3.3 L’essai PIED
3.3.1 Mod´elisation
As mudanças vividas pela Associação revitalizaram o kaikan por meio da expansão de relações para com a sociedade majoritária e o fortalecimento interno das alianças entre nikkey do mundo urbano e rural mariliense, bem como com toda a região. Ainda que as articulações políticas externas caminhavam para um bom desenvolvimento, o interior do grupo continuava a produzir distinções. Embora já houvesse os conflitos internos por conta das distinções entre os desejosos de fechamento do grupo e os de abertura do grupo, os naichijin29
28 Há uma terminologia específica para classificar as diferentes gerações de descendentes de japoneses nascidos
fora do território nipônico. Issei é a categoria para definir o imigrante japonês: a primeira geração; o termo nissei define o filho de issei: a segunda geração; sansei é o neto de issei: terceira geração; yonsei é a quarta geração: bisneto de issei; gossei é a quinta geração: tataraneto de issei, etc..
29 Naichijin é termo utilizado para se referir aos nipônicos da ilha maior. Há a dicotomia interna naichijin e
okinawajin porque eles não constituem um grupo homogêneo, pois Okinawa sofreu a anexação do Japão em 1879. Okinawa é uma ilha ao sul do Japão possuidora de história, língua, culinária, organização política e religiosidade próprias, mas sob o jugo japonês os okinawanos passaram a receber uma educação homogênea de orientação japonesa. Ainda, há também a distinção para com os ainu, os japoneses do norte, essa população tradicional também era discriminada pelos japoneses, pois os ainu eram tidos por "selvagens", "povos da floresta".
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e os okinawajin, o japonês e Japão Novo, Vieira (1970) e os informantes nissei ressaltaram a insatisfação dos mais jovens para com o kaikan.
Os nissei jovens alegavam não encontrar representação na vida da Associação Nipo-Brasileira de Marília, a queixa constante girava em torno do fechamento político focado na representação mais tradicional dos issei e a ausência de eventos esportivos promovidos pela associação de forma a chamar a atenção dos jovens. Desta forma, os jovens se fechavam no
Seinen-kai (Departamento de Jovens) o único reduto esportivo e jovem da "colônia" e se distanciavam do universo issei.
O Seinen-kai de Marília foi criado em 1930 por um issei okinawano (mesmo fundador da Marília Nihonjin-kai) cujo objetivo era o serviço de correspondência da colônia japonesa30. O Seinen-kai de Marília era basicamente composto por jovens nissei solteiros do contexto urbano periférico e do mundo rural, além deles havia também a ala feminina do
Seinen-kai. Entre os objetivos do grupo estava a prática de esportes japoneses como o judô, o kendô e o desenvolvimento do Budo-kai31 para os homens e as reuniões artísticas para as mulheres com o desenvolvimento de aulas de teatro e canto. Todo o diálogo no interior do grupo era japonês.
Em 1932 o Seinen-kai foi registrado como Associação Nipônica de Moços atuando como subsidiária da Associação Nipo-Brasileira de Marília. Com o seu fechamento durante do Estado Novo, o Seinen-kai volta a atuação em 1950 sob o nome Centro da Juventude Nova Brasileira e em 1957 tem o seu nome novamente alterado para Sociedade Cultural e Esportiva de Marília, doravante S.C.E.M.. Embora o estatuto da S.C.E.M. pregue que a associação não faz distinção de "raça, cor ou sexo", na prática ela continua a ser o Seinen-
kai formado por jovens nissei solteiros com atividades voltadas para o esporte e recreação dos
nikkey, mas sem a existência de festas dançantes por oposição dos issei e a concordância dos
nissei mais conservadores.
Paralelamente ao Seinen-kai S.C.E.M. será fundada em Marília outra associação de moços em 1948. O surgimento do Esporte Clube Mariliense, doravante Esporte Clube, se deve a dois fatores históricos: o político e as mudanças culturais. Ao analisar a sua data de fundação, 1948, vê-se que o seu surgimento se deu como consequência das restrições de Vargas,
30 Vieira (1970) que por todo o Brasil ao lado dos Nihonjin-kai se encontra um Seinen-kai.
31 Literalmente Sociedade para Encorajar o Bushidô (Caminho do Guerreiro) conseguido principalmente pela
prática do judô e do kendô. Na Era Togugawa e no Japão moderno tornou-se ética nacional. Para mais ver Lourenção (2015).
pois o Esporte Clube foi fundado juridicamente com nomes de nissei, isto quer dizer de brasileiros, tendo em vista que Vargas proibiu as associações de estrangeiros. Ao mesmo tempo, os nissei do Esporte Clube desejavam maior integração na sociedade brasileira, bem como uma vida recreativa ligada aos anseios contemporâneos. Desta forma, diferente do tradicional
Seinen-kai S.C.E.M, o Esporte Clube promovia bailes, festas dançantes e eventos esportivos com a prática de baseball. Mas o seu dito caráter mais inovador estava na aceitação de
brasileiros em seu quadro associativo. Tal política inovadora gerou discordâncias na colônia japonesa, os issei e os jovens do Seinen-kai S.C.E.M. não compactuavam que uma dita integração se daria por meio de bailes e carnaval. Eles também criticavam duramente o fato do Esporte Clube ser um clube elitista e aceitar brasileiros. A elitização e a convivência com brasileiros descaracterizariam o perfil do japonês ideal como sujeitos simples e os propósitos de atenção à cultura japonesa.
Por outro lado, os jovens do Esporte Clube respondiam que que os issei eram demasiadamente conservadores e atrasados, mas principalmente os nissei do Seinen-kai S.C.E.M. eram atrasados como os issei, além de serem gente mais "pobre, humilde, do sítio" o que dificultava o entendimento do sentido de integração com a sociedade brasileira.
De qualquer maneira, novamente foi aberta outra divisão no meio nikkey, mas dessa vez entre a segunda geração. De um lado havia jovens com uma orientação mais centrada e fechada no mundo da colônia tendo preconceito para com os brasileiros e do outro lado havia jovens urbanos elitizados que desmereciam e tinham preconceito com os nikkey pobres. Se no mundo do Seinen-kai S.C.E.M. as divisões se davam por gênero, no Esporte Clube a divisão e distinção de classes no seio da colônia ficava evidente.
De acordo com Vieira (1970), o preconceito de classe social era o ponto de conflito do Esporte Clube, pois se os integrantes do Esporte Clube viam os nikkey mais conservadores como "gente pobre do sítio e sem instrução" legitimando o seu senso de superioridade frente aos outros nikkey, houve integrantes do Esporte Clube que se redirecionaram para os eventos da Associação Nipo-Brasileira ("lugar de issei") porque o Esporte Clube começou a ficar "mal frequentado". O "mal frequentado" se devia ao fato de os bailes serem abertos para todo público o que atraia brasileiros de classe baixa para os eventos gerando o "problema da mistura". A "mistura" como recusa e problema ficou mais nítida e mais grave diante das manifestações racistas por parte dos nikkey quando o Esporte Clube montou uma equipe de futebol e convocou jogadores brasileiros negros. Para os nikkey daquele
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contexto, a "mistura" entre japoneses com brasileiros, brasileiros pobres e, sobretudo
brasileiros pobres negros estava para além da linha fronteiriça que deveria separar esses grupos. Em face aos diferentes kaikan e suas diferentes propostas, surge em 1962 a União Cultural e Esportiva Mariliense, doravante U.C.E.M., fundada por nissei okinawanos. Até essa data os jovens okinawanos contavam apenas com a Okinawa Kyokai de Marília e antes do surgimento do Seinen-kai próprio, os nissei okinawanos se dividiam entre o Seinen-
kai da Associação Nipo-Brasileira de Marília e o Esporte Clube de Marília, ambos de maioria
naichiji. E em meio ao universo naichijin, esses jovens nissei ficavam sem representação e para aprofundar ainda mais as distinções, eles eram discriminados tanto quanto os brasileiros no Esporte Clube por serem okinawajin e "estragar o ambiente". Com a fundação do Seinen-kai okinawano, os nissei okinawajin passaram a realizar eventos esportivos, recreativos e festivos próprios da cultura okinawana. A marca diferencial do Seinen-kai okinawano para com os outros dois naichijin era justamente a ênfase na solidariedade étnica em seu estatuto.
Acompanhando a história de formação dos Seinen-kai de Marília, Vieira (1970) enfatizou que esses locais além de cumprirem a sociabilidade esportiva, recreativa e cultural entre os nissei segundo seus anseios, também eram celeiros de políticos. Pois eram dos Seinen-
kai que saíam os jovens políticos rumo às esferas locais, estaduais e federal, de acordo com o apoio das "colônias".
E paralelamente a todas essas subdivisões entre os imigrantes, havia outra grande dicotomia, a mais emblemática: naichjin e okinawajin expressa no Okinawa Kyokai de Marília. O Okinawa Kyokai de Marília foi fundado em 1930 com o propósito de congregar as famílias okinawanas voltando-se para a solidariedade étnica do grupo, "reunindo todas as famílias "como uma só pessoa"". (VIEIRA, 1970:183). De caráter cultural, recreativo e esportivo, a Okinawa Kyokai de Marília, filial da Okinawa Kyokai do Brasil, gozava de autonomia no tocante as suas atividades em relação aos outros kaikan, mas não dispunha de uma sede própria, de modo que celebrava os seus eventos no interior da Associação Nipo- Brasileira de Marília. Em 1952, após a Segunda Guerra, a Okinawa Kyokai de Marília foi registrada sob a denominação Associação Esportiva e Cultural Okinawa de Marília32, nome que carrega até hoje. Entre seus eventos mais célebres encontramos o Undo-kai (gincana da
família), comemorado todo dia 1 de maio desde 1954. Na atualidade o Undo-kai da A.E.C.O.M. participa do calendário oficial da cidade.