Typing Non-Functional Constructs
5.2 Issues in Typing Non-Functional Objects
A prática de um ofício, com a passar do tempo, tende, até mesmo de forma espontânea, a apresentar melhorias, devido às constantes repetições demandadas pela rotina laboral. Assim, em consequência do desenvolvimento das atividades peculiares de um ofício, notamos que a experiência passou a ser vista como uma vantagem, em relação à produtividade no trabalho, como o defendia Smith (1996[1776]):
O aprimoramento da destreza do operário necessariamente aumenta a quantidade de serviço que ele pode realizar; a divisão do trabalho, reduzindo a atividade de cada pessoa a alguma operação simples e fazendo dela o único emprego de sua vida, necessariamente aumenta muito a destreza do operário. (SMITH, 1996 [1776], p.68).
Pudemos observar esta preocupação do trabalhador, em destacar seu mérito por dominar a sua prática laboral, na ocorrência (8):
(8) O agente de leilões Roberto Tavares tem a honra de participar ao respeitavel publico desta capital que pelo meritissimo Tribunal do Commercio do Rio de Janeiro foi nomeado leiloeiro desta cidade e seu termo. A longa pratica desta profissão que exerceu no Rio de Janeiro no largo tirocinio de 10 annos, habilitaram’no a bem desempenhar este encargo; offerecendo á confiança e a protecção do publico, a garantia do seu passado honroso e sem mancha. (Notícia – Agente de leilões, p.3, 1877).
A relação estabelecida entre as expressões destacadas nos trechos: “A longa pratica desta profissão”, “largo tirocinio de 10 annos” e “habilitaram’no a bem desempenhar este encargo”, aponta para o entrelaçamento entre os EI’s da ESCALA e da VERTICALIDADE, de modo que, quanto mais tempo de atividade laboral, maior será a experiência, e, em consequência, maior será a qualidade do resultado dele advindo. Assim, identificamos metáfora complexa: EXPERIÊNCIA DO TRABALHO É GARANTIA DE SUCESSO, de modo que TRABALHO É RESULTADO DE EXPERIÊNCIA ACUMULADA.
(39) Acha-se á testa do nosso estabelecimento o socio sr. José Sims, com muitos annos de pratica em Inglaterra, Rio de Janeiro e ultimamente nesta cidade, cujos trabalhos já estão muito approvados, o que é uma grande garantia para nossos freguezes. (Annuncios – Fundição campineira, p.3, 1881).
Na referida ocorrência, há uma projeção sobre o domínio-alvo trabalho a partir de um domínio mais concreto, ou familiar, abstratizando-o, a saber, TRABALHO É ATIVIDADE QUE SE AVALIA. O uso de expressões qualificadoras e quantificadoras, como em “cujos trabalhos já estão muito approvados”, que nos sugeriu a conceptualização TRABALHO É EXPERIÊNCIA ACUMULADA AO LONGO DO TEMPO, também observada em (96):
(96) Os engenheiros abaixo-assignados, com longa pratica de serviços, encarregam-se de todos os trabalhos de sua profissão [...]. (Escriptorio de Engenharia, p.3, 1898).
O trecho “encarregam-se de todos os trabalhos” aponta, inclusive, para o EI do RECIPIENTE, sugerindo, experiencialmente, a noção de acúmulo e empilhamento de objetos em determinado espaço, a sobreposição de atividades, na rotina daqueles que a realizam; além do EI PARTE-TODO, em que “todos os trabalhos” generaliza os trabalhos atinentes àqueles de “sua profissão”.
Temos, em (97), uma associação entre espaço e rotina (tempo produtivo corrido) do trabalhador, de modo a sugerir-nos a metáfora TRABALHO É OCUPAÇÃO DE ESPAÇO. A associação espacial, no sentido de delimitação de atuação, observamos no trecho “não só nesta comarca como em qualquer outra servida por estrada de ferro”:
(97) Abelardo de Cerqueira Cesar encarrega-se de todos os serviços concernentes á sua profissão não só nesta comarca como em qualquer outra servida por estrada de ferro. (Advogado, p.3, 1898).
Apesar de, inicialmente, ampliar a atuação do trabalhador, pela expressão “todo trabalho”, o escrevente novamente a restringe, pela especificação “concernentes á sua profissão”, no que observamos um recorte metonímico, semelhante ao que ocorreu no trecho seguinte, em (71), cuja atividade é especificada, tanto em relação ao lugar, quanto ao seu tipo e finalidade, sugerindo-nos, ao ancorar-
se no EI ORIGEM-PERCURSO-META, o acarretamento metafórico TRABALHO É
ATIVIDADE ESPECÍFICA REALIZADA EM UM LUGAR, VISANDO A UM FIM:
(71) O Audace, [submarino] que tal é o seu nome, é dividido em diversos compartimentos, e possue uma porta de tal modo combinada que mergulhadores podem fazer o seu trabalho no fundo do mar para apanhar os seus objetos de valor. (Noticias da noite – Um novo submarino, p.2, 1892).
O interesse dos trabalhadores pelo desenvolvimento de suas habilidades, mesmo antes de iniciarem a prática laborativa remunerada já era patente, também no início do séc. XIX, como podemos observar em (9):
(9) Um rapaz que quer habilitar-se para ser guarda livros, deseja achar uma casa de negocio para practicar. Não faz questão em ordenado [...]. (Anuncios – Guarda livros, p.4, 1877).
No referido anúncio, há uma solicitação de oportunidade para desenvolvimento da atividade laborativa: “deseja achar uma casa de negocio para practicar”. Assim, o trabalho, nessas circunstâncias, é conceptualizado como prática, visando, no futuro, a desempenhar a mesma função, porém de modo profissional. Dessa forma, notamos o acionamento do EI do PROCESSO, cujas conceptualizações metafóricas são:
TRABALHO É PRÁTICA, TRABALHO É APERFEIÇOAMENTO DO TRABALHADOR, TRABALHO É ACÚMULO DE EXPERIÊNCIA. Observamos, ainda, o EI do
CONDUTO, em que o trabalho é o caminho a ser percorrido até que se chegue ao aperfeiçoamento das destrezas laborativas. A expressão linguística “Não faz questão em ordenado” sugere-nos uma reorganização do conceito de trabalho, segundo o qual o tempo de experiência será o fator determinante para a legitimidade ou formalização da ação laboral, o que aponta para o acarretamento PREPARAÇÃO
PARA O TRABALHO É TRABALHO ILEGÍTIMO170.
Outro aspecto do aperfeiçoamento pudemos depreender das ocorrências (81) e (141):
170 A nosso ver, semelhante conceptualização ainda é perpetuada na contemporaneidade, sob a forma
dos chamados “estágios não-remunerados”, em que há o desenvolvimento de atividades trabalhistas, porém sem a legitimidade atribuída ao sujeito considerado profissional; até mesmo o conceito do que seja “profissional” está imbuído de outras variáveis, como tempo, experiência, desempenho, formação, dentre outras.
(81) Depois s. exa. encerrou-se no seu gabinete de trabalho com seu secretario. Estiveram por muito tempo a trabalhar na mensagem que será lida por occasião da abertura do Congresso [...]. (Notas e informações, p.3, 1895).
(141) Mais três espectaculos annunciam-se para hoje no Theatro Recreio, onde Genesio Arruda está trabalhando com sua Compainha de Disparates Comicos. (Noticias Theatraes, p.3, 1938).
Vemos, nesse ínterim, que o resultado do aperfeiçoamento recai sobre uma categoria não-humana, ainda que o trabalho seja realizado por agentes humanos, como se vê nas expressões: “Genesio Arruda está trabalhando com sua Compainha de Disparates Comicos” (141) e “trabalhar na mensagem que será lida por ocasião da abertura do Congresso” (81). O uso verbal também foi semelhante em ambas as ocorrências, nas quais as preposições destacadas apontam para os EI’s do RECIPIENTE (em + a mensagem), e de LIGAÇÃO (com + companhia). Assim, depreendemos que o resultado do aperfeiçoamento é que será o trabalho, metonimicamente, elaborado com o sentido TRABALHO APERFEIÇOADO É GERADOR DE MELHORES RESULTADOS, sendo estes, respectivamente, um melhor texto e um melhor espetáculo.
Nesse sentido, a elaboração metafórica TRABALHO É APERFEIÇOAMENTO pode ser compreendida, de modo mais particular, aplicada a agentes não-humanos, ou seja, os resultados do trabalho, nas ocorrências (81) e (141), conforme supracitadas, e de modo mais geral, na ocorrência (9), relacionada ao próprio trabalhador e sua práxis laboral.
Em (281) e (282), notamos a conceptualização metafórica TRABALHO É ESTRATÉGIA A SER APERFEIÇOADA, pelos trechos em destaque:
(281) “Acho que corremos um grande risco. Primeiro porque o Audax tem um trabalho e um conceito de jogo que é aprimorado a todo momento. Não foi por acaso que tirou os adversários que tirou”, afirmou o treinador Santos. (Notícia – Ciro Campos – Audax desafia hegemonia do Santos, p.74, 2016).
(282) Essa ascensão significa também declarações muito bem estudadas. “É uma semana decisiva. Tentar fazer um bom placar no primeiro jogo, trabalhar bem a bola. Temos de marcar e colocar nosso futebol em prática”. (Gonçalo Junior – Reportagem – Gabriel busca se consolidar como ídolo, p.75, 2016).
Em (290), identificamos que TRABALHO É RESULTADO DE UMA AÇÃO ANTERIOR:
(290) Para tentar aumentar o número de mulheres já no ano que vem, a FPF (Federação Paulista de Futebol) criou um programa especial voltado para treinamento específico das árbitras, com trabalho físico, técnico ou psicológico, que permitam aumentar a performance nas diversas competições paulistas no ano que vem. A dificuldade para acompanhar o ritmo dos homens faz com que muitas mulheres acabem desistindo de seguir carreira ou mesmo de evoluir a ponto de ter condições para trabalhar em grandes jogos. (Daniel Batista – Reportagem – Mulher na arbitragem rareia em São Paulo, p.77, 2016).
O trecho “treinamento específico das árbitras, com trabalho físico, técnico ou psicológico” (290), metonimicamente, perspectiva os tipos de trabalhos desenvolvidos, objetivando a preparação das árbitras; assim, temos que o trabalho é entendido como uma preparação para execução futura de outro tipo de trabalho, de modo que, conceptualmente, temos TRABALHO É PREPARAÇÃO, e como, ao longo do referido texto, temos a especificidade do tipo desta preparação, podemos inferir, pelo EI do PROCESSO, que TRABALHO É TREINO. Observamos o objetivo do treino em: “aumentar a performance nas diversas competições paulistas no ano que vem”, de modo que, ancorando-se no EI da ESCALA, cria uma proporção, segundo a qual, MUITO TREINO RESULTA EM MELHOR DESEMPENHO. Tal conceptualização também foi reforçada pelo trecho: “A dificuldade para acompanhar o ritmo dos
homens faz com que muitas mulheres acabem desistindo de seguir carreira ou
mesmo de evoluir a ponto de ter condições para trabalhar em grandes jogos”.
Em (291), o trecho “as meninas continuam fazendo testes físicos masculinos e além de ter de passar por um teste complicado, precisam estar habilitadas tecnicamente” aponta para um preparo que antecede a execução do tipo de trabalho:
(291) [...] as meninas continuam fazendo testes físicos masculinos e além de ter de passar por um teste complicado, precisam estar habilitadas tecnicamente. Tudo isso faz com que tenhamos poucas assistentes aptas para trabalhar em jogos grandes no estado. (Daniel Batista – Reportagem – Mulher na arbitragem rareia em São Paulo, p.77, 2016).
Já o trecho: “poucas assistentes aptas para trabalhar em jogos grandes no estado” especifica qual é este tipo de trabalho. A expressão “aptas” nos sugere que
TRABALHO É EXECUÇÃO DE ATIVIDADE QUE EXIGE PREPARO FÍSICO, que, neste caso, seria a prática de exercícios físicos.
Nas ocorrências seguintes, observamos a conceptualização TRABALHO É ATUAÇÃO QUE OCORRE EM UM LUGAR, pelos trechos em destaque, nos quais identificamos o EI de LIGAÇÃO, por exemplo, em (292), pelo uso prepositivo “trabalharem com arbitragem”, no sentido de atuar ou realizar algo em alguma circunstância, e nas seguintes, o EI do RECIPIENTE, reforçando a conceptualização metafórica TRABALHO É ATUAÇÃO QUE OCORRE EM UM LUGAR, pela preposição locativa em:
(292) Existe muita procura de mulheres para trabalharem com arbitragem? [Pergunta de uma entrevista a Ana Paula de Oliveira, da ENAF]. (Daniel Batista – Reportagem – Mulher na arbitragem rareia em São Paulo, p.77, 2016).
(293) Márcia Bezerra Caetano, assistente, 41 anos. Já foi assistente FIFA, e neste ano trabalhou em três jogos série A-1 e três da série A-2. (Daniel Batista – Reportagem – Mulher na arbitragem rareia em São Paulo, p.77, 2016).
(294) Tatiane Camargo, 31 anos, assistente. É apontada como a melhor assistente do Estado. Trabalhou em apenas quatro jogos da Série A-1, pois foi convocada para trabalhar no Sul-Americano feminino em partidas de competições nacionais. (Daniel Batista – Reportagem – Mulher na arbitragem rareia em São Paulo, p.77, 2016).
As ocorrências referentes ao MCI do APERFEIÇOAMENTO estiveram presentes nos séc. XIX, XX e XXI, acionando, predominantemente, elementos conceptuais metafóricos, estruturados pelos esquemas imagéticos, ao mapear os conhecimentos do respectivo domínio-fonte, para sua projeção no domínio-alvo TRABALHO. Não notamos a ocorrência de metonímias no referido MCI.
Passemos à discussão a respeito das ocorrências que, a nosso ver, fizeram parte do MCI do SERVIÇO.