vigo, 1953 e reproduzido in Afonso Botelho e António Braz Teixeira, Filosofia da Saudade, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1976, pp. 442-470. Veja-se especialmente as pp. 452- 453.

pensado. Pensar vivencialmente é, pois, para ele, pensar por empatia ontológica, sentindo dentro do ser o seu próprio pulsar e oferecendo-lhe, na consciência poética, um espaço de acolhimento à sua auto-revelação.

Num tal modo de pensar, o Poeta-Pensador assume o papel de testemunha da verdade do mesmo ser. A verdade que ele diz é uma verdade experienciada e o seu dizer poético tem o valor de testemunho. Ao tentar dar «em palavra humana e revelada» ((SE, 193) essa experiência do ser, o Poeta está, de algum modo, a exprimir em face dos profanos o que dele viu e ouviu nessa sua vivência que é também «vidência» e «audiência». Por isso, o seu dizer poético, na sua irrupção genésica, não traduz especulação artificial ou visão distante, mas saber de experiência feito, visão de proximidade e intimidade.

A verdadeira vivência poética tem um carácter eventual. Não obedece a nenhum plano metodológico, acontece, é evento. Não é em si mesma manipulável, ainda quando o possa ser nas condições que a propiciam. É algo de espontâneo. Por isso, o pensamento que nela advém é um pensamento natural, que nasce da intimidade do ser, mediante a poesia do Poeta, não um pensamento artificial ou feito por obra do artifício lógico e metodológico. A que obedece então o evento da poesia e da verdade que nela se faz luz? A vivência poética «evém», e o pensamento que lhe é inerente advém, por força daquela causa misteriosa que chamamos inspiração. Pascoaes afirma-o expressamente em diversas passagens da obra35, reconhecendo

que, para ele, é ela «a fonte da intuição poética ou saudosa» (MC, 37).

Deixamos para a Segunda Parte deste estudo, no capítulo em que nos ocuparemos da interpretação pascoaesiana do

35Veja-se especialmente: o poema «O génio do meu lar» (SE, 206); TP,

226, 237 e 300; os poemas «Vento do Espírito» e «A sombra do vento» de As

processo do conhecimento poético, a compreensão que ele tem do fenómeno da inspiração. Aí teremos ocasião de verificar como, também por esta via, Pascoaes se aproxima do pensamento profético e religioso. É que, em última análise, a inspiração reclama uma fonte divina de si mesma e, por conseguinte, da verdade que por ela advém na consciência poética. Eis como o exprime nestes versos de Sempre :

Um eco do outro Mundo a percutir-se, além; Um canto de silêncio, já divino,

Que só ouve quem ama, o poeta e mais ninguém! É ele que me inspira.

Sentindo-o, logo vibra a minha lira Aos ventos do Mistério.

(SE, 182)

Teremos igualmente ocasião de ver como a inspiração acontece como apresentação ou aparição da verdade em dialéctica reacção à acção inquietante da não-verdade aparente do ser sobre a consciência do Poeta, no seu encontro com as coisas e consigo mesmo, reclamando, da parte deste, abertura e disponibilidade para o acolhimento daquela. Ela implica um duplo movimento em convergência: da verdade, a partir da sua fonte inspiradora, para o Poeta e deste para aquela. No seu acontecer concreto, às vezes o Poeta parte de si mesmo, isto é, da sua própria experiência de ser, para essa convergência com o movimento da verdade. Em regra, porém, a sua viagem mental não se faz sem um desvio pela Natureza envolvente, que faz dessa viagem uma verdadeira liturgia de comunhão cósmica, em que o Poeta comunga com as coisas, em íntima solidariedade, o sentimento ou pressentimento de uma comum consanguinidade ontológica e de uma mesma condição de ser imperfeitamente. O apelo da verdade permanece nele sempre como um apelo da terra. Dada nos seus poemas, ora de forma mais expressa e completa, ora mais implícita e sincopada, é através dessa liturgia que, normalmente, o poeta Pascoaes acede à clareira do mistério em que a verdade se revela.

O seu pensar poético tende assim a ser definido por uma trajectória própria que, partindo do Poeta, passa pelas coisas e se dirige para a luz da verdade que para ele se abre. Essa trajectória

implica três movimentos de ultrapassagem ou de «excedência»36

que exprimem a tensão metafísica do pensamento, o seu dirigir-se para além das aparências físicas. Fazendo apelo à sua expressividade, poderíamos traduzi-los pelos vocábulos, de raiz latina e grega, exitus, exodus, extasis37, referidos respectivamente

aos movimentos de contemplação, meditação e sonho. O Poeta sai de si para as coisas, faz caminho para além das aparências destas e de si mesmo, eleva-se para o espaço do sonho ou da verdade38. Estas três excedências representam três movimentos

de abertura e disponibilização da consciência poética para que a verdade retraída ou oculta no mistério possa nela fazer a sua aparição. Ilustremos esta dinâmica com dois exemplos, de entre os muitos que a obra poética nos poderia oferecer39. O primeiro é

do poema «Meditando», de Sempre, o segundo de «A sombra da noite», de As Sombras:

Quantas vezes, vou só, por um caminho adiante, A meditar nas cousas.

E, meditando, torno-me distante Das suas aparências mentirosas.

36 Sobre o «princípio de excedência» veja-se especialmente SA, 74 e

MC, 22 e 31, bem como a sua interpretação no capítulo deste estudo sobre a ontologia de Pascoaes («O ser que a saudade revela»).

37Curiosamente, já depois de nos termos apercebido desta dinâmica do

pensar poético pascoaesiano, fomos encontrar em Dalila Pereira da Costa a ideia de que «o conhecimento pela saudade» em geral se dá em «três gradações», «passagens ou passos possíveis através de três estados do ser», correspondendo à humana «natureza tripartida em corpo, alma e espírito» (Dalila L. Pereira da Costa – Pinharanda Gomes, Introdução à Saudade, Lello & Irmão Editores, Porto, 1976, p. 105). O que, para nós se traduz nos três níveis de: sentidos, razão, intuição; contemplar, meditar, sonhar; exitus, exodus, extasis.

38 Na sua posterior teorização deste processo, Pascoaes irá distinguir

exactamente os dois extremos, ou o ponto de partida e o de chegada, como o mundo da «realidade» e o mundo da «verdade», respectivamente, o que pressupõe que, no seu conceito, a verdade é do domínio da idealidade.

39 Além dos textos transcritos, veja-se, p.ex.: SE, 160-161, 211-212,

213-215; TP, 299-300; RP, 141-142; ELG, 218; PTv, 281-282. Especialmente significativos são, na sua globalidade, os poemas Belo, À Minha Alma e

Meditar é subir àquela altura

Em que a gota de orvalho é astro que alumia; E onde é perfeita e mística alegria

A humana desventura.

(SE, 128); Quantas vezes, Saio de casa e vago, lá por fora, A interrogar as sombras e auscultando O coração das fragas e dos bosques, Que, ante mim, se alevantam, meditando... Quantas vezes estou, como esquecido E perdido, na noite, que me envolve E me trespassa a alma, alumiando-a, E, em desvairados fumos, a dissolve... E a noite, à força de beijar meus olhos, Misteriosamente resplandece, Como se fosse dia!

E vejo então, Na neblina que os campos entumece, Desenhar-se não sei que novo mundo. (SO, 119)

Expressos em linguagem mais simbólica ou mais directa, não é difícil detectar aí os três movimentos referidos: o sair de si em direcção à Natureza, o êxodo meditativo e a ascensão mística. Como não é difícil detectar a analogia com a via platónica de acesso à verdade, tal como Platão a expõe particularmente através da alegoria da caverna40; ou com a via agostiniana, definida como

caminho da interioridade e da transcendência, com os seus movimentos de recolhimento e elevação mística, que fazem da filosofia um itinerário da mente para o divino. Pascoaes pensador em modo poético é, afinal, o pastor Belo, passeando-se pelos campos, em meditação e sonho, «Em busca sempre, sem parar um instante, // Daquilo que não viu o nosso olhar» (BE, 100). Como é também o pastor Marânus, «...o ser que divagava, / Consigo, pelo mundo solitário» (MA, 165), «... neste doce / Enlevo da paisagem, neste encanto, / Que paira, magoado, sobre as cousas, / Onde, em silêncio, jaz divino canto...» (ibid.).

O movimento do Poeta para a verdade implica, pois, antes de mais, uma saída de si em direcção à Natureza (exitus). A sua realização é função do olhar amorosamente contemplativo, através do qual o Poeta entra em «intimidade vivente e comovida» com as coisas. Verdadeiramente, ele não sai de si a não ser como individualidade isolada. Sai de si para se reencontrar na plenitude ôntica de si, comungando um mesmo ser e um mesmo mistério com o Universo. No seu olhar contemplativo o Poeta reage pelo espanto, o qual tem para ele um efeito imediato ora positivo ora negativo. Na sua face positiva, o espanto aproxima o Poeta das coisas, irmanando-o com elas; na sua face negativa, pelo contrário, afasta-o. Num e noutro caso, contudo, o espanto exerce uma função iniciática na dinâmica do pensar poético, seja pelo seu poder de transfiguração, que é já o princípio ou o anúncio da aparição da verdade, seja pelo seu poder de inquietação em face do mistério, que abre o Poeta ao seu activo acolhimento41. Por isso escreve Pascoaes, no São Paulo :

«Da estranheza do homem perante o mundo, nasceu a luz do mundo. O espanto é a primeira acção do pensamento.» (SP, 36)42.

Por ele é que o Poeta se distancia do vulgo, em abertura à verdade a que este não tem acesso porque não sabe abrir-se a ela pelo espanto. Conforme o seu lamento, em Vida Etérea, da parte do vulgo, «Ninguém contempla as cousas, admirado. / Dir-se-á que tudo é simples e vulgar...» (VET, 229).

41Para os seres infra-humanos «não existe mistério» e por isso de nada

se espantam. «Mas nos olhos do homem brilha uma luz que renova as cousas. Elas têm sempre uma face escondida a mostrar-se pela primeira vez.» (PL, 179).

42 O espanto primeiro, aquele que marcou o Poeta para a vida inteira,

determinando a sua vocação de pensador, foi o que lhe adveio quando, na infância, abriu verdadeiramente, pela primeira vez, os olhos sobre o mundo e, no seu espanto, viu surgir a primeira aparição da verdade. Foi certamente a memória pessoal dessa experiência que o levou a escrever: «Os olhos das crianças conservam por algum tempo o espanto daquela aparição. E, nos olhos dos grandes Poetas, esse espanto sobrevive à infância, persiste dentro deles, ampliando-os num crepúsculo infinito de tristeza.» (VES, 188).

A aproximação irmanativa das coisas dá-se pela simpatia do olhar amoroso: «Só o olhar comovido ou aquecido penetra, por identificante simpatia, no objecto contemplado» (HU, 48). Por esta simpatia identificante, o Poeta associa à sua a saudade das coisas – «Nas pobres cousas, vede, que saudade, / A olhar, a olhar, absorta, para nós...» (SE, 139) –, passa a sentir em com- saudade com elas. A simpatia transforma-se então em sintonia. O Poeta encontra-se, sem querer, a cantar com elas o mesmo «canto

magoado»43. Fica encantado com elas, pela magia do «encanto»

que delas se desprende. Numa sugestiva passagem do canto XII de Regresso ao Paraíso, através de simbologia apropriada, Pascoaes dá-nos conta dessa função de encantamento realizada pelas coisas quando contempladas pelo espírito «demoníaco» que é o génio do poeta. Se ao vulgo as coisas não dizem nada, ao poeta elas aparecem como in cantu, como algo que canta e com seu canto quebra o silêncio da mudez, chama a atenção e encanta, convidando a participar no seu canto. Nesse sentido é que «um Ah! é irmão do cântico das aves» (RP, 91). Este encanto das coisas, que às vezes também o é da pessoa amada44, é

metafisicamente sedutor. Ele seduz ou encanta o Poeta, remetendo-o para a escuta meditativa desse fundo misterioso ou dessa «música das esferas» ou «canto de silêncio», «que só ouve quem ama, o poeta e mais ninguém» (SE, 182) e que no en-canto das coisas se anuncia45.

43 Referindo-se à hora em que a saudade começou a habitar o seu

coração, escreve o nosso Poeta: «Adquiri então aquele estado musical que me faz vibrar ao contacto das cousas; e, em mim, ressoa o íntimo canto que nelas jaz adormecido...» (BA, 13-14).

44Veja-se, por exemplo, a «Elegia do Amor».

45 Assim Marânus se deixava conduzir por «Esta misteriosa simpatia, /

Que, semelhante à tua lira, Orfeu, / As feras enternece e a luz do dia! /...// Por isso, ele ia andando, neste doce / Enlevo da paisagem, neste encanto, / Que paira, magoado, sobre as cousas, / Onde, em silêncio, jaz divino canto...» (MA, 165). Assim também o pobre tolo: «Fecho os olhos e vejo íntima noite /.../ E falo, dentro em mim, no encantamento / De milagrosas vozes, ressoando / Para além da mudez em que os penedos / Escutam a harmonia do luar. // E tudo nos revela nem eu sei / Que misterioso aspecto, esse outro lado, / Oposto à luz do Sol eternamente...» (PTv, 267).

Mas o espanto, incidindo sobre as coisas na sua ambiguidade de luz e sombra, música e silêncio, se umas vezes é encanto ou deslumbramento, outras vezes é desencanto, inquietude e medo. Para Pascoaes, – e releve-se embora o absoluto da expressão – «o homem vê sempre as coisas através do Medo que, se o repele, é para mais o atiçar na conquista do mundo invisível» (GP, 84). Compreende-se assim que também o medo exerça uma função iniciática na dinâmica do pensar poético. O medo é a inquietação perturbante provocada pela negatividade das coisas no espírito do Poeta tornado «íntima gruta múrmura de sedes», onde elas tomam «formas estranhas, sem sentido» (SE, 121). O sem-sentido das coisas é a sua obscuridade inquietante. A ausência de sentido aparente torna-se para aquele insuportável, como testemunha no poema que estamos a citar, «Numa caverna escura», de Sempre:

E vendo-as, dentro em mim, surpreendido, Eu tive medo delas e gritei...

Gritei. Logo o meu canto de mistério Se fez mortal, nascendo. É medo etéreo, Delírio de alma, inquieta adoração. (SE, 121-122)

Mais sugestivo ainda é o poema do mesmo livro «As minhas sombras», onde o Poeta enfrenta o mistério de existir, servindo-se do simbolismo da noite. Embora denunciando a luz que o mistério esconde, a sua escuridão silenciosa perturba e causa medo, incitando à meditação que é já início de desvelamento:

Paira, em tudo, uma voz emudecida... E essa voz, que é penumbra

E já foi luz e vida,

O meu inquieto espírito deslumbra. ...

Ó drama de existir! Mistério! Alto segredo! E, no templo da noite, eu me recolho aflito. E vejo a imagem lúgubre do Medo E, junto ao seu altar fantástico, medito.

Na sua contemplação da Natureza, pois, o Poeta, tal como o pobre tolo, «... abre / Uns olhos espantados que, de súbito, / As cousas transfiguram!» (PTv, 296). A transfiguração, que confere à visão das coisas um carácter expressionista, é o início da viragem metafísica do pensar poético. Por meio dela, o Poeta deixa para trás a sua face aparente de realidade ou de mentira e volta-se para o aparecer da sua idealidade ou verdade46. Procurar

ver o fundo mais profundo dessa verdade é função do segundo movimento de excedência que é o exodus meditativo. Como já notou Leonardo Coimbra, em Pascoaes «as descobertas da paisagem são o caminho do mergulho interior»47.

Na obra em verso do nosso Autor encontramos facilmente a confirmação deste momento da dinâmica do pensar poético, bem como a sua caracterização48. Na meditação, a simpatia

sentida em face das coisas transforma-se em empatia. Como sente o Poeta as suas «horas de meditação»? Deixemos que ele responda: elas são «Momentos em que vivo o sonho, oculto e mudo, / Sonhado em cada cousa humilde, que se esconde». Na sua meditação assume a meditação das próprias coisas, já que, afinal, «tudo sonha e medita...» (PAL, 121). Comungando intimamente no ser do Universo, nesse mergulho anímico em que tende a (re)encontrar a unidade originária que o ser reclama, o Poeta faz vivencialmente a experiência daquela fusão do individual no todo universal, que irá interpretar em termos de um

46 A íntima relação da transfiguração com o espanto e a sua função

iniciática no processo de conhecimento metafísico podem ver-se neste passo de

Santo Agostinho: «O hábito de ver as cousas vulgariza-as e afasta-as da sua

realidade surpreendente. É preciso torná-las estranhas diante dos nossos olhos, para que nos falem uma nova linguagem mais verdadeira.» (SA, 227).

47 Leonardo Coimbra, Prefácio à 2ª edição de Regresso ao Paraíso, in

Obras Completas, ed. cit., vol. IV, Bertrand, Lisboa, s/d [1968), p.14.

48Vejam-se os lugares já referidos na nota 39 sobre os três movimentos

ou «excedências», e especialmente TP, 299-300 e RP, 141-142; e ainda SE, 207-208 e PAL, 121.

vago panteísmo em que o homem e a Natureza lhe aparecem confundidos numa única essência originária e divina. É que, pensa ele, «Quando a meditação se torna assim / Sem margens e sem fundo, / Nela se perde a nossa consciência / E ficamos irmãos dos arvoredos. // Ela, a meditação, é o nosso ponto / De contacto com Deus, e nos dispersa / Por toda a Natureza...» (RP, 141-142).

Mas a meditação é apenas o fazer caminho, o exodus, na ânsia de «contemplar o Abismo; ver-lhe o fundo» (TP, 299). Para Pascoaes, como para os grandes místicos, a meditação tende a levar ao êxtase em que a verdade, radicalmente divina, se revela à alma. As horas de meditação são, para ele, «Horas em que a Verdade às almas se revela... / Horas de eternidade e graça repentina, / Quando ouço murmurar a mais longínqua estrela / E o silêncio em que desce, ao mundo, a voz divina.» (TP, 300). O êxtase poético-místico é, em Pascoaes, função do sonho. É «o sonho que alvorece» na alma do Poeta que «produz o dia da Verdade» (PAL, 121).

O pensar poético de Pascoaes é um pensar eminentemente simbólico, analógico e anagógico. No seu movimento de contemplação, meditação e sonho, ele serve-se, com abundância, de símbolos, através dos quais procura exprimir o que se lhe apresenta inexprimível em linguagem puramente conceptual. Movendo-se, por outro lado, no horizonte da verdade metafísica e religiosa, aos símbolos utilizados anda inerente uma função analógica e anagógica.

O ponto de partida é o da realidade física e (para ele, só aparentemente) profana. Para Platão, as coisas da Natureza eram, além de sombras e aparências, imitações dos arquétipos divinos. Para Agostinho, eram essencialmente vestígios do divino Artista

criador do mundo. Pascoaes reconhece-lhes platonicamente o estatuto de sombras e aparências, e também, a seu modo, o de vagos vestígios ou «lembranças» de um misterioso Originário, ainda que não rigorosamente o de imitações. O poeta d'As

Sombras não se move nem no horizonte de um platónico mundo

ideal subsistente nem no de uma criação em estrito sentido agostiniano e cristão. Ao olhá-las como aparências e sombras, ele está todavia a atribuir-lhes o estatuto essencial de símbolos. A Natureza é, para ele, um universo simbólico, um reino de símbolos. As coisas, enquanto aparências e sombras, guardam em si aquele poder, próprio do símbolo, de remeter ou reenviar para além delas o espírito que as contempla, o poder de aludir a, de apontar para, enfim, de abrir um horizonte novo de sentido, sugerindo a essência mascarada na aparência ou a luz escondida por detrás da sombra.

No universo simbólico do pensar poético pascoaesiano, é necessário todavia distinguir duas grandes categorias de símbolos, correspondendo uma ao momento inicial e outra ao momento terminal do processo do pensamento. No ponto de partida estão os símbolos que podemos designar por iniciáticos, pois que é sua função iniciarem o pensar do Pensador no caminho (exodus) de procura da verdade. Ligam-se directamente ao momento do olhar poético sobre as coisas, e são constituídos pelas próprias coisas enquanto dotadas desse poder de remissão ou reenvio do olhar para além delas, prolongando e transformando o olhar físico em olhar metafísico. Mas o Poeta- Pensador não apenas vê simbolicamente as coisas; também