Troisième partie : Complexité des modes d’utilisation et de consommation d’eau dans un espace à triple configuration des
II- La distribution de l’eau
2- Pourquoi la revente de l’eau au détail ? 1-Un mal nécessaire
É inegável que a mundialização do capitalismo como sistema econômico dominante, após a Segunda Guerra, ampliou assustadoramente as disparidades entre os países (FREITAS; NELSIS; NUNES, 2012, p. 43). Nessa ordem econômica criada, destacou-se o papel de país subdesenvolvido10 para aquele que possuía industrialização inexpressiva e
fornecia matérias primas para o seleto grupo de países industrializados.
Desta forma, existia uma dependência e desigualdade econômica criada pelo próprio sistema à custa da exploração de um país por outro, visto que os subdesenvolvidos, por um lado, importavam produtos industrializados, infraestrutura, tecnologias obsoletas e
10 Contemporaneamente, os organismos internacionais (Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio –
empréstimos; e por outro, exportavam matérias primas a custos reduzidos para pagarem as dívidas aos países detentores do capital, que cada vez mais investiam no crescimento de suas economias, por meio da acumulação de divisas, e consequentemente, detinham o status de países desenvolvidos.
Se no sistema de produção, a irrestrita liberdade do mercado era a base para as trocas de mercadorias com legitimidade dos bens privados, a riqueza econômica das nações, conseguida por meio da industrialização, era quem ditava a ordem das relações entre os países.
Assim como, até a década de 196011, as abordagens dos economistas clássicos que se dedicavam as teorias de desenvolvimento12 acompanhavam a ideologia do capital, portanto,
o crescimento econômico era tido como o principal meio para alcançar o desenvolvimento econômico, sendo o Produto Interno Bruto - PIB, a medida central do crescimento, logo do desenvolvimento (ENRÍQUEZ, 2010, p. 21).
Sobre estas teorias o economista Celso Furtado ironiza que o PIB é a ''vaca sagrada dos economistas'' (FURTADO, 1974, p. 115), e nada mais faz do que criar a ilusão de que com crescimento econômico, tem-se desenvolvimento. Ao contrário, alertava o autor, o crescimento da economia destrói o meio ambiente e se os países subdesenvolvidos mimetizarem os padrões de consumo e os privilégios das minorias industrializadas, mascarados pelo desenvolvimento, reproduzirão o caráter predatório do modelo de consumo do capitalismo que destrói e degrada em larga escala o meio ambiente, gerando concentração de renda, dependência cultural e tecnológica, desigualdades e os demais problemas da dicotomia desenvolvimento-subdesenvolvimento.
De acordo com Leff (2001, p. 136) a degradação dos sistemas ambientais, sociais e aumento vertiginoso da entropia é consequencia da racionalidade capitalista que é a lógica como instrumento de dominação da natureza e de destruição do meio social pois baseia-se em uma racionalidade científica e tecnológica, que visa aumentar a produção, a partir do controle sobre a realidade em busca de uma eficácia entre meios e fins, diminuindo as incertezas e imprecisões.
11 A esta etapa, após a crise de 1929 e destruição da Segunda Guerra, o sistema econômico foi embasado na
teoria do keynesianismo, a qual pregava o Estado intervencionista na sociedade e na economia fortalecendo o bem-estar social (walfare state). A partir de 1960 com a crise da superprodução adota-se como tendência o modelo neoliberal, limitando a atuação do Estado (regulador) e promovendo a abertura econômica, entrada de multinacionais, livre mercado, estímulos a globalização, privatização e circulação de capitais.
12 ENRÍQUEZ (2010, p. 21) destaca os modelos de Harrod e Domar, Robert Solow, Walt Whitman Rostow,
A racionalidade capitalista acelerou a crise civilizatória, a disparidade geopolítica instalada se traduzia precipuamente por meio da desigualdade social e da degradação ambiental, as quais apontavam que o crescimento econômico não atingiu a tão propalada crença de que o progresso ilimitado geraria naturalmente o bem-estar das populações e satisfaria as liberdades individuais. Portanto, mais de dois séculos após a revolução industrial, já não eram mais somente hostis e reacionários os discursos e teorias de que a promessa de sociedade prospera do capital não estava sendo cumprida.
Acerca disto, com maestria, Boaventura de Sousa Santos (2001, p. 56) sintetiza: A promessa da dominação da natureza, e do seu uso para benefício comum da humanidade, conduziu a uma exploração excessiva e despreocupada dos recursos naturais, à catástrofe ecológica, à ameaça nuclear, à destruição da camada de ozônio, e à emergência da biotecnologia, da engenharia genética e da consequente conversão do corpo humano em mercadoria última. A promessa de uma paz perpétua, baseada no comércio, na racionalização científica dos processos de decisão e das instituições, levou ao desenvolvimento tecnológico da guerra e ao aumento sem precedentes do seu poder destrutivo. A promessa de uma sociedade mais justa e livre, assente na criação da riqueza tornada possível pela conversão da ciência em força produtiva, conduziu a espoliação do chamado Terceiro Mundo e a um abismo cada vez maior entre Norte e Sul. Neste século morreu mais gente de fome do que em qualquer dos séculos anteriores e mesmo nos países mais desenvolvidos continua a subir a porcentagem dos socialmente excluídos, aqueles que vivem abaixo do nível de pobreza.
Esta problemática ambiental causada pelo crescimento econômico, que se acirrou a partir da década de 1970 impulsionou uma nova mentalidade, a qual passou a questionar as bases conceituais que legitimaram o desenvolvimento negando os danos à natureza13. Segundo Leff (2001, p. 17) a questão ambiental é resultante da contradição das bases de produção predominante, a qual problematiza, questiona e desconstrói o paradigma do crescimento econômico da modernidade.
Contudo, é importante acrescentar que a preocupação global com as questões ambientais, principalmente nos países tidos como industrializados, não foi resultado somente da consciência de que as extensas poluições geradas e seus efeitos comprometiam a qualidade de vida humana e ameaçava diversas espécies de animais e vegetais. De acordo com Lima (2011, p. 122) a poluição e degradação ambiental instalada em diferentes magnitudes representava uma ameaça ao sistema econômico hegemônico, visto que a exploração desenfreada dos recursos naturais encarecia e tornava escassa às aquisições de matéria-prima e energia, impondo obstáculos à reprodução dos meios de produção, e, portanto ao sistema.
13 Entre diversas abordagens, LIPIETZ (2002, p. 18) destaca que a ecologia política se constitui sobre essa base
conceitual e histórica, aprofundando a análise crítica do funcionamento das sociedades industriais avançadas e refletindo sobre os meios para um outro modo de desenvolvimento
Embora a crise ambiental imponha dificuldades ao sistema, na abordagem crítica, a crise não significa a destruição do capitalismo, pois ocorre a argumentação de que o sistema econômico sobrevive necessariamente da desigualdade, da exploração de oprimidos por opressores e carrega intrinsicamente o princípio de sua destruição, e a partir do momento de crise, o capitalismo se reinventa, comuta-se e sobrevive.
2.2 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO SISTEMA CAPITALISTA: UM