5.3 Zen and the art of protocol abstraction
5.3.2 Generalized interfaces
5.3.2.1 Specifications, implementations, and abstract variables
Identificar em que medida poderá o turismo contribuir para o bem-estar e inclusão social das crianças carenciadas, implica desde logo que o objeto de estudo da presente investigação seja a criança, contudo isso não implica que obrigatoriamente seja a criança a população-alvo da recolha de dados, pois durante muito tempo a vida das crianças e a infância foram estudadas a partir das perspetivas dos testemunhos dos adultos por elas responsáveis (Almeida, 2009; Christensen & Prout, 2002). No entanto com o reconhecimento dos direitos da criança e a reconceptualização da criança e da infância nas ciências sociais, as crianças passam a ser encaradas como informadores credíveis e competentes do seu mundo, ainda que vulneráveis e dependentes da proteção adulta (Almeida, 2009; Kirk, 2007; Sarmento, 2008). Neste sentido apesar de se considerar que um adulto teria a capacidade de fundamentar mais consistentemente os impactos no bem- estar da criança, por outro lado, também poderia transmitir uma imagem enviesada e incompleta desses impactos (Bastos et al., 2008), pelo que se optou na presente investigação por privilegiar a perspetiva da própria criança.
Assim para atingir os objetivos propostos, privilegiando a perspetiva das próprias crianças, a presente investigação, tem como população-alvo da recolha de dados, as crianças participantes no programa Colónia de Férias edição 2014 da Fundação “O Século”.
Salienta-se que apesar de no total terem participado 214 crianças no programa Colónia de Férias, devido a princípios éticos que devem ser respeitados em investigações com crianças (como se explica no ponto seguinte) apenas 175 crianças puderam fazer parte da investigação.
4.3.1.1. Investigação com crianças
Os princípios éticos são importantes em qualquer investigação, mas assumem especial relevância quando se trabalha com crianças, devido à diferença em termos de poder entre o participante (criança) e o investigador (adulto) (Almeida, 2009). Assim no sentido de reduzir essa diferença de poder e de proteger as crianças contra consequências negativas que possam resultar da sua participação na investigação, existem vários princípios que devem ser seguidos.
De acordo com Almeida (2009) e Kirk (2007) existem quatro aspetos clássicos que adquirem particular importância nas investigações com crianças, nomeadamente: i) Autorização de participação por dos responsáveis legais e instituições (como as crianças são também menores a sua participação tem de ser devidamente autorizada pelos seus responsáveis legais e instituições onde as crianças são estudadas ou abordadas); ii) adequação das estratégias de recolha de dados (devem ser adequadas não apenas ao tema escolhido, ao quadro teórico de partida, mas também, às características das crianças); iii) o consentimento informado por parte da criança (a criança deve ser informada sobre os objetivos do estudo e a sua participação deve ser voluntária); iv) salvaguarda da confidencialidade e privacidade das crianças (todos os dados devem ser recolhidos e tratados de forma confidencial e o local escolhido para a sua recolha deve ter em consideração a salvaguarda das crianças da intromissão abusiva dos seus pais, família, educadores, colegas, etc.). Com base nestes princípios que são definidos na literatura foram adotados nesta investigação os procedimentos que se descrevem a seguir.
Pedido de autorização de participação aos responsáveis legais e instituições: Este pedido dividiu-se em duas fases. A primeira fase teve início com o envio do pedido de colaboração à Fundação “O Século” (apêndice nº1), para que durante o decorrer do programa Colónia de Férias, edição 2014, fosse possível estudar as crianças participantes. Posteriormente à aceitação do pedido de colaboração por parte da administração da Fundação “O Século”, procedeu-se ao pedido de autorização aos responsáveis legais pelas crianças que foi intermediado pela própria fundação. Nesse pedido foi garantida a salvaguarda da identidade das crianças e a utilização exclusiva dos dados recolhidos para efeitos de investigação. Ainda no mesmo pedido foram elucidados os objetivos do estudo, assim como, o processo de recolha de dados, ou seja, onde, como e quando as crianças seriam alvo de inquirição. Como resultado desse pedido foram obtidas 175 autorizações, o que significa, que num universo de 214 crianças participantes no programa, 39 crianças não puderam participar na investigação.
Adequação das estratégias de recolha de dados às características das crianças: Tal como se poderá verificar detalhadamente no ponto 4.2.3, vários aspetos foram tidos em consideração em relação a este princípio. Entre os quais se salientam, a escolha dos instrumentos de recolha de dados a utilizar de acordo com as idades das crianças
(questionários e desenho para as crianças dos 8 aos 14 anos e apenas desenho para as crianças entre os 6 e 7 anos de idade), a quantidade de perguntas submetidas no questionário, a linguagem utilizada nas perguntas (simplificada e informal) e a adoção de questões maioritariamente fechadas (algumas com figuras ilustrativas).
Consentimento informado: Segundo Gallagher, Haywood, Jones e Milne (2010) este consentimento pode ser obtido por escrito ou verbalmente. Posto isto e devido ao número de crianças em estudo, optou-se pela obtenção de um consentimento verbal. Assim, antes da aplicação dos instrumentos de recolha de dados, em cada um dos três turnos, foram explicados a todas as crianças os objetivos quer do questionário, quer do desenho, assim como, foi referido qual a importância da obtenção das suas respostas e desenhos. Após essa explicação todas as crianças foram informadas que a sua participação não era obrigatória, só participava quem quisesse e que poderiam desistir da sua participação em qualquer altura.
Salvaguarda da confidencialidade e privacidade: Não só pela situação difícil que as crianças em estudo se encontram, mas também, pelo facto de serem menores, tanto a sua identidade como qualquer outra informação sobre a sua vida particular foi mantida em total confidencialidade, não constando por isso em qualquer parte da investigação. Este foi um compromisso assumido desde o primeiro contacto com a Fundação “O Século”, referido e salientado no pedido de autorização aos responsáveis legais pelas crianças. No que diz respeito ao local escolhido para a aplicação dos instrumentos de recolha de dados, este obviamente situou-se nas instalações da Fundação “O Século”, mais concretamente nos quartos referentes a cada grupo, por estes oferecerem mais privacidade e organização.