Environment Snapshot 3:
3.5 Soundness of Algorithm W 1
Teóricos contemporâneos da SC têm pensado as metáforas conceptuais em termos mais epistemológicos, como Joseph Grady, que desenvolveu a Teoria da
Metáfora Primária (doravante TMP), enquanto um desdobramento da TMC45. Grady (2007, p.192) compreende as metáforas primárias46 como “padrões simples que
45 Não desconsideramos, com Ortiz (2011, p. 60), que “la teoría Conceptual de la Metáfora ha sufrido
distintas modificaciones y actualmente es una combinación de cuatro partes: la Teoría de la Integración Conceptual de Fauconnier y Turner, la Teoría de la Metáfora Primaria de Grady, la Teoría de la Combinación de Cristopher Johnson y la Teoría Neuronal de Narayanan”. Na presente discussão somente levamos em conta, a título de desdobramento da abordagem da TMC, a Teoria da Metáfora Primária, especialmente por tratar de modo mais aprofundado a relação da corporificação na geração dos sentidos metafóricos.
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Como aponta Macedo (2008, p.34), as metáforas primárias, também, chamadas básicas têm uma “base neural resultantes de experiências co-ocorrentes e recorrentes sendo uma de natureza perceptual sensório-motora e outra de natureza conceptual [...]. Assim, nosso sistema conceptual se desenvolveria a partir de percepções possibilitadas pela natureza e pelas especificidades do nosso corpo, na interação com o ambiente. [...] Tal visão de metáfora coloca o paradigma lakoffiano em harmonia com a visão de uma cognição integrada, resultante da atuação efetiva de agentes cognitivos na emergência do conhecimento em geral e do linguístico em particular”.
mapeiam conceitos fundamentais de percepção, em outros igualmente fundamentais, mas não diretamente perceptuais”47
.
O autor ilustra tal conceito retomando o exemplo de Lakoff e Johnson (2002 [1980]) da metáfora MAIS É PARA CIMA, de modo que, a experiência de empilhar objetos, por exemplo, possibilita o mapeamento do conceito de aumento da quantidade, relacionado à altura percebida no ato de empilhamento; nesse aspecto, tem-se uma associação do domínio-fonte acima / altura, relacionado à experiência visual (por isso considerado fundamental), com o domínio-alvo (também fundamental), mas não diretamente relacionado ao aspecto corporificado da apreensão do sentido, que é a quantidade. Outras correlações estabelecidas por Grady são as seguintes:
[...] conceitos fonte de metáforas primárias incluem PARA CIMA, PARA BAIXO, PESO, BRILHO, PARA FRENTE, PARA TRÁS, DOCE, vários conceitos simples de ‘dinâmica de forças’, e assim por diante. Conceitos alvo correspondentes são construídos por esses blocos básicos da experiência mental como DOMÍNIO, MAU, DIFICULDADE,
FELICIDADE, SUCESSO, O PASSADO, ATRAÇÃO e
COMPULSÃO.48(GRADY, 2007, p.193).
Em outras palavras, os domínios-fonte das metáforas primárias geralmente evocam experiências sensoriais que são consideradas universais, através de representações imagéticas, em sua maioria, inconscientes. O caráter universal das metáforas é defendido na TMP no sentido de que, como os seres humanos compartilham, em geral, das mesmas características corporais, as experienciações provenientes dessa estrutura corporal serão as mesmas. No entanto, não se descartam as influências dos filtros sociais e culturais sobre a conceptualização metafórica, o que as torna, nesse sentido, particulares, especialmente sendo metáforas não convencionais. Assim se posiciona Grady (2007, p.194): “Dado que todos os humanos compartilham aspectos básicos de percepção e experiência que
47 Tradução nossa do original: “which map fundamental perceptual concepts onto equally fundamental
but not directly perceptual ones”.
48 Tradução nossa do original: “Source concepts for primary metaphors include UP, DOWN, HEAVY,
BRIGHT, FORWARD, BACKWARD, SWEET, various simple ‘force-dynamic’ concepts, and so on. Corresponding target concepts are such basic building blocks of mental experience as DOMINANT, SAD, DIFICULT, HAPPY, SUCCESS, THE PAST, APPEALING, and COMPULSION”.
são refletidos em metáforas primárias, estes padrões devem aparecer nas línguas ao redor do mundo” 49
.
Nesse sentido, dificilmente as representações imagéticas podem ser decompostas em outras elaborações metafóricas (daí a expressão “primária”), ao contrário das chamadas “metáforas complexas”, que, segundo Grady (2007), trazem, em seu bojo, diversos outros mapeamentos mais elaborados, imbricados no estabelecimento do significado metafórico, não estabelecendo, segundo o autor, uma relação experiencial entre os domínios, e como exemplo, cita a metáfora TEORIAS SÃO CONSTRUÇÕES. Por outro lado, os conceitos-alvo não são, obrigatoriamente, caracterizados por esta representação visual ou experiencial, trata-se, conforme já apontado, de um domínio da experiência menos conhecido, ou, em outros termos, mais abstrato, e que se pretende conceptualizar. Desse modo, as metáforas primárias são “consequências naturais ou até mesmo inevitáveis de associações recorrentes na vida diária”. (GRADY, 2007, p.194)50
.
Sob a perspectiva da TMP, Grady (1999)51 aponta dois principais tipos de motivação para a conceptualização através das metáforas primárias, a saber, as
metáforas baseadas em correlação e as metáforas baseadas em semelhança. As
primeiras são aquelas diretamente relacionadas às experienciações corporais, geradas a partir de experiências desde a infância, a exemplo da relação CALOR- PROXIMIDADE-AFETO, estabelecida entre a criança e sua mãe, em situações de interação física. As mesmas ativam o aspecto neural da elaboração do significado, de modo que tais mapeamentos constituintes das metáforas primárias “são tratados como circuitos neurais relacionando representações dos conceitos-fonte e alvo – circuitos que são automaticamente estabelecidos quando um conceito perceptual e
49 Tradução nossa do original: “Given that humans everywhere share the basic patterns of perception
and experience that are reflected in primary metaphors, these patterns ought to show up in languages around the world”.
50 Tradução nossa do original: “(…) natural or even inevitable consequences of recurring associations in
daily life”.
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Joseph Grady desenvolveu tal tipologia na ocasião da escrita de sua tese doutoral, em 1997, intitulada Foundations of meaning: primary metaphors and primary scenes. Por ser uma publicação de difícil acesso, recorremos à apresentação de tais conceitos feita pelo próprio autor, no texto A typology of motivation for conceptual metaphor: correlation vs. resemblance publicado em 1999, além do já citado texto de 2007.
um não perceptual são repetidamente co-ativados”. (GRADY, 2007, p.194)52
. Além disso, discute que esse tipo de motivação encontra-se na base das cenas primárias, presentes, também, nesse tipo de metáforas:
Uma ‘cena primária’ recorrente, que pode ser caracterizada em um nível muito local e esquemático, envolve uma estreita relação entre duas dimensões da experiência – tipicamente com uma mais diretamente relacionada à entrada sensorial do que outra. O típico dessas cenas é que elas são elementos da experiência humana universal – experiências sensório-motoras básicas, emocionais e cognitivas que não dependem das particularidades da cultura. (GRADY, 1999, p.7)53.
Para ilustrar tal motivação, Grady (1999) apresenta a expressão metafórica DESEJAR É TER FOME, que estabelece uma relação entre a sensação física advinda da fome e o foco consciente em realizar algo. Nesse caso, há uma relação experiencial básica do pensamento motivando a conceptualização, a partir de um estado cognitivo e emocional básico.
A respeito do segundo tipo, as metáforas baseadas em semelhança, por sua vez, o autor argumenta que não há uma evocação direta de uma perspectiva corporificada para haver a conceptualização, antes, trata-se de uma metáfora complexa, que se baseia em algum tipo de semelhança entre os domínios-fonte e alvo. Para ilustrar tal tipologia não motivada pelo aspecto experiencial direto, Grady (1999) usa o exemplo54 da expressão metafórica Aquiles é um leão. O autor aponta que a semelhança encontra-se na coragem, tanto do leão, quanto de Aquiles; assim, apenas, um aspecto do leão é destacado, a fim de ser conceptualizada, de modo semelhante, a pessoa corajosa, sem que, necessariamente, os domínios-fonte e alvo (leão / Aquiles) tenham compartilhado de experiências sensório-motoras, a fim de se estabelecer tal associação, mas ambos possuem alguma característica que irá uni- los:
52 Tradução nossa do original: “the mappings that constitute primary metaphors are treated as neural
circuits linking representations of source and target concepts—circuits which are automatically established when a perceptual and a nonperceptual concept are repeatedly co-activated”.
53Tradução nossa do original: “Namely, a recurring 'primary scene', which can be characterized at a
very local and schematic level, involves a tight correlation between two dimensions of experience— typically with one more directly related to sensory input than the other. Typical of these scenes is that they are elements of universal human experience—basic sensori-motor, emotional and cognitive experiences which do not depend on the particulars of culture”.
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O autor informa que foi, originalmente, citado por George Lakoff e Mark Turner, na obra More than cool reason: a field guide to poetic metaphor, publicada em 1989.
Por que nós projetamos bravura humana em aspectos do comportamento instintivo dos leões e vice-versa, ao invés de associar pessoas corajosas com frangos ou peixes dourados, por exemplo? A explicação mais plausível é que nós percebemos algo em comum entre leões estereotípicos, que é a base para este esquema, e pessoas corajosas. Leões e pessoas corajosas ambos (parecem) enfrentar adversários perigosos sem medo. (GRADY, 1999, p.11)55.
Concordamos com Ortíz (2011), ao afirmar que uma das vantagens dessa abordagem repousa sobre a simplificação ao identificar os elementos que são projetados nos diferentes domínios, o que, consequentemente, facilita a compreensão sobre a estrutura das metáforas complexas, enquanto compostas por (ou baseadas em) metáforas primárias, que são motivadas sensorialmente.
Após discutir as motivações que permeiam as distintas conceptualizações, a partir das metáforas primárias, Grady (1999) apresenta pelo menos três critérios que as distingue, no que tange a uma proposta tipológica: a direcionalidade, a ontologia e a convencionalidade.
O primeiro aspecto, da direcionalidade, aplicado às metáforas primárias, é discutido através da metáfora CINTURA DE MULHER É AMPULHETA. Grady (1999, p.20) defende que “qualquer instância pode servir como fonte para o outro alvo”56
, a depender do foco que seja estabelecido no ato da conceptualização, de modo que, por exemplo, assim como a cintura de uma mulher pode ser conceptualizada como uma ampulheta, o referido objeto pode ser “feminilizado”, ao se destacar sua parte mais estreita. Assim, esse aspecto nos parece desconstruir a ideia da unidirecionalidade das projeções entre os domínios, nas metáforas conceptuais, conforme proposto inicialmente no âmbito da TMC, conforme já discutimos em subtópico anterior.
O aspecto da ontologia destaca que as metáforas de correlação e as de
semelhança evocam diferentes tipos de domínios-fonte e alvo. Geralmente, as
55Tradução nossa do original: “Why do we project human bravery onto aspects of lions' instinctive
behavior, and vice versa, rather than associating brave people with chickens or goldfish, for instance? The most plausible explanation is that we perceive something in common between stereotypical lions, whatever the basis for this schema, and brave people. Lions and courageous people both (appear to) confront dangerous opponents without fear”.
primeiras relacionam conceitos de tipos diferentes (como no exemplo da metáfora MORTE É SONO, que evoca o estado da inatividade), enquanto as metáforas de semelhança estabelecem correspondências entre conceitos de mesmo tipo, como é o caso de dificuldades e peso, que apontam para a metáfora DIFICULDADES SÃO FARDOS (GRADY, 1999).
Por sua vez, a convencionalidade aponta para a imprevisível criatividade humana para estabelecer semelhanças entre conceitos aparentemente díspares, gerando, sempre, novas metáforas de semelhança, ao contrário das metáforas de correlação, que terminam por restringir tais criações (por sempre estabelecerem relações com conceitos de uma mesma natureza), de modo que, quanto mais criativa a metáfora, menos convencional ela será para o falante57.
Apontados alguns dos pontos que julgamos mais relevantes para a apresentação dos MCI’s de cunho metafórico, passemos à discussão dos MCI’s metonímicos.