Chapitre 4 Amélioration et optimisation de la machine à aimants
3) Simulation éléments finis
A semântica é sem dúvida um aspecto chave da linguagem. Contudo, alguns teóricos (Bemstein, 1976; Meyer, 1956; Stravinsky, 1942) consideram que semântica é também um aspecto importante da música. Da análise destes teóricos podem-se distinguir diferentes aspectos do significado musical: (1) o significado que surge da utilização de padrões e formas comuns, e.g., padrões sonoros que imitam objectos e animais (telefone, campainhas, cantar dos pássaros), (2) padrões sonoros que sugerem estados de espírito (alegria, tristeza, etc.), (3) o significado adjacente a associações extra-musicais (e.g., hinos, entre outras) e (4) o significado da combinação de estruturas que criam tensão ou repouso, e que requerem a integração de eventos esperados ou não num determinado contexto musical com significado.
Embora alguns linguistas considerem que não é possível transferir conceitos semânticos específicos (Pinker, 1997), a questão da semântica musical tem sido estudada neuropsicologicamente por analogia com a linguagem. A metodologia que tem sido mais utilizada nesta problemática é a electroencafalografia. Apresenta-se a seguir uma breve revisão de estudos sobre a semântica musical em comparação com a linguagem.
Usando a metodologia dos ERPs Kutas e Hillyard (1980) verificaram que quando as pessoas lêem uma frase que termina com uma palavra que não esta relacionada com o contexto que a precede, essa palavra provoca um componente ERP conhecido por N400 (Kutas & Hillyard, 1980; para uma breve explicação sobre o N400 cf. Ponto 2.3.1 nesta secção). Estudos posteriores demonstraram que a incongruência semântica só por si não é suficiente para provocar o N400. De facto, a amplitude do N400 diminui quando existe uma repetição da frase e desaparece
quando a frase é repetida mais duas vezes (Besson, Kutas, & Van Petten, 1992). A amplitude do N400 varia em função da incongruência, i.e., se a palavra apresentada é mais ou menos relacionada com a palavra esperada. Por exemplo, na frase "Hoje ao
pequeno-almoço comi pão com... " a palavra mais esperada poderá ser "manteiga, ou queijo, ou fiambre" e a relacionada "leite, ou sumo, ou café". Nestes casos a
amplitude do N400 é menor, o que reflecte a menor dificuldade em integrar a palavra no contexto que a antecede. Uma outra característica do N400 é que este componente não é específico de estímulos visuais (e.g., leitura). Pode ser provocado por estímulos auditivos (Holcomb & Neville, 1990).
Com base no pressuposto de que o N400 pode ser provocado por estímulos auditivos, Besson e Maçar (1987) prepararam um dos primeiros estudos no sentido de verificar se o N400 poderia ser provocado por estímulos não-linguísticos, e.g., estímulos musicais (Besson & Maçar, 1987). Neste estudo compararam os ERPs provocados por palavras em final de frase, que eram congruentes ou incongruentes com o contexto precedente, com os ERPs provocados por notas finais de melodias conhecidas e que poderiam estar correctas, i.e., seriam esperadas, ou incorrectas, inesperadas. As notas erradas estavam harmónica e melodicamente incorrectas, e poderiam ainda terminar com um timbre diferente das notas precedentes (25% dos ensaios terminaram com timbre diferente). Os resultados revelaram que as palavras finais incongruentes provocaram o N400 enquanto que as notas finais incongruentes provocaram componentes de ERPs positivos, cuja amplitude máxima se verificou por volta dos 600 msec após a apresentação do estímulo (LPC - Late Positive Component). Estes resultados foram considerados como evidência de que o N400 é específico do processamento linguístico.
Estudos posteriores (Besson, Faita, Peretz, Bonnel, & Requin, 1998b; Palier, McCarthy, & Wood, 1992) tentaram verificar se o N400 poderia estar associado a incongruências musicais, tendo sido declarado nesses estudos que estas incongruências evocam um componente de ERP positivo que varia entre os 300 e os 600 msec após a apresentação do estímulo. O facto de estes estudos não terem encontrado associações entre o N400 e as incongruências semânticas pode estar relacionado com o tipo de tarefa. As incongruências nestes estudos estavam mais relacionadas com a estrutura harmónica e melódica da música, e não um possível significado de uma nota ou um acorde no final de uma frase musical. Sem dúvida, a alteração destas notas ou acordes corrompem uma expectativa. Contudo, tratam-se de expectativas estruturais. A semântica musical pode estar relacionada com tarefas de Prime. É possível associar passagens de obras musicais a conceitos concretos. Intuitivamente, quando se ouve uma obra musical de Beethoven, e.g., sinfonias ou concertos para piano, dada e sua magnificência e força, é possível associá-las com a palavra herói (Koelsch et ai., 2004).
Recentemente, Koelsch e colaboradores (2004) prepararam um estudo comportamental e electrofisiológico no sentido de testar a hipótese de a música transferir conceitos semânticos. Para o efeito, estes investigadores utilizaram frases de linguagem e excertos musicais (estes últimos foram retirados de CDs comercias), a seguir aos quais apresentavam palavras que estavam ou não relacionadas com o contexto apresentado. As palavras-alvo eram substantivos de língua alemã, e.g., escadas, rio, rei. As palavras que foram apresentadas a seguir aos excertos musicais foram seleccionadas com base em relatos escritos deixados por compositores, e.g., Schõnberg e Stravinsky, ou com base em terminologias musicais. Nesta experiência os participantes eram não-musicos, e não estavam familiarizados com os excertos
musicais, fazendo com que o significado não fosse atribuído a associações extra- musicais directamente relacionadas com a linguagem, e.g., título, letra. Os resultados na tarefa de linguagem revelaram que apresentação de palavras não relacionadas com o contexto provocava o efeito N400. Estes resultados corroboram os de estudos anteriores onde se verificou a presença do N400 em tarefas relacionadas com a semântica da linguagem, e nos quais se verificou que este efeito reflecte processos de analise linguística, estando dependente do grau de adaptabilidade da palavra apresentada com o contexto precedente. Contudo, os resultados mais importantes neste estudo foram os encontrados nas tarefas musicais. O N400 foi também observado quando foram apresentadas palavras não relacionadas com o contexto musical precedente. O N400 observado nas tarefas musicais não foi diferente do observado nas tarefas de linguagem no que diz respeito à latência, à distribuição no escalpe cerebral, às fontes neurológicas ou à amplitude. Verificou-se nesta experiência que o N400, para ambas as tarefas, se encontrava localizado na parte posterior da circunvolução temporal média (ares de Brodmann 21/37), e nas proximidades do sulco temporal superior. Estas regiões tinham sido já declaradas como envolvidas no processamento da informação semântica em tarefas de linguagem (Friederici, 2002).
As semelhanças entre o efeito N400 da música e da linguagem demonstram que a música pode transferir mais informação semântica do que era suposto, e que as operações que decifram informação com significado enquanto se ouve música podem ser idênticas àquelas que servem o processamento semântico da linguagem (Koelsch et ai., 2004). Ainda relacionado com este estudo, nas tarefas de música observou-se que o N400 era provocado quer por palavras concretas quer por palavras abstractas, demonstrando que a música transmite informação semântica concreta e abstracta. O
facto de existirem estas semelhanças entre a música e a linguagem não implica que a ambas tenham a mesma semântica. O conhecimento que as pessoas têm da linguagem não pode ser comparável aos conhecimentos musicais.
A presença do N5 em tarefas relacionadas com o processamento de características estruturais (Pouli-Charronnat et ai., 2006) e do N400 reportado por Koelsch e colaboradores (2004) podem ser indicadores de que na música poderá existir um nível de processamento semelhante ao que existe em linguagem e que os linguistas denominara "semantax", i.e., um nível intermédio entre sintaxe e a semântica.
Em conclusão, existem indícios comportamentais de que a aquisição de conhecimentos musicais, à semelhança da aquisição da linguagem, deve ser considerada numa perspectiva de interacção entre a natureza e a educação, i.e., a aprendizagem (Schellenberg, Bigand, Poulin-Charronnat, Gamier, & Stevens, 2005b; Trehub, 1999). Existem evidências de que o cérebro possui áreas especializadas para o processamento da música (Peretz, 2002; Peretz & Coltheart, 2003; Peretz & Zatorre, 2005), que estas áreas são semelhantes para os músicos e para os não músicos (Koelsch, Gunter, Friederici, & Schrõger, 2000), e que alguns aspectos específicos da música e da linguagem partilham regiões e mecanismos cerebrais (Besson & Schõn, 2001; Koelsch et ai., 2005b; Koelsch et ai., 2002a; Koelsch et ai., 2004; Maess, Koelsch, Gunter, & Friederici, 2001; Patel, 2003; Patel & Daniele, 2003; Patel, Gibson, Ratner, Besson, & Holcomb, 1998b; Patel, Iversen, & Hagoort, 2004; Patel, Peretz, Tramo, & Labreque, 1998a). Os resultados dos diversos estudos analisados indicam que o cérebro humano processa música e linguagem com mecanismos cognitivos e estruturas cerebrais sobrepostas. Assim, e apesar da visão
de alguns linguistas de que a música e a linguagem são domínios separados (Pinker, 1997), os resultados destes estudos revelam que o cérebro humano utiliza uma variedade de mecanismos e estruturas para processar música e linguagem que poderão ser partilhados por ambos.
3. ESTUDO I