2.4 Stabilit´e des ´etats localis´es
2.4.2 Stabilit´e des localisations au voisinage du point de bifurcation
Desde o início da imigração para o Brasil, a hostilidade da terra e das gentes marcou a vida dos imigrantes japoneses. As barreiras e os choques culturais impostos pelas vivências contrastantes entre japoneses e brasileiros e o desejo de retorno à terra natal fizeram com que os imigrantes se fechassem em suas colônias. O desejo de retorno à terra natal era manifesto entre os nikkey da primeira e segunda fase da imigração, pois a ligação com o Japão nunca cessou haja visto o sonho de retorno e a presença de todo o aparato institucional japonês na imigração tutelada.
Além do mais, Handa (1973) bem demonstrou que no sonho de retorno havia a necessidade de as famílias manterem-se japonesas o máximo possível para a aceitação na sociedade nipônica quando do retorno. Desde o início da imigração a hostilidade dos receptores aos costumes imigrantes como a religiosidade, a alimentação, a dinâmica familiar e, notadamente, a língua constituíram uma das principais dificuldades de integração dos imigrantes japoneses à nova sociedade (HATUGAI, 2011). O fechamento nas colônias, o isolamento geográfico, cultural e linguístico gerou confrontos com o ideário de nação brasileira do início do século XX e os brasileiros interpretavam tal fechamento como recusa e invasão à nação brasileira.
Com o fim do conflito mundial, os imigrantes japoneses abortaram o sonho de retorno para a terra natal dada a destruição do Japão e a própria condição de pobreza que muitos deles se encontravam aqui. Diante desse cenário, as famílias imigrantes assumiram o projeto de
16 Foi enorme a violência da imagem do nikkey como inimigo e a perseguição estatal contra eles, a exemplo do
confinamento das famílias nikkey (120 mil nipo-americanos) em um campo de concentração na Califórnia, nos Estados Unidos da América entre os anos de 1945 a 1948. Para mais, ver: https://www.publico.pt/2017/02/19/mundo/noticia/japonesesamericanos-recordam-os-campos-de-concentracao- 75-anos-depois-1762608. Acesso em 10/10/2017.
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fazer as suas vidas no Brasil e o foco passou a se destinar à integração social dos filhos dos imigrantes japoneses, a geração nissei. A partir dos anos 50 e 60, muitas famílias migraram do campo para a cidade a fim de estudar os filhos e, ao menos, encaminhar um dos filhos aos bancos das universidades. A ascensão social e econômica do grupo foi feita pela via da educação (OKUBARO, 2006; SCHPUN, 2008).
Ainda, com o final da Segunda Guerra e com o fim do Estado Novo, paulatinamente a condição de ser nikkey foi saindo da ilegalidade. De acordo com Lesser (2001) e Vieira (1970), a partir dos anos 50 houve a retomada da imigração japonesa para o Brasil, esse momento ficou conhecido como a terceira fase da imigração japonesa ou também a imigração do pós-guerra. Esse período foi compreendido entre as décadas de 50 e 60 e, diferente das fases anteriores, os imigrantes que vieram para cá eram solteiros, em sua maioria, e tinham o intuito de se estabelecerem definitivamente no Brasil em face a devastação do Japão no conflito.
De qualquer modo, compreende-se que apesar de ter existido diversas motivações entre as diferentes fases da imigração japonesa para o Brasil, a destruição do Japão com a Segunda Guerra fez com que os imigrantes japoneses fixassem-se decisivamente em solo brasileiro.
Como pode ser verificado, os imigrantes da primeira e da segunda fase da imigração viveram orientados para o Japão, o forte desejo de retorno para a terra natal e todo aparato institucional japonês da imigração subvencionada foram elementos que mantinham uma ponte permanente entre os nikkey no Brasil com o seu país de origem. Com o fim da Segunda Guerra houve todo um redirecionamento na vida das famílias nikkey e essas passaram a voltar os seus olhos para a ascensão e integração social dos seus filhos via um maior nível de escolaridade. Para a concretização de tal projeto, muitas famílias saíram do mundo rural e migraram para as cidades para o envio de, ao menos, um filho para a universidade e os demais voltados para a formação profissional técnica (HATUGAI, 2011; OKUBARO, 2006).
A atenção à educação sempre foi permanente entre os imigrantes, pois tal valorização da educação já era mentalidade trazida do Japão que desde a era Meiji já havia erradicado o analfabetismo na terra do sol nascente. A partir da geração dos filhos dos imigrantes, o alto nível de escolaridade do grupo e a sua profissionalização foi o salto decisivo para a integração social e econômica da geração nissei na sociedade brasileira ocupando postos trabalhistas representativos no cenário nacional. No entanto, de acordo com Lesser (2001,
2008), os filhos dos imigrantes japoneses lutaram pelo reconhecimento de sua brasilidade participando, inclusive, de lutas políticas como a Revolução Constitucionalista de 1932 e do movimento guerrilheiro durante a ditadura militar, mas em termos simbólicos, isso não significou que eles e as gerações subsequentes tenham sido integralmente inseridas no imaginário de nação brasileira na condição de brasileiros (HATUGAI, 2011).
Segundo os dados publicados pelo Centro de Estudos Nipo-Brasileiros (CENB) em 1990, a população total do Brasil no ano de 1987 era de 141.452,190 habitantes e a população de origem japonesa representava 0, 868% da população total. Em 2017, de acordo com o IBGE, a população total brasileira corresponderia a 207. 660, 929 milhões habitantes. E segundo os dados do Consulado Geral do Japão em São Paulo, na atualidade a população nikkey no Brasil seria em torno de 1.500.000. De acordo com o CENB, entre as cinco regiões do Brasil, a região Sudeste é a que concentrou o maior número de descendentes de japoneses em todo o território nacional. Na data da pesquisa, o CENB indicou que não há regiões brasileiras onde não se encontrem descendentes de japoneses. Contudo, ressalta que essa distribuição é variável, já que 79,40% dessa população encontram-se na região Sudeste. Do total daqueles que habitam no Sudeste, a maioria (72,23%) está no estado de São Paulo e a cidade de São Paulo abriga 26,55% da população nikkey em solo paulista.
Tomando esses números e a história da imigração japonesa, nós temos uma ilustração panorâmica do fato de o Brasil abrigar a segunda maior comunidade nikkey no mundo. Os dados reunidos até o momento mostraram, de maneira breve, as confluências históricas formadoras da corrente migratória japonesa para o Brasil e as diferentes camadas e fissuras que constituíram o processo de estabelecimento dos imigrantes japoneses e seus descendentes em nossa sociedade. Ao reunirmos a noção de ser japonês aportada pelos imigrantes da Era Meiji; o projeto de vida deles no Brasil orientado para o Japão; a presença institucional do Governo Japonês na fase tutelada; o preconceito dos brasileiros; a violência do Estado Novo e os dramas internos da "colônia"; é possível compreender as teias complexas que teceram a história e modularam a presença japonesa no Brasil. E ao tomarmos esses elementos, nós teremos subsídios para compreender as complexidades que remontam a imigração e a presença japonesa na cidade de Marília, o contexto principal dessa pesquisa.