O trabalho, como condição eterna da existência humana, trata-se de uma eterna necessidade natural da mediação do intercâmbio orgânico entre o homem e a natureza, o trabalho, a atividade produtiva, desenvolve-se sempre no interior e por meio de uma determinada forma específica de sociedade. Mas o fato de o trabalho ser a categoria ontológica fundante da sociabilidade humana permite pensá- lo abstratamente, isto é, independentemente de toda e qualquer forma de produção, tendo por resultado a produção de valores de uso.
Francisco Teixeira, Pensando com Marx.
A sociabilidade humana é pautada fundamentalmente pelo trabalho, sendo esta uma categoria crucial para humanidade. Assim, o trabalho existe devido à atividade prática do homem e responde às suas necessidades e interesses. Desde os primórdios, com as necessidades de alimentação, abrigo, vestimenta e tantas outras, o homem passou a desenvolver sua capacidade e, começou, assim, a intervir na natureza e transformá-la; conseqüentemente , foi por ela transformado, como também foi transformada a relação entre ambos.
Somente o trabalho tem em sua essência ontológica um declarado caráter intermediário: é em sua essência uma inter- relação entre o homem (sociedade) e natureza, seja inorgânica ou orgânica, inter-relação que antes de tudo distingue a passagem no homem que trabalha do ser meramente biológico para aquele tornado social. (LUKÁCS, 1981, p. 14)
Mesmo quando atua com os meios e os recursos à mão, o homem altera as condições materiais de sua atividade, conseqüentemente suas concepções, na medida em que estas provêm da consciência do seu ser objetivada nas alterações produzidas, assim como das relações mantidas com os outros nessa produção.
Desde os tempos mais remotos o homem tem no trabalho sua fonte de existência, ou seja, sua vida é orientada através não só do trabalho, mas principalmente dele. Como bem coloca Marx, ao afirmar que o trabalho é uma das possibilidades humanas:
Antes de tudo, o trabalho é um processo entre homem e Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, medeia, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio (MARX,1983, p. 149)
A espécie humana é a única que cria necessidades além das biológicas, o que a diferencia das outras espécies animais. Isto só é possível porque o trabalho humano se constitui da intelectualidade. Sabemos que , a partir do trabalho, em sua realização que se concretiza no cotidiano, é que o ser social se distingue de todas as formas pré-humanas. Sendo assim, os seres humanos são dotados de consciência, uma vez que concebem previamente o objeto; mesmo sendo este um trabalho manual, há sempre uma dimensão intelectual. Como bem ilustra Marx:
uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de colméia. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e portanto idealmente. Ele não apenas efetua uma transformação da forma da matéria natural; realiza, ao mesmo tempo, na matéria natural seu objetivo, que ele sabe que determina, como lei, a espécie e o modo de sua atividade e ao qual tem de subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato isolado. Além do esforço dos órgãos que trabalham, é exigida a vontade orientada a um fim, que se manifesta como atenção durante todo o tempo de trabalho, e isso tanto mais quanto menos esse trabalho, pelo próprio conteúdo e pela espécie e modo de sua execução, atrai o trabalhador, portanto, quanto menos ele o aproveita, como jogo de suas próprias forças físicas e espirituais (MARX,1984, pp. 149-50).
Quando o homem interfere na matéria, essa interferência foi projetada antes no plano teórico, em sua mente, assim, podemos afirmar que uma das principais características humanas é o desenvolvimento do raciocínio, ou seja, o ser humano é fundamentalmente racional, no entanto, sua capacidade de desenvolvimento humano precisa de estímulos. Esse fato ocorre porque o ser humano é um animal social e seu comportamento, ou melhor, grande parte dele, é fruto de aprendizado realizado com outros seres humanos.
O ser humano é, assim, um ser capaz de criar símbolos, de representar e fazer modelos do que deseja criar. Dessa forma, somente o ser humano, pelo trabalho, é capaz de dar significado a cada objeto que constrói. Como bem assevera Ferreira Gullar,
O homem é o único animal que se inventa e inventa o mundo em que vive. A colméia, que a abelha fabrica hoje, tem os casulos da mesma forma hexagonal que tinha desde que surgiram no Planeta as primeiras abelhas. Já o habitat humano vem mudando desde sempre, da caverna natural ao casebre, que se transformou em aldeia, povoado, cidade até chegar à megalópole de hoje. O homem, para o bem ou para o mal, mudou a face do Planeta, utilizou os recursos naturais para produzir seu mundo tecnológico e dinâmico. Mudou a natureza, alterou o seu funcionamento biológico, meteorológico, sísmico. Seu habitat é primordialmente a cidade, esta complexíssima máquina que só funciona graças à tecnologia que inventamos e desenvolvemos incessantemente. (FERREIRA GULLAR, 1 jan. 2006, p. E6)
Sendo o trabalho importante para a sociabilidade humana e sua organização social, as transformações ocorridas na forma de produção nos diferentes períodos históricos passa, fundamentalmente, por ele. Assim, no tempo histórico atual, para entender o que rege nossas vidas e para onde elas caminham, faz-se necessário um estudo sobre a forma de produzir na atualidade, influenciada diretamente pela reorganização do capital, que no metabolismo social do capital é acentuada pela revolução tecnológica para intensificação de mais-valia. Desta forma, a tecnologia envolve fundamentalmente o trabalho, sendo necessário o estudo da relação estabelecida entre forças produtivas e maneiras de produção historicamente específicas.