Conforme dito no capítulo 1, para uma criança é bem mais fácil e cômodo segurar e equilibrar um Pífaro do que uma Flauta Transversal, em razão do pequeno tamanho e baixo peso do instrumento de plástico. Apesar da grande diferença de tamanho entre dois instrumentos, a forma de se segurar é bastante semelhante. Em ambos existem três pontos fixos de contato (ou de apoio):
∗ Cabe observar que as questões abordadas sobre os aspectos técnicos do Pífaro, na quase totalidade das vezes, são válidas também para um trabalho realizado diretamente com a Flauta Transversal.
• o dedo polegar da mão direita
• a base (falange inferior) do dedo indicador da mão esquerda
• a região imediatamente abaixo do lábio inferior (onde se encosta o porta-lábio).
No que se refere à posição do dedo polegar da mão direita, há uma questão interessante, que é válida tanto para o Pífaro quanto para a Flauta Transversal. Se esse dedo ficar posicionado de modo que empurre para frente o instrumento, é possível que todos os demais dedos fiquem soltos (ligeiramente levantados), sem que o instrumento caia.
FIGURA 4 - Os três pontos de contato na forma de se segurar uma flauta transversal FONTE: GALWAY, 1999, p. 78.
A vantagem desta posição, defendida pelo flautista James Galway, é que todos os demais dedos ficam livres para movimentação, ou seja, o equilíbrio da Flauta independe dos outros dedos, que são os responsáveis pelo dedilhados das notas (Cf. GALWAY, 1999, p. 77-81).
Por outro lado, se o polegar direito ficar encostado abaixo do corpo do Pífaro, projetando-o para cima, então serão necessários ao menos quatro pontos de contato com o instrumento, pois, para equilibrá-lo, será imprescindível a ajuda do dedo mínimo da mão direita abaixado em seu respectivo orifício. Isto se percebe de forma bastante clara no dedilhado da nota DÓ do registro médio, em que, na mão esquerda, apenas o dedo indicador fica abaixado.
A base (parte baixa da falange inferior)∗ do dedo indicador da mão esquerda é o outro importante ponto de contato com o instrumento. Ele atua no equilíbrio do Pífaro pelo fato de direcionar para trás, proporcionando uma certa pressão no ponto de contato com a embocadura.
Sugiro que, a princípio, o professor marque, com um pequeno pedaço de etiqueta adesiva, o exato local do Pífaro em que deve ocorrer o contato da base do dedo indicador da mão esquerda: a parte mais próxima à borda de encaixe do bocal (que é um pouco mais larga). Esta idéia também pode ser interessante em relação ao
∗ Ao abordar assuntos que envolvem aspectos corporais, considero essencial que se levem em conta as possíveis diferenças anatômicas entre cada pessoa. Assim, creio que as informações aqui apresentadas devam ser consideradas como diretivas gerais. Por exemplo, especificamente em relação ao tópico que se refere à falange inferior, é importante que se observe o tamanho das mãos das crianças.
outro ponto de contato, ou seja, o do polegar direito. Para marcar estes dois locais no Pífaro, costumo usar pequenas etiquetas adesivas redondas, que normalmente são utilizadas para se fechar envelopes.
Além de praticar a questão do equilíbrio do instrumento a partir da compreensão sobre os pontos de contato, considero também importante que o principiante receba informações e referências quanto à posição e o relaxamento das mãos como um todo. Isto pode ser conseguido, ao se deixar que os braços “descansem”, ao lado do corpo, pendendo naturalmente, pela gravidade. Nesta posição, basta relaxar as mãos para que se formem as curvaturas dos dedos, adequadas para se tocar (tanto o Pífaro quanto a Flauta Transversal). Então, ao levantar o braço, trazendo as mãos para um local próximo da posição em que se toca (lembrando-se de mantê-las relaxadas e de não fechar os dedos), o iniciante poderá visualmente perceber o quanto elas ficam “arredondadas”.
A partir deste ponto, pode-se prosseguir da seguinte maneira: enquanto o aluno permanece na posição corporal acima descrita, o professor pega o Pífaro e o “coloca” de forma que os orifícios do corpo do instrumento fiquem logo abaixo dos dedos e, o porta-lábio, relativamente próximo à boca. O principiante, então, ao pegar o Pífaro, com o apoio dos três pontos de contato, realiza pequenos ajustes para posicionar todos os dedos (exceto o mínimo da mão esquerda) por sobre os orifícios. Obviamente, tudo isto deve ser feito sem que se perca o relaxamento.
Costumo também propor uma idéia, que constitui uma variante do procedimento descrito no parágrafo anterior: ao invés de posicionar os dedos por sobre os orifícios,
peço ao aluno que os coloque entre os orifícios do Pífaro. Além de proporcionar uma estabilidade para o equilíbrio do instrumento, esta outra idéia gera a possibilidade de facilmente se emitir um som. A nota resultante deste “dedilhado” – em que (apesar de todos os dedos estarem em contato com o Pífaro) nenhum dedo fecha seu respectivo orifício – é o DÓ #. Com esta nota podem-se realizar diversas atividades musicais.
Creio ser importante diferenciar duas situações. Uma, é a posição – relativamente estática – em que o Pífaro deve ficar posicionado ao se tocar. Outra, é a maneira – dinâmica – através da qual isto pode ocorrer, ou seja, como se chegar àquela posição.
A seguir, descrevo, passo a passo, uma idéia que – como pude descobrir posteriormente – é bastante semelhante à maneira descrita no Método The Fife Book, de Liz Goodwin, único publicação destinada ao ensino do Pífaro (Cf: GOODWIN, 1998, p.7).
Inicialmente, solicito à criança que, com sua mão esquerda, imite aquele gesto característico que um lutador de karatê faz, quando ele vai quebrar ao meio tábuas ou tijolos que ficam à sua frente: “... iiiiiiáá !”. Nesta posição, a mão esquerda fica parada e aberta à frente, com os dedos um pouco esticados e com a palma virada para o lado:
FIGURA 5 - O gesto do “Karatê” com a mão esquerda.
Em seguida, o iniciante pega o Pífaro com a mão direita de uma forma não usual: envolvendo-o com os dedos. Então, coloca-o, em uma posição horizontal, em seu correto ponto de contato com a mão esquerda:
FIGURA 6 - Segurando o Pífaro com a mão direita, coloca-o no ponto de contato da outra mão.
Posteriormente, traz o Pífaro até a posição de tocar, dobrando os braços (conduzindo o movimento pelo braço esquerdo). Nesta posição, quando os dedos desta mão se dobram, abaixando relaxadamente, suas polpas podem encontrar seus respectivos orifícios no corpo do instrumento.
Logo no começo de seu aprendizado, considero importante que a criança tente experimentar (um pouco) a posição em que polegar empurra o Pífaro para frente. Caso ela demonstre certa facilidade para conseguir equilibrar instrumento com apenas o apoio dos três pontos de contato, isto terá sido ótimo. Mas, caso não consiga, não vejo problemas nesta situação. Quando o principiante apresenta dificuldades iniciais, geralmente não insisto por muito tempo neste ponto, pois creio que o fazer musical seja prioritário: é mais importante que a criança, tão logo que possível, toque músicas e envolva-se expressivamente com os sons de seu novo instrumento.
Nos primeiros estágios de aprendizagem, quando ainda são tocadas apenas as notas SI, LÁ e SOL, cujos dedilhados implicam em se fechar somente os orifícios referentes aos dedos da mão esquerda, freqüentemente ocorre um fato curioso: é bastante comum observarmos as crianças, espontaneamente, segurando o Pífaro com a mão direita sem que isto ocorra na posição padrão, normalmente ensinada. A seguir, mostro algumas fotos de posições “espontâneas” da mão direita:
FIGURA 7 - Mão direita em posição “espontânea”
FIGURA 8 - Mão direita em posição invertida
Pude observar que, freqüentemente, a criança segura o corpo do instrumento com os dedos fechados, em uma posição semelhante a que se usa para segurar o guidão de uma bicicleta ou um bastão:
FIGURA 9 – Mão direita “agarrando” o Pífaro
Considero absolutamente natural que as crianças peguem o Pífaro dessas formas ou de outras, porque, assim, elas obtêm uma maior firmeza. Portanto, essas maneiras devem ser tratadas como posições “intermediárias”, pois logo se passará a tocar com a posição “padrão”:
O aprendizado de como segurar o Pífaro diz respeito não apenas ao posicionamento das mãos e dos dedos, mas também implica em outras partes do corpo. O professor pode observar, principalmente, as relações entre cabeça, braços e tronco.
È importante que a cabeça gire um pouco para a esquerda. Com isto, evitam-se dois problemas: em primeiro lugar, o excesso de tensão no braço e no ombro esquerdo, e, em segundo, uma torção no tronco superior (é desejável que os ombros continuem alinhados com os quadris). Costumo brincar com os iniciantes, dizendo- lhes que o flautista é um ser “privilegiado”, pois ele tem duas “frentes”: uma é a de seu rosto, ou seja, a de seu olhar, e, a outra, é a de seu corpo. Em decorrência desta questão, quando o aluno for ler uma partitura, ele não deve posicionar seu corpo de frente para a estante, e sim o seu rosto. O mesmo também ocorrerá tocando assentado em uma cadeira: esta deve estar um pouco virada em relação à estante.
Enfim, como uma diretriz geral, creio que a postura corporal nunca deva ser concebida como algo que seja fixo ou rígido – principalmente com crianças, plenas,
2.2 - A APRENDIZAGEM INICIAL DA EMISSÃO DO SOM: