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3.5 Contextes applicatifs

3.5.2 Sécurisation d'achage

Existe um modelo de paisagem em que esta se associa à ideia de serenidade. Procura-se no campo um local ameno, algo sereno, onde o homem pode encontrar paz, entrando em comunhão com a natureza.

«(…) Awesome and beautiful landscapes can detoxify the mind and spirit. The Word «amenity» derives from the Latin adjective amoenus, meaning «pleasant». The locus amoenus, the «pleasant place», was a phrase used in classical and Renaissance times to designate distinctively beautiful rural and garden retreats. The phrase has an obvious kinship with the ancient term «pleasance», which referred to secluded pleasure grounds on a large garden retreat (….)»23

Encontramos esta ideia de serenidade na paisagem na poesia bucólica grega e romana que elogiava as vantagens e virtudes da vida em contacto com a natureza. Para estes poetas, como Horácio (65 a.c. - 8 a.c.)e Virgílio (70 a.c.-19 a.c.), a natureza é uma fonte de experiências sensoriais muito ricas e únicas, que o homem pode usufruir. Nestas experiências naturais misturam-se cheiros, sabores, cores e sons de modo a criar sensações inebriantes.

A paisagem seria um local idílico, fora do bulício e agitação dos grandes centros urbanos. Sobretudo no Renascimento e em Itália, o campo passa a ser observado como um local privilegiado onde as pessoas da cidade se refugiam para aproveitar um ar mais respirável, uma atmosfera mais saudável. No final da Idade Média as cidades crescem muito e são invadidas por uma população muito pobre, que trabalha no comércio, no artesanato ou nas manufaturas. Estas cidades apresentam condições de salubridade muito precárias e são grandes focos de doenças e infeções. São também locais pouco seguros onde o crime e a corrupção imperam.

A vida no campo é vista como causa do bom convívio entre as pessoas, como um fator de melhoramento das virtudes humanas. Estabelece-se uma oposição entre a vida na cidade, causa de corrupção, de poluição, de doença; e a vida do campo, onde o contacto com a natureza e com as pequenas comunidades rurais incentiva o desenvolvimento dos bons sentimentos, das virtudes humanas e da saúde física.

«(…) Early Christian anchorites and renaissance humanists celebrated the experience of solitude and spiritual refreshment afforded by pastoral retreats. Life in the country as compared to the burgeoning cities seemed simplified, less subject to rapid and convulsive change, free from crowds,

noise and pollution, and in tune with natural processes(…)»24

Fig. 14 - Dois pormenores do conjunto de frescos dos irmãos Lorenzetti intitulados O bom e o mau

governo, realizados de 1338 a 1340, no Palácio Comunal em Siena.

Na pintura mural O bom governo de Ambrogio Lorenzetti (1280-1348) e Pietro Lorenzetti(1290-1348), presente no Palácio Comunal de Siena, surgem representadas a cidade muralhada e a natureza que a envolve. Como é visível no pormenor deste painel, presente na figura 14, à medida que esta natureza se afasta da cidade, ela vai-se tornando mais selvagem, menos influenciada pelas atividades económicas associadas à cidade. Deste modo, enquanto os terrenos próximos da cidade se apresentam cultivados com vinhas e searas, dominados pela atividade agrícola e o intercâmbio comercial, o campo que se afasta da cidade, torna-se cada vez mais intocado pela mão humana. Esta pintura testemunha o crescimento da cidade burguesa e a sua influência sobre as paisagens rurais, sobretudo as que envolvem as cidades. O crescimento das cidades radicaliza a oposição entre cidade e campo, fazendo com este seja entendido como local idílico, fonte de serenidade e sabedoria.

Os jardins, nos seus vários modelos, desde o árabe ao inglês, têm presente esta conceção de paisagem. O jardim é um local privilegiado, uma natureza corrigida e controlada para criar um ambiente ameno, aprazível. Estes jardins são criados para proporcionar uma integração harmoniosa do Homem na natureza e para proporcionar um convívio harmonioso e saudável entre humanos. O seu planeamento proporciona este tipo de experiências: desde os recantos para o convívio íntimo e as alamedas que

24 Andrews, Malcolm, Landscape and Western art, Nova Iorque, Oxford University Press; 1999,,

permitem passeios partilhados; as perspetivas que permitem gozar as grandes vistas; passando pela grande diversidade de plantas e flores que proporcionam o conhecimento e o usufruto, em termos sensoriais, da natureza; até à apresentação de grupos escultóricos, abordando temáticas diversificadas, como a representação de figuras alegóricas, o que transporta para os jardins o reino dos significados e dos sentimentos.

«(...)Gardening in the Renaissance was sometimes thought of as introducing a «third nature» arising out of the subtle integration of nature and art so that the final result(…) seems to partake equally of both (…)»25

Para nós a relação com a natureza assemelha-se muito a este modelo de paisagem, procuramos na natureza um local de refúgio, fora do bulício e stress das grandes cidades. Igualmente consideramos que o convívio com a natureza é saudável, permitindo-nos respirar melhor, sentirmo-nos mais relaxados, pensar e refletir de modo mais compenetrado.

É sobretudo no contacto com os jardins que encontramos esta dimensão apaziguadora da natureza. No Jardim do Palácio da Ajuda ou no jardim botânico da Universidade de Coimbra encontramos sempre este ambiente apaziguador. Nestes jardins tudo está conjugado para proporcionar experiências estéticas. A conjugação entre os elementos naturais, conjuntos escultóricos, fontes, alamedas, cores, cheiros diferentes faz-se no sentido de proporcionar a serenidade e a exaltação dos sentidos.